"Bruxa de Blair 2" é viagem rumo à histeria

É só um filme. O público é lembrado o tempo inteiro, durante a projeção de Bruxa de Blair 2 - O Livro das Sombras, com estréia marcada para o dia 9, que os fatos mostrados no filme anterior nunca aconteceram de verdade. Mas eles aconteceram sim. Bruxa de Blair, filmado por US$ 30 mil por dois estudantes, tornou-se um fenômeno de mídia. Registrada por câmeras de vídeo trêmulas, em estilo documental, a história foi apresentada como verdadeira e muita gente caiu no conto. Ajudou no convencimento sua abordagem experimental o fato de os atores terem sido abandonados nas matas de Maryland sem roteiro e direção, suscetíveis a sustos noturnos, seguindo apenas um comando: filmar tudo, o tempo todo. No final, as imagens eram apresentadas como se fossem reais, extraídas diretamente de fitas de vídeo encontradas no mato.O sucesso do website oficial, que trazia uma reportagem sobre a busca aos três desaparecidos, além de documentos sobre a bruxa "verdadeira", completou o circo, transformando Blair num culto. Com uma arrecadação de US$ 140 milhões, não foi apenas o filme independente mais bem-sucedido de todos os tempos, mas a produção mais lucrativa já rodada nos EUA.Difícil imaginar uma seqüência capaz de superar esse fenômeno. Portanto, não dá para invejar a missão de Joe Berlinger, que estreou como diretor de longa-metragens destinado a fracassar. Bruxa de Blair 2 foi quase uma unanimidade negativa entre a crítica norte-americana.O que parece ter incomodado os críticos foi Berlinger entregar um filme "convencional". A ironia é que ele foi escolhido para dirigir Blair justamente por ser um documentarista bem-sucedido, co-diretor de Brother´s Keeper (1992), Paradise Lost (1996) e Paradise Lost 2: Revelations (2000), que enfocam subculturas adolescentes e assassinatos brutais na América."Acho que os produtores queriam que eu desse seqüência ao estilo documental do primeiro filme, mas preferi inverter as expectativas", ele diz, por telefone de Nova York."Como diretor de documentários, fico atraído por filmar pessoas em situações reais", admite. "Mas isso já foi feito no primeiro filme." Berlinger revela que sentiu ciúmes de Bruxa de Blair: "É uma daquelas idéias que você gostaria de ter tido, especialmente para alguém que filma no estilo em que ele foi rodado." A idéia para a continuação é igualmente conceitual e merece pontos por sua engenhosidade. Para começar, Bruxa de Blair 2 tem consciência de que o "episódio" anterior foi um filme e não uma história real. Na verdade, numa reviravolta cínica, os personagens da nova produção são fãs daquele filme. Mas as camadas de subtexto, cinismo e referências pop não foram apreciadas pela maior parte da crítica norte-americana - alguns poucos, é verdade, aclamaram a seqüência como um filme de horror obrigatório. "A maioria dos críticos foi ao cinema disposta a odiar o filme", ele acredita. "A imprensa criou o primeiro filme, alimentando seu hype, e tentou destruir o segundo." Berlinger ainda demonstra irritação. "Diversas pesquisas de opinião e fóruns da Internet mostraram que o público apreciou o filme e não entendeu o porquê de a crítica ter sido tão cruel." Ele se defende: "Disseram que eu estava copiando cenas de outros filmes quando, na verdade, usei clichês e referências explícitas, durante as alucinações dos personagens, para demonstrar que eles eram obcecados por filmes de terror." Ele admite que fazer Bruxa de Blair 2 foi uma sinuca de bico. "Os fãs que gostaram do primeiro filme por ser tremido e anti-Hollywood nunca aprovariam uma seqüência, coisa típica da indústria, enquanto as pessoas que odiaram o filme e se sentiram roubadas por terem sido convencidas a vê-lo não iriam cometer o mesmo erro uma segunda vez." Então, por que fazer Bruxa de Blair 2? Berlinger explica que se sentiu atraído pelo fenômeno de mídia que representou o primeiro filme. "Minha seqüência é um comentário sobre o primeiro filme, uma chance de filmar o impacto do original."Bruxa de Blair 2 começa com uma montagem de reportagens e programas de TV, com direito ao depoimento de celebridades como Jay Leno, Conan O´Brien e Kurt Loder (MTV) intercaladas com moradores fictícios da cidadezinha de Burkittsville, onde os eventos teriam se passado, que discutem como o filme afetou suas vidas. Fato: hordas de turistas têm sido atraídas para Burkittsville, que não possui mais de 200 moradores, por causa de Blair. No ano passado, todos os sinais de estrada com o nome da cidade foram arrancados por fãs da Bruxa. Os habitantes da região ficaram tão furiosos, que proibiram a continuação de ser filmada no local, muito embora o nome Burkittsville permaneça nos diálogos. "Os moradores não entendem porque usaram o nome da cidade deles nessa história, afinal os fatos narrados no primeiro filme são todos fictícios", explica Berlinger. "Mas é essa mistura de ficção e realidade que causa impacto." Muita gente vai à cidade procurando encontrar os "marcos históricos" de Blair. E Berlinger resolveu aproveitar-se da situação em seu filme, introduzindo um jovem morador que ganha dinheiro explorando a lenda, seja por meio de vendas de bugigangas pela Internet seja por seu trabalho como guia oficial de Blair em Burkittsville - o endereço de seu website realmente existe. Um grupo de turistas, formado por uma gótica, uma bruxa moderna (wicca) e um casal de pesquisadores, embarca no tour da Bruxa de Blair. E o resultado é um banho de sangue, a partir do momento em que o título e a música de Marilyn Manson - produtor-executivo da trilha - preenchem a película."Um dos temas principais do filme é a validade da lenda de Blair", Berlinger comenta. "Será que a bruxa realmente existe ou foi só um filme?" Bem, o público, mais uma vez, ficará sem ver o rosto da bruxa, mas não será porque a câmera treme muito. É que o foco permanece o tempo inteiro nas pessoas de carne e osso. Marilyn Manson - "Quis introduzir a discussão sobre se a violência na mídia inspira violência na vida real, por intermédio de cinco personagens obcecados por um filme real." O uso da música de Marilyn Manson, que teria inspirado um massacre colegial no ano passado, ajuda a dar fricção à ficção. Repetindo um truque do primeiro filme, todos os atores usam seus nomes reais diante das câmeras. E há vídeos filmando tudo, o tempo inteiro."As pessoas tendem a crer que o que é capturado em vídeo costuma ser verdadeiro, enquanto que o cinema só traz histórias inventadas", ele diz. "Esse é um ponto-chave da história", explica. O diretor conta como conseguiu fazer com que os atores entrassem no "espírito" da coisa. "Ao preparar a cena do bacanal, eu os tranquei numa sala durante horas, enquanto tocava o mais barulhento death metal norueguês que consegui encontrar." A exaustão é visível no rosto dos atores. "Eu os fiz trabalhar por 16 horas por dia, a maior parte do tempo durante a noite, para obter um pouco de loucura real", conta. "Muito do que se vê no filme não é atuação, mas reação ao estresse das filmagens." Mas se, com o decorrer dos fotogramas, a história vai virando uma paródia/comentário de filmes sobre assassinatos de adolescentes - Pânico é uma referência evidente -, cheio de sustos, nudez gratuita e sangue para os fãs do gênero, ela se mantém consideravelmente melhor do que se podia esperar de uma seqüência da Bruxa de Blair. Berlinger criou um produto que não se alinha ao horror adolescente típico. É uma viagem rumo à histeria, similar à perpetrada por John Carpenter em À Beira da Loucura. Ele aprecia a comparação. "Gosto dos bons terrores psicológicos", admite. "É onde tentei encaixar meu filme." Em seu próximo trabalho, continuará na tendência. Berlinger deve refilmar o cultuado The Wicker Man, horror pagão da Hammer, originalmente estrelado por Edward Woodward, Christopher Lee e Britt Ekland em 1973.

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