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Budapeste, entre os duplos e os espelhos

Walter Carvalho faz adaptação bem sucedida do romance de Chico Buarque

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2009 | 10h40

Nada mais pessoal do que um texto assinado. Mas o que dizer de alguém que escreve nas sombras, para que outro receba o mérito do seu trabalho? É a vida do ghost-writer, esse ser paradoxal, que Chico Buarque escolheu como protagonista de Budapeste, romance que agora chega às telas sob direção de Walter Carvalho. "É um filme de duplos e de espelhos", diz Walter na longa conversa que teve com o Estado.

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E, de fato, se esse é o espírito do livro, ele está lá no filme, só que em outra linguagem. Costa é o ghost-writer vivido por Leonardo Medeiros, casado com a apresentadora de TV Vanda (Giovanna Antonelli). Ele vive nas sombras; ela, exposta na casa das pessoas através da telinha. Costa vai à Hungria, para um congresso de escritores anônimos. Conhece outra mulher, Krista (a húngara Gabriella Hámori). Apaixona-se. Pela mulher e pelo idioma. Há outra vida lá, às margens do Danúbio, bem diferente daquela a que ele se acostumou, à margem do Atlântico, no Rio. Em Budapeste, ele se torna Kósta. Dois nomes, duas identidades. Duas mulheres. Duas cidades. Budapeste é, também, se poderia dizer, um filme de paralelismos e simetrias.

Foi um trabalho cinematográfico de porte, um desafio, como conta Walter que assina seu primeiro longa solo de ficção. Antes, ele havia feito Cazuza - o Tempo Não Para, em parceria com Sandra Werneck, e documentários como Janela da Alma (com João Jardim) e Moacir Arte Bruta. Agora, teve de filmar num país estrangeiro e em idioma bastante difícil, para não dizer intransponível, para brasileiros. Leonardo Medeiros, o protagonista, teve de decorar suas falas, muitas delas longas, numa língua da qual nada compreendia no início, no meio e no fim das filmagens.

"Grande ator", encanta-se Walter. "Porque para dizer uma fala é preciso interpretar, há um gestual que acompanha o significado, a emoção do que se diz, e eu não sei como ele fazia isso, sem compreender nadinha do que falava." Pois é, Budapeste é assim - falado em húngaro boa parte do tempo. Claro, o filme poderia ter optado pelo caminho fácil das produções comerciais, nas quais não existem barreiras linguísticas. O cidadão sai de um país e chega a outro já falando perfeitamente o idioma estrangeiro. Ou, então, todos se entendem muito bem em inglês, o esperanto contemporâneo. "Mas então não seria Budapeste", diz Walter.

Com razão. Pois se existe alguma coisa de fundamental nessa história, e no filme que dela resultou, é a irredutibilidade das culturas. Certo, as pessoas não ficam ilhadas em seu próprio idioma, pois podem aprender e se adaptar. Mas, mesmo num caso em aparência milagroso como o de Costa na Hungria, sempre fica algo que, digamos, se perde na tradução. Se ele consegue se tornar um poeta em língua estrangeira, esta soará de maneira bizarra, como se algo fizesse eco, ou produzisse um ruído dissonante.

Tudo isso concorre para a construção do personagem Costa/Kósta, que é um ser duplo, em conflito consigo mesmo. Entre duas mulheres, duas cidades e também entre a necessidade do anonimato e a aspiração da fama. São linhas de força bastante complexas e contraditórias para conciliar num filme, e Walter Carvalho sabe disso. "Na verdade, o personagem principal é a literatura", diz, sabendo que essa musa é intratável , sobretudo quando se trata de passá-la para o mundo das imagens. "É outra linguagem, claro."

Também por isso Walter pediu que o autor do livro o auxiliasse na transposição. "Mostramos os seguidos tratamentos do roteiro ao Chico para que ele pudesse acompanhar o processo", diz. "Inclusive porque havíamos acrescentado coisas que não existem no livro que, afinal, é obra dele", diz. Entre esses acréscimos, há alguns verdadeiros achados. Entre eles o da Estátua ao Escritor Desconhecido, que encontraram em Budapeste, e de cuja existência Chico não sabia. Uma estátua em bronze, com o rosto do personagem coberto por um capuz e uma pena de escrever na mão. Reza a lenda que dá sorte aos visitantes tocarem a pena da estátua. Essa atração turística de Budapeste acaba se tornando altamente significativa na trama armada pelo cineasta. É com ela que o escritor fantasma vivido por Leo Medeiros se confronta - e parece nela ver refletida a sua própria imagem.

Outra estátua também tem "papel" importante na história. Estátua, desta vez, de um personagem bem conhecidos de todos aqueles que viveram atrás da "cortina de ferro" - expressão de Churchill para a parte da Europa sob influência soviética durante a Guerra Fria. Trata-se de Lenin, o pai da Revolução Russa, cuja efígie era onipresente no campo socialista até a sua dissolução no final dos anos 80. No filme, vemos a cena incrível da gigantesca estátua, desmontada, descendo o Danúbio. Uma cena que também fascina Costa, que fica a observá-la de uma ponte. "Levamos um dia inteiro para filmar essa sequência, e ela nos custou nada menos do que 26 mil euros", diz Walter.

Tanta despesa se justifica. "Com a estátua deu para filmar o rio sem recorrer a clichês visuais", explica o diretor. "Também permitiu lembrar que aquele país passou por uma mudança política profunda e recente". Além disso, é homenagem explícita, citação de um filme do diretor grego Theo Angelopoulos, que Walter Carvalho muito admira, Um Olhar a Cada Dia. Sente-se nos dois filmes a melancolia de uma realidade que se acaba mas, ao mesmo tempo, permite o nascimento de um outro mundo. Que, como é claro, não se sabe se será melhor ou pior do que o anterior.

De qualquer forma, a cena da estátua de Lenin foi também a que mais fascinou o autor do livro, conta Walter. Assim, Chico não apenas aceitou como aplaudiu esse acréscimo criativo ao seu trabalho. Ficou tão contente que consentiu em viajar até a capital da Hungria para fazer uma ponta no filme. Com direito a uma frase em húngaro, que ele decorou pouco antes, em Paris. Na cena, Chico cumprimenta o autor do romance e pede que este assine um autógrafo no livro...que o próprio Chico escreveu.

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