Cadeira vazia gera debate no belo filme ‘Os Dias com Ele’

Como se constrói um filme quando autora e personagem não estão de acordo? O caso de Maria Clara e Carlos Ecobar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2014 | 03h00

Vencedor do prêmio da Mostra Aurora, na Mostra de Tiradentes do ano passado, Os Dias com Ele ganha as salas fora do circuito de exibições especiais. Todo mundo vai dizer que é um filme ‘difícil’ – na forma, nos temas. Maria Clara Escobar fez um documentário nas bordas da ficção – uma ficção nas bordas do documentário? Em anos recentes, a dramaturgia brasileira, e não apenas a cinematográfica, tem assistido a singulares tentativas de resgate. No palco, um dramaturgo resgata o irmão travesti que morreu de aids e não teve seu apoio em vida. Na tela, uma cineasta tenta descobrir/reencontrar a irmã que morreu e outra cineasta recria a história da resistência à ditadura militar por meio de seu irmão que buscou o nirvana na droga.

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São filmes e peças mais ou menos logrados/realizados. E aí chega o filme de Maria Clara. Filha de Carlos Henrique Escobar, filósofo, dramaturgo e poeta, um intelectual que se autoexilou em Portugal durante os anos de chumbo, ela parte em busca desse pai com quem teve uma ligação mínima na infância. A psicanálise ensina que é uma fase importante na definição da personalidade e do caráter. O pai, pode até ter sido para não comprometer a família – mas foi também uma escolha para viver de forma mais plena sua opção ideológica –, afastou-se da filha. Ela, agora, quer se apropriar desse pai fugitivo. Como? Por meio de um filme.

 

De cara, cria-se a tensão. Maria Clara quer fazer UM filme sobre seu pai. Ele aceita a filmagem, mas quer que seja do jeito dele, como sempre viveu sua vida. O filme que ele está disposto a fazer não é o que Maria Clara quer fazer. Os Dias com Ele nasce e se desenvolve a partir desse movimento duplo – a filha quer, o pai não quer. O que o pai quer, a filha não quer. O filme se constrói no espaço desse embate. Pai e filha manejam as armas do convencimento, um tentando convencer o outro. O resultado carrega esse lado muito forte de um confronto intelectual, mas também é o resgate da memória da infância que Maria Clara não teve, do pai que lhe subtraiu o convívio.

Ele não facilita as coisas – e a relação, mediada pela câmera, precisa de outra mediadora. A nova mulher. O pai age com naturalidade dentro da casa. Interage com os gatos, o filho, a mulher. Com Maria Clara, no espaço que ela delimita com sua câmera, ele é mais formal. Em alguns momentos, chega a pedir à mulher que transmita alguma coisa à filha. Por antinatural que pareça – pois são pai e filha –, é também natural, porque Maria Clara age como uma estranha, a invasora desse lar. E o mais belo desse filme único é que ele logra seu testemunho – sobre o pai, a ditadura, a memória. Não se constrói sobre o que seria uma ferramenta possível, e até fácil, a impossibilidade.

Quem segue a Mostra Aurora, em Tiradentes, sabe que o tema do fazer é muito importante. Os filmes da seleção de Tiradentes buscam não apenas criar uma dramaturgia, como expor o método, os meandros, que levam a ela. Um momento é magnífico em Os Dias com Ele – Maria Clara pede ao pai que leia um documento do Dops, a Delegacia de Ordem Política e Social, autorizando sua prisão. Ele diz que não vai ler. Ela insiste. Brigam, e nesse imbróglio todo o espectador ouve são somente as vozes. Na tela, aparece só a cadeira vazia, em que o pai não quer sentar para ler. Maria Clara sai do seu posto, atrás da câmera, e senta-se para ler. Essa passagem, que pode não ser nada para um espectador que olhasse o filme de forma distraída, é tudo em Os Dias com Ele. Num filme como esse, não cabe olhar distraído.

OS DIAS COM ELE

Direção: Maria Clara Escobar.

Gênero: Documentário (Brasil/2013, 107 minutos).

Classificação: Livre.

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