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Bruno Dumont fala de ‘O Pequeno Quinquin’, que se tornou fenômeno na França

Filme estreou em salas brasileiras nesta quinta-feira, 30

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Maio 2015 | 03h00

Na contramão de Fábio Porchat, que arrisca seu sucesso como ator de comédias num drama – Entre Abelhas –, um grande diretor francês de dramas muda o tom e se ensaia na comédia. Não é a única novidade sobre Bruno Dumont e seu O Pequeno Quinquin, que também estreou nesta quinta-feira, 30. O filme foi produzido como série em quatro episódios para a TV. Com a duração de 200 min. – mais de 3 horas –, fez sua estreia no Festival de Cannes do ano passado, na Quinzena dos Realizadores. Só em setembro, Le P’tit Quinquin estreou na TV, na França. Virou fenômeno de público e mídia. Dumont, que sempre dividiu o público e os críticos, tornou-se uma unanimidade. Seu filme foi saudado como ‘um evento’. No Brasil, até os críticos que reclamavam dos ‘excessos’ do autor – seja lá o que quisessem dizer com isso – capitularam. Numa entrevista por e-mail, Dumont confessa-se ‘ravi’, muito feliz. Mas ressalta – “A comédia é menos uma evolução natural que um verdadeiro aprofundamento do meu trabalho passado.”

O Pequeno Quinquin passa-se na região em que o diretor nasceu e filmou A Humanidade. Crimes bizarros – os restos das vítimas aparecem dentro de vacas – são investigados por dois policiais improváveis. Tudo é esquisito – os crimes, o investigador e seu auxiliar e o pequeno Quinquin, que chama dois amigos e uma garota (a namoradinha?) para também investigar. A pergunta inevitável – a comédia foi um desafio ou a certeza de que, para retratar a França profunda, só com humor? “O cômico é a última instância do drama. Revela-nos a essência da vida, da qual o drama é a superfície. E nos liberta de sua forma ordinária, a psicologia.”

Dumont, que sempre escreveu seus roteiros como romances, conta que agiu da mesma forma. Mas, considerando que o timing é decisivo na deflagração do humor, diz que a realização de Quinquin foi menos improvisada que a dos filmes precedentes. “O burlesco obedece a um mecanismo muito preciso de ações e diálogos de precisão. Os atores têm de atuar como se estivessem tocando uma partitura, e justamente por isso a escolha do elenco foi decisiva. Precisava de atores que subvertessem a regra dessa organização estrita.” E ele acrescenta – “Não conhecia nenhuma dessas pessoas, e a maioria nem é de atores. Escolhi-os por causa dos papéis e da ligeira disfunção que queria provocar na enquete policial. Tradicionalmente, os investigadores são ‘competentes’ aos olhos dos espectadores. Eu queria que não fossem, mesmo que, eventualmente, chegássemos a uma solução. Escolhi pessoas comuns e que nem são engraçadas na vida. Do jeito que trabalhamos, foram ótimos.”

O filme já começa engraçado em seu estranhamento. Foi uma estratégia para prender a atenção do público? “Nãããooo. O cômico e o dramático são variações de um mesmo tema, mesma gama. Não houve ‘estratégia’. Trabalho com ‘pessoas’, o que não é usual. Por sua necessidade de simplificação, o cinema comercial restringe a gama dos intérpretes e tende a trabalhar com modelos identificáveis de atores, representando tipos também identificáveis. Essa idealização é tanto mais deplorável porque restringe a possibilidade de descoberta e de abertura para o outro. Nosso dever, como autores, deveria ser subverter as normas.”

No final de A Humanidade, o personagem era algemado e nem sabíamos se era culpado. Aqui, o desfecho é outro. “O suspense só me interessa como forma de encarar e veicular os mistérios da existência. As soluções só são boas para quem quer transformar a vida em laboratório científico. Prefiro o aspecto mágico e obscuro da realidade da vida.” O fato de Quinquin ter estourado na TV não o surpreendeu – “Na sociedade do divertimento, a comédia tende a ser mais amável.” E a diferença entre cinema e TV ? “Usei menos planos distantes, porque as pessoas não os veriam na TV. O ritmo, que foi mais importante, foi consequência da necessidade cômica, e não do formato.” Sobre o racismo antiárabe que identifica na França profunda, ainda na fase anterior ao ataque a Charlie Hebdo, é definitivo – “O cinema nos espelha e nos purga. Não deve ser um assunto de moral nem de polícia nem de religião. Para mim, o cinema é uma máquina de lavar.”

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