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'Café Society' mostra que mesmo os sonhos falidos podem trazer algum conforto

Temos uma reflexão madura sobre a vida, o passado e, de quebra, sobre os bastidores da Hollywood clássica

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2016 | 06h00

Abençoados os artistas que conseguem conciliar leveza e profundidade porque deles é o reino das telas. São poucos. Woody Allen é um deles. Em sua batida habitual, um filme novo a cada ano, vai mantendo nível de qualidade incrível. Os piores são bons. E os bons são ótimos, como é o caso deste Café Society.

Nele, temos uma reflexão madura sobre a vida, o passado e, de quebra, sobre os bastidores da Hollywood clássica. Esse percurso existencial é feito seguindo-se os passos de um personagem jovem, Bobby (Jesse Eisenberg). Ele sai da proteção opressiva da família em Nova York e vai em busca de um tio, Phil (Steve Carrell), que faz sucesso como produtor em Hollywood.

 

Estamos nos anos 1930, quando a indústria de celebridades já está consolidada, e Bobby pensa que o tio pode lhe abrir uma fresta nesse mundo de fantasia. Consegue arranjar um pequeno emprego de mensageiro e uma secretária de Phil, Vonnie (Kristen Stewart), mostra-lhe a cidade e dois ou três detalhes da vida adulta. 

O plot, aqui, não interessa, mesmo porque o espectador tem o direito (e o dever) de descobri-lo por si, para seu próprio gozo e proveito. Vale apenas registrar a sagacidade com que é construído por Allen, colocado em cena, e fotografado por um mestre italiano como Vittorio Storaro. Assim se constrói a linguagem límpida em que a trajetória de Bobby se desenvolve. Algo que vai da construção do sonho, do idealismo negado pelo senso prático, e a tentativa de resgate do tempo perdido – que, em geral, vem tarde demais e não se presta como compensação daquilo que se perdeu na vida, para todo o sempre. 

Não se pode dizer que o cinema de Woody Allen seja otimista – ele é inteligente demais para isso. Mas o próprio reconhecimento da falência dos sonhos humanos nos traz algum conforto, não se sabe de onde. Essa, a sua grande arte. 

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