"Cahiers du Cinéma" muda linha editorial

"Cem atores americanos" é a chamada de capa da Cahiers du Cinéma. A revista, tida como "bíblia dos cinéfilos", faz, também nessa edição, um rescaldo de Cannes, o festival francês considerado o mais importante do calendário. São osdois temas que dominam o número de junho. O tratamento que ganham já éreflexo das modificações editoriais que a revista vem sofrendo desde a saída doseu editor-chefe, Serge Toubiana. Aparentemente, a "bíblia", que vendeu açõesao Le Monde, resolveu popularizar-se. Tida como excessivamente intelectual,mesmo na França, país onde as pessoas ainda lêem, vinha enfrentando queda devendas. Novos tempos.E, nesses tempos novos, parece mais interessante buscar alguma originalidadeque exercer o velho e bom hábito de refletir. Assim, as análises "intelectuais"do cinema devem ficar mais e mais restritas às concorrentes da Cahiers, como aPositif e a Trafic. Não que não haja reflexão na Cahiers. Há. Ainda. Mas,convenhamos, o balanço de um evento vencido por um filme digital - Dancer inthe Dark, de Lars von Trier - poderia conter alguma discussão a respeito dessanovidade tecnológica e de como ela já afeta a estética do cinema. No entanto, aCahiers, prefere um ângulo novo e talvez mais chamativo. Dedica páginas epáginas do seu Journal de la Croisette (Diário da Croisette) às mulheresde Cannes, ou seja, atrizes e diretoras que deram colorido à festa. Tudo bem,mas desse jeito a "bíblia" parece querer aproximar-se da glamourosa Première.O dossiê dos atores americanos também é sintomático. Há achadosinteressantes nos pequenos verbetes dedicados a gente como Ben Affleck, oprimeiro da lista, e Catherine Zeta-Jones, a última. Muita bobagem, também. Ode Catherine, por exemplo, começa assim: "O que seria Catherine Jones sem oZeta, sem essa parte luminosa ligada a seu nome, suficiente para excitar aimaginação e inflamar os espíritos? " Ou seja, linha Première, com algum vernizintelectual. Nunca é demais lembrar que a Cahiers foi a ponta- de-lança docinema chamado "de autor". E que seus críticos e redatores se chamavamJean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Claude Chabrol.No Brasil - Já, por aqui, a boa notícia em termos de publicação sobre cinema é aSinopse, agora editada pela Unesp. A revista vem se firmando como um dosfóruns mais interessantes de debate sobre o cinema no País, ao lado daCinemais. Esta, editada no Rio, apresenta um perfil mais reflexivo; a Sinopseabre um saudável espaço para a provocação. As duas se complementam.Coerente com sua linha editorial, a Sinopse abre capa para CronicamenteInviável, o polêmico longa-metragem de Sérgio Bianchi. Quem viu sabe o quehá de atraente no novo trabalho de Bianchi - a disposição de enfrentar a caóticarealidade brasileira, expondo suas feridas à luz do dia, sem nenhumcompromisso em apontar soluções ou dourar a pílula. Há quem não goste, ouporque ache que alguns tipos e situações beiram a caricatura, ou porque nãotrava, em momento nenhum, a discussão política esperada. Como teve acolhidacrítica próxima da consagração e, em seu nível, transformou-se num pequenosucesso de público, parece óbvio que Cronicamente Inviável acertou o alvo emcheio. Provoca, divide opiniões, convida à discussão.A Sinopse analisa também outro filme recente, Através da Janela, de TataAmaral, que acabou não entusiasmando tanto, sobretudo se comparado ao longade estréia da diretora, Um Céu de Estrelas. O crítico aponta algumasinsuficiências, como a estrutura teatral do roteiro, que "não sofreria qualquerperda significativa se fosse totalmente encenada dentro de casa - como em UmCéu de Estrelas". Acha que a direção se omite e conclui que o filme é vítima da"ditadura do roteiro" - que, segundo o autor da matéria, Alfredo Manevy, "temsido a tônica no cinema brasileiro de dez anos para cá e vem provocando umacarência notável de idéias visuais na maioria dos filmes". A idéia, posta emforma interrogativa, não deixa de ser estimulante. Mesmo porque, uma dasexplicações favoritas para os desastres do cinema brasileiro tem sido ainsuficiência dos roteiros. Enfim, é uma boa discussão.Na mesma edição, a Sinopse registra e analisa o 3º Congresso do CinemaBrasileiro, que reuniu a categoria em Porto Alegre para debater uma amplapauta de problemas. Entre os quais, o mais agudo: qual o futuro dosmecanismos de financiamento do cinema, que estão visivelmente fazendo água?Em artigo sobre o assunto, Manoel Rangel vai ao ponto. "Já está passando dahora de que alguém diga em alto e bom som o que muitos pensam mas ninguémdiz: é preciso recriar a Embrafilme." Quem conhece a política cinematográficapor dentro sabe que esse tipo de afirmativa tem valor de heresia.

Agencia Estado,

15 de julho de 2000 | 18h10

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