Bush marca reunião para alistar Hollywood

O mundo vai assistir no domingo a mais um episódio da intrincada relação entre cinema e política. O presidente dos EUA, George W. Bush, marcou para este dia uma reunião com dezenas dos principais representantes da indústria cinematiográfica americana. A pauta: como o cinema pode colaborar no combate ao terrorismo.A reunião será vetada à imprensa. Acontecerá em Beverly Hills, tendo como representante do governo Karl Rove, assessor sênior do presidente. Do lado de Hollywood, estarão os poderosos Jack Valenti (da Motion Picture Association), Rupert Murdoch (da Fox), Sherry Lansing (da Paramount), entre muitos outros. A Casa Branca garante que o encontro "confidencial e privado" não terá por objetivo um novo patrulhamento da produção cinematográfica. Nem quer devolver Hollywood ao estágio pós-Pearl Harbor, com seus musicais e dramas melosos e patrióticos. Mas o receio é grande."Não se trata, de maneira alguma, de uma tentativa de ditar o que a indústria do entretenimento deve ou não fazer", garante o assessor de campanha de Bush Mark McKinnon, que também estará na reunião. McKinnon diz que o objetivo é, tão somente, tomar vantagem do alcance da produção hollywoodiana, da qual talvez apenas o Afeganistão esteja livre. "Hollywood e a indústria do entretenimento são experts em criatividade e queremos ter certeza de poder aproveitar este talento no momento adequado", diz. Acredita-se que, com isso, o governo trate de difundir uma imagem mais simpática do americano entre os islâmicos, que desde os últimos anos de União Soviética se tornaram os bandidos preferidos de todo roteirista de filme de ação.Reunião parecida foi realizada há algumas semanas entre o governo e cerca 40 executivos das redes de televisão, produtores, artistas. Na ocasião, discutiu-se o incentivo de programas como documentários sobre a ameação do antraz e como promover a imagem americana mundo afora. Nem precisava: as TVs mostraram extremamente ágeis ao reformularem, antes de qualquer pedido, toda sua programação. E já faturam em cima, exibindo todo tipo de especial sobre terrorismo, Islã, Bin Laden etc. Desta vez, porém, a expectativa é maior. Foi o próprio Bush quem pediu o encontro, e Karl Rove está entre seus assessores mais próximos, ao contrário dos representantes do governo que se encontraram com a indústria da televisão. É o porta-voz da Motion Pictures, Rich Taylor, quem adianta que os estúdios estão ansiosos para discutir idéias de como encorajar o patriotismo americano: mensagens de apoio aos soldados nas frentes de combate, programas em árabe e farsi para veiculação nos países muçulmanos. Ao que tudo indica, mais uma vez, Hollywood vai atender ao alistamento.

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