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Bruno Ganz é o pai da psicanálise em 'A Tabacaria'

Eterna obsessão: Freud, que já foi personagem de grandes filmes, fascina diretores

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 07h03

Momento de emoção no Festival de Berlim, em fevereiro. O diretor do evento, Dieter Koslick, que se despedia da função, anunciou a morte de um amigo da Berlinale - o ator suíço Bruno Ganz, no dia 16 de fevereiro. Aos 77 anos, em Zurique, despedira-se o ator de tantos grandes filmes e diretores. Recém-estreara - no fim do ano - A Tabacaria, de Nikolaus Leytner, e A Hidden Life, de Terrence Malick, iria para Cannes, em maio. 

‘Freud explica...’ A frase virou bordão. Com a ferramenta da psicanálise, não há tema que não possa ser decifrado. Em A Tabacaria - que estreou na quinta-feira, 5, depois de passar pelo Festival de Cinema Judaico -, Bruno Ganz, como Dr. Freud, admite sua ignorância perante o feminino. Mulheres desafiam o entendimento, diz ao garoto apaixonado que vem lhe pedir conselhos sobre como impressionar a mulher que pretende conquistar.

Bem antes que Bruno Ganz (1941-2019) interpretasse o velho Freud de A Tabacaria, o chamado pai da psicanálise já havia sido personagem de filmes de grandes diretores. Billy Wilder nunca filmou Freud, mas gostava de contar como, jovem repórter em Viena, chegara à porta de seu consultório e espiara, de relance, o célebre divã. 

Em 1962, entre Os Desajustados, que o dramaturgo Arthur Miller escreveu para sua então mulher, Marilyn Monroe - a união acabou durante a filmagem - e A Lista de Adrian Messenger, John Huston encarou o desafio de contar na tela a vida de Freud. No Brasil, seu filme chamou-se Freud, Além da Alma

Sempre atraído por personagens que se impõem tarefas difíceis, senão impossíveis - a validade do esforço e a inevitabilidade do fracasso eram seus temas favoritos -, Huston entregou o roteiro a ninguém menos que Jean-Paul Sartre. O filósofo entregou-lhe um calhamaço de 900 páginas, o que resultaria em um filme de dez horas. O próprio Huston, com Wolfgang Reinhardt e Charles Kaufmann, fez a redução. Sartre, por mais apreço que tivesse pelo artista e pela arte, dizia que não reconhecia o seu Freud no de Huston.

 

De John Huston a Nikolaus Leytner, de ‘A Tabacaria’, Freud fascina diretores



Montgomery Clift é quem fazia o protagonista de Freud, Além da Alma, de John Huston. Atravessava um momento difícil. Sofrera um acidente de carro que deixou sequelas em seu rosto. Pouco antes, havia feito De Repente, no Último Verão, de Joseph L. Mankiewicz, baseado na peça de Tennessee Williams sobre neurocirurgião contratado por milionária (Katharine Hepburn) para lobotomizar a sobrinha (Elizabeth Taylor). O que a poderosa Mrs. Venable tenta impedir é que Catherine revele o segredo da morte de seu filho - a homossexualidade de Sebastian. Foi uma rodagem complicada. Hepburn queixou-se mais tarde que Mankiewicz teria infernizado a vida do astro, que se mantinha no armário numa Hollywood preconceituosa e ainda sofria de uma paixão platônica por Liz.

Sua precária estabilidade emocional entrou em colapso por conta da própria ficção. Monty era um ator do ‘método’. Tinha de ‘encarnar’ o personagem e o Dr. Freud, no filme, vive grande tensão. Investigando a mente de dois pacientes - Cecily Koertner e Carl von Schlosser, criados por Susannah York e David McCallum -, vale-se da interpretação dos sonhos para formular teorias sobre o inconsciente. Na época, a crítica não foi generosa. Na França, a revista Cahiers du Cinéma não tinha John Huston na conta de autor. Era - um verdadeiro autor - e a importância de Freud, para ele, ultrapassou a experiência de um filme. Abriu uma vertente psicanalítica que enriqueceu seu cinema, levando a uma obra-prima definitiva como Os Pecados de Todos Nós, em 1968.

Em 2011, quase meio século depois, foi a vez de David Cronenberg dar sua visão sobre os bastidores da nascente psicanálise. Um Método Perigoso ficcionaliza a relação volátil entre Freud e Jung. No centro da tensão entre os dois, está uma paciente, Sabina Spielrein, cuja histeria Carl Jung (Michael Fassbender) trata segundo o método do Dr. Freud (Viggo Mortensen). Quando Jung inicia uma ligação mais íntima com Sabina, é demais para Freud. Polemizam, e o futuro da psicanálise é muito determinado por essa rivalidade. 

No longa de Nikolaus Leytner, que agora estreia, um jovem de 17 anos vai trabalhar como aprendiz numa tabacaria de Viena. No ar, são perceptíveis os signos de tensão política, por causa do advento do nazismo. 

O garoto (Simon Morzé) apaixona-se e, sendo o renomado Dr. Freud um cliente do estabelecimento - onde compra seus charutos -, Franz não hesita em lhe pedir conselhos. Freud, que vive o dilema de permanecer ou sair da Áustria, admite sua ignorância em face do grande mistério representado pela mulher. Não deixa de ser a subversão da máxima de que Freud tudo explica. 

Vem mais Freud por aí. Ele inspira a primeira produção original austríaca da Netflix. Ainda sem data de estreia, a série Freud, falada em alemão, mostra o médico ainda jovem usando seus métodos para investigar serial killer e uma grande conspiração criminosa na Viena de 1886. Marvin Kren, da série 4 Blocks, dirige o roteiro de Stefan Brunner (Motoqueiro Fantasma - Espírito de Vingança) e Benjamin Hessler (O ABC da Morte 2). 

 

 

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