Cacá Diegues faz comédia para celebrar a imperfeição

No início, a idéia de CarlosDiegues era adaptar os contos de Livro de Histórias, de JoãoUbaldo Ribeiro, reeditado com o título de Já Podeis da PátriaFilhos. O diretor conheceu o escritor nos anos 1960, numencontro promovido por Glauber Rocha. Cacá não hesita em definirJoão Ubaldo como um dos melhores criadores de tipos daliteratura brasileira. Apaixonou-se pelo Livro de Histórias,mas não conseguiu achar um eixo para integrar todas asnarrativas curtas, como Robert Altman fez com Short Cuts -Cenas da Vida, de Raymond Carver. Optou por fazer um só filmebaseado no conto O Santo Que não Acreditava em Deus. Talveztenha sido melhor assim.Com o título de Deus É Brasileiro, o 15º longa deCacá conta justamente a história de Deus que vem à Terra embusca de um santo que o substitua durante as férias - que elenecessita porque não agüenta mais a bagunça em que o homemtransformou o universo por ele criado. O filme estréia amanhã emmais de cem salas de todo o País. Em quatro cidades - São Paulo,Rio, Brasília e Campinas -, o público terá a possibilidade dever Deus É Brasileiro em projeção digital de HD (altadefinição). Não representa pouca coisa, considerando-se que ofilme apresenta efeitos que estão certamente entre os melhoresda história do cinema brasileiro, desenvolvidos para o diretorpela TeleImage. Cacá explica que não quis fazer um filme comefeitos para exibir a tecnologia de ponta de que o cinemabrasileiro dispõe, mas porque eles são necessários à história.Deus, que procura o santo brasileiro e descobre que oescolhido não acredita nEle, é interpretado por Antônio Fagundese o ator afirma que poucas vezes teve tanto prazer ao criar umpersonagem. "Como ninguém sabe como Deus fala ou anda, pudeficar à vontade para criar o meu Deus", ele diz. Espera, dequalquer maneira, que o público não pense que o cabotinismo dopersonagem de Cacá Diegues seja coisa dele. Deus, no filme,adora os bajuladores. Diz frases divertidas como: "Sou umapessoa fácil de se conviver, só não suporto que discordem demim."O filme também oferece belos papéis a Paloma Duarte e aWagner Moura, que a dupla de jovens atores, respectivamente deA Partilha e As Três Marias, valoriza com suas atuaçõesinspiradas. Como o conto de João Ubaldo é curto, tratandobasicamente do encontro de Deus com o santo, Cacá pôdedesenvolver quase um roteiro original. "O próprio João Ubaldome ajudou a desenvolver a história e a criar os personagens, mascomo não gosta de escrever roteiros me deixou livre paratrabalhar com o João Emmanuel Carneiro e minha mulher, aprodutora Renata Almeida Magalhães." Para o diretor, o filmeprossegue com seu projeto de investigar o Brasil e osbrasileiros, mas se você pede que ele defina Deus ÉBrasileiro ele não define: diz que o filme faz o elogio daimperfeição. O mais curioso é isso: é um filme divertido,inteligente, "quase" perfeito. Sobre as imperfeições do homem edo mundo.Deus É Brasileiro. Comédia. Direção deCacá Diegues. Br/2002. Duração: 110 minutos. 12 anos.

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