"Cafundó", uma história brasileira de devoção

Paulo Betti sabe que está no centro deum furacão desde suas recentes declarações sobre as denúncias decorrupção que envolvem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva."Só se eu fosse louco para dizer que aprovo. O que eu falei foino sentido de um reconhecimento, o caixa 2 existe, não de umaaprovação." Ele compara sua declaração de que fazer política écolocar a mão na m... a uma que costuma ser atribuída a WinstonChurchill - "Se as pessoas soubessem como as salsichas e as leissão feitas, ficariam horrorizadas." O que Betti mais espera éque toda essa polêmica sobre o envolvimento do artista com apolítica não prejudique seu filme "Cafundó", que estréia nesta sexta-feira em São Paulo. "Cafundó" estreou na semana passada em Sorocaba, Itu eJundiaí. Já fez 3 mil espectadores. Betti espera chegar a 10 milem Sorocaba, o que seria altamente expressivo. O personagem queele retrata, João de Camargo, é daquela região. Há um culto aJoão de Camargo. Betti admite que é devoto. Diz que a decisão deco-dirigir o filme com Clóvis Bueno teve o objetivo de impedirque sua carolice predominasse. "O paganismo do Clóvis entroucomo ponto de equilíbrio", define. Desde que se entende porgente, Paulo Betti tem essa ligação profunda com a figura deJoão de Camargo. Ele lembra que seu avô, um imigrante italiano,foi meeiro de um fazendeiro negro, ali em Sorocaba. "Vivi minhainfância na perspectiva da senzala, olhando a casa grande naqual viveu esse senhor negro." Não há rancor nenhum no que diz,nem sombra de racismo. O diretor cercou-se de especialistas para que os cultos,os rituais, as crendices não sofressem qualquer deturpação em"Cafundó". O ensaio do sociólogo Florestan Fernandes foi umareferência importante e ele o incluiu no site oficial do filme. Na fase pré-Florestan, Roger Bastide definiu aigreja criada por João de Camargo como uma religião africana noBrasil. O filme trata de temas que permanecem atuais. Bettiadmira-se de que João de Camargo, em 1916-17, tenha criado umestatuto para sua instituição religiosa que hoje poderia muitobem pertencer a uma ONG. Embora devoto, ele jura que não feznenhuma promessa para ganhar os quatro Kikitos que o filmeobteve no Festival de Gramado de 2005 - melhor ator para LázaroRamos, melhor fotografia, direção de arte e prêmio especial dojúri. "Guardo meus pedidos para coisas mais importantes", elediz. Cafundó (Brasil/2005, 101 min.) - Drama. Dir. Paulo Betti eClovis Bueno. 14 anos. Cine Bombril 1 - 15 h, 17 h, 21h30. HSBCBelas Artes 1 - 15 h, 17h10, 19h20, 21h30. Penha 5 - 16h15, 20 h (sáb. e dom. 15h30, 17h40, 20 h). Unibanco Arteplex 5 - 14 h, 16 h, 19 h, 21h20. Cotação: Bom

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