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Caixa reúne todas as obras de Chaplin

Lançamento ajuda a relembrar a riqueza da obra deixada por ele

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2013 | 20h21

Embora agora meio em segundo plano, durante muito tempo seu nome foi praticamente sinônimo de cinema. Chaplin – A Obra Completa, caixa de 20 DVDs da Versátil, permite percorrer a íntegra do criador de Carlitos, desde quando o personagem ainda não existia até a parte final da obra, quando o Vagabundo deixou de comparecer na tela, pelo menos na aparência. São 13 longas-metragens e 65 curtas, com muitos extras que permitem situar a importância da obra e resgatar-lhe o significado.

A trajetória de Chaplin é única, em toda a história do cinema. Da infância miserável em Londres, alçou-se a gênio milionário nos Estados Unidos, criador do personagem universal que evoca a bondade e a compaixão em meio à pobreza. Mas também a malícia e a esperteza, o confronto com patrões e com a polícia, isto é, com as classes dominantes e com o aparato repressor do Estado. Essa postura de artista, e também algumas amizades e atitudes na vida privada, fizeram de Chaplin persona non grata diante do Comitê de Atividades Antiamericanas durante o macarthismo. O que o levou a deixar os Estados Unidos e estabelecer-se na Suíça, onde morreu no dia de Natal de 1977 aos 88 anos.

O cinéfilo que acompanhar seu percurso filme a filme assistirá à lenta construção desse personagem emblemático, um dos ícones mais fortes do século 20, sem qualquer dúvida. Ele vai sendo afinado pouco a pouco até surgir na fase da empresa Essanay, quando por fim em O Vagabundo todos os traços da figura são reunidos. As calças desengonçadas, a bengala, os sapatos cômicos, o chapéu coco, o bigodinho – quem não conhece a figura? Muito antes que alguém falasse em globalização, ela se difundiu em todos os cantos do mundo através da arte universalizável que é o cinema, em especial em sua fase muda, dependendo em tudo da mímica e nada do idioma para se comunicar.

Então vieram os longas-metragens que colocaram Chaplin no topo do cânone do cinema do século passado – Em Busca do Ouro (1925), O Circo (1928), Luzes da Cidade (1931), Tempos Modernos (1936), O Grande Ditador (1940). Com a arma do humor visual em suas gags célebres, Chaplin aborda grandes temas do seu e de todos os tempos – a ambição a devorar o homem, mas que pode ser redimida pela força da bondade que também leva dentro de si; a desumanização causada pela mecanização do mundo, a grande ameaça dos totalitarismos, e por aí vai. É como se todo um programa de crítica social estivesse contido nas em aparência singelas trapalhadas do grande vagabundo.

Essa ambição de fundo não passou despercebida nem pelo público e nem por artistas e intelectuais. Chaplin tornou-se “a” figura do cinema mundial durante muitos anos. Seus ideais humanistas o fizeram admirado por gente como Albert Einstein e Pablo Picasso. Entre nós, inspirou a fundação do Chaplin Clube, associação de cinéfilos como Otávio de Faria, Plinio Sussekind Rocha e outros, incumbidos de defender a pureza da linguagem cinematográfica que tinha nele sua figura de destaque. Carlos Drummond de Andrade escreveu um longo poema, Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin, uma ode ao Vagabundo: “Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo/Crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores/Ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e esperança”.

Como não poderia deixar de ser, dada a invejosa natureza humana, essa (quase) unanimidade universal também passou a receber ataques. Passou-se a dizer que o sucesso de Chaplin devia-se apenas ao personagem que criara, mas que, como diretor, era muito limitado. A essa tese, Chaplin responde com Casamento ou Luxo. O filme é de 1923 e Chaplin deixa outros atores encenando os papéis desse melodrama para brilhar apenas como diretor. Repetirá a dose, de maneira não tão bem-sucedida, em seu último filme, A Condessa de Hong Kong (1967), em que se contenta com duas breves aparições na tela.

Também deram Chaplin por acabado quando o cinema começou a falar com Al Johnson e seu O Cantor de Jazz em 1931. E é verdade que, formado no vaudeville, Chaplin prolongou a magia do cinema mudo enquanto pôde. Aquela que para muitos é sua obra-prima, Tempos Modernos, permaneceu fiel à limitação técnica anterior quando em 1937 o cinema já falava pelos cotovelos.

Numa época de forte polarização ideológica, como foi a da Guerra Fria, Chaplin viu-se acusado de inocente útil, colaboracionista, socialista, comunista e comedor de criancinhas no café da manhã. Como sabem os brasileiros de hoje, a polarização extrema sempre beneficia a boçalidade, e então Chaplin decidiu deixar os Estados Unidos, país onde fizera fortuna e seus principais filmes. O ambiente norte-americano tornara-se irrespirável e ele não deixou de referir-se a ele em suas obras posteriores, em especial Um Rei em Nova York (1957), sátira cruel da caça às bruxas e tido como revanchista por parcela da crítica afinada com a servidão voluntária aos poderosos.

Enfim, Chaplin veio do nada e subiu ao topo do mundo sem que o sucesso o fizesse fechar os olhos aos desfavorecidos. Isso não se perdoa. Como disse um crítico, Chaplin não foi o primeiro cineasta a retratar a miséria, mas foi o primeiro a tê-la experimentado. Tornou-se rico e famoso, o coração permaneceu à esquerda do peito e com isso ganhou detratores rancorosos. Homem, é bem verdade, cheio de contradições, Chaplin ganhou biografias desaforadas que jamais teriam sido publicadas caso alguma entidade como o Procure Saber da época tivesse o poder de vetá-las. Uma delas, a de Kenneth Lynn, calhamaço de mais de 900 páginas, retrata Chaplin de modo tão ácido que Andrew Sarris, ao comentá-la no New York Times Book Review, admira-se de o personagem ter escapado ao linchamento em praça pública. Ironias à parte, esses livros podem ter incomodado a família, mas em nada prejudicaram a apreciação da obra de Chaplin e o amor devotado pelo público à figura do Vagabundo.

O fato é que Chaplin ocupou durante tanto tempo o Olimpo cinematográfico que, aos poucos, fomos nos esquecendo do gênio que ele é. Isso explica, em parte, o fato de nenhuma de suas obras-primas ocupar as dez primeiras posições dos melhores de todos os tempos segundo a revista britânica Sight & Sound em pesquisa com 358 cineastas de todo o mundo. Ele aparece em listas individuais, em geral com Tempos Modernos, mas não soma pontos suficientes para entrar no cômputo geral. É hora de redescobri-lo.

Obras finais merecem reavaliação cuidadosa

A parte desprezada da obra de Chaplin é a mais recente, os quatro longas-metragens após O Grande Ditador: Monsieur Verdoux (1947), Luzes da Ribalta (1952), Um Rei em Nova York (1957) e A Condessa de Hong Kong (1967). O consenso é que ele teria feito suas obras-primas na fase muda e que, no final das contas, jamais teria se adaptado ao cinema falado.

É preciso ir com calma com essas conclusões tão definitivas e, para matizá-las, nada melhor que voltar aos filmes. E também, por que não?, a alguns dos grandes textos que sobre esses filmes se escreveram e destoaram desse coro de desafetos. Por exemplo, Verdoux, revisto, se revela como um trabalho extremamente corrosivo sobre esse matador de mulheres inspirado no criminoso verídico Landru, guilhotinado sob acusação de haver assassinado oito mulheres na França.

A ideia original de Verdoux é de Orson Welles, que convidou Chaplin para o papel principal. Mas Chaplin argumentou que não se sentiria à vontade sob a batuta de outro cineasta, comprou os direitos, escreveu ele próprio o roteiro (e a música, como de hábito), dirigiu e interpretou. O filme é extraordinário, com uma construção de suspense digna de Hitchcock, como comenta o diretor francês Claude Chabrol em um dos extras do DVD. A crítica social, a insubmissão religiosa (o diálogo entre o condenado e o padre, na prisão, é de antologia) fazem de Verdoux um trabalho notável.

Quem revê hoje Um Rei em Nova York entende que em seu tempo foi execrado mais por razões ideológicas que estéticas. A presença do velho rei deportado na capital do império, seu relacionamento com a jornalista oportunista e depois com o garoto prodígio que lê Marx fazem uma sátira das mais consistentes aos Estados Unidos do macarthismo. É a opinião do cineasta Jim Jarmusch, contida num dos extras. De acordo com o diretor de Daunbailó e Estranhos no Paraíso, Chaplin teria nada mais nada menos que decifrado o ethos de uma cidade “onde o dinheiro é tudo”.

Luzes da Ribalta é tido como um melodrama banal, com sua história do velho palhaço decadente, Calvero (o próprio Chaplin), apaixonado por uma bailarina jovem. No entanto, como escreve André Bazin, o filme deve ser visto como “falso melodrama”, com personagens ambíguos e trama imprevisível – dois traços que contrariam a estrutura de um melodrama clássico. Chaplin nunca está onde o espectador o supõe. Desconcerta e muda o eixo de evolução de suas histórias. Além de reservar cenas sempre inesquecíveis e surpreendentes. No caso, aquela em que Calvero remove a maquiagem diante do espelho e vê, com horror, o próprio rosto refletido no espelho. Calvero é Chaplin. Ou o que Chaplin poderia ter sido, caso não o tivesse salvado seu gênio criador. Calvero é cada um de nós e todos nós ao mesmo tempo.

 

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