Bruno Dumont exerce a arte refinada da comédia em 'O Pequeno Quinquin'

Diretor retoma seus temas habituais, agora sob a forma do riso

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 03h00

Uma série de crimes extravagantes, investigada por uma dupla de policiais não menos exóticos - tal é a história de O Pequeno Quinquin, primeira comédia do diretor francês Bruno Dumont. Quem conhece a filmografia de Dumont - cineasta conhecido pelas cenas longas e profundas, cheias de mistério - jamais o adivinharia capaz de fazer uma comédia. No entanto, Quinquin, vamos dizer logo de entrada, é bem engraçado mesmo. Filme extenso, de 200 minutos, tem origem numa minissérie de TV produzida pelo Canal Arte, e que fez grande sucesso na França. 

Na história, Quinquin é o garoto que inferniza a vizinhança com suas travessuras. Os personagens vivem em Boulogne-sur-Mer, na beira do Canal da Mancha, nordeste francês. É um mundo rural, ainda que debruçado sobre a praia. Lá, começam a acontecer crimes misteriosos. Pedaços de seres humanos são encontrados no interior de vacas mortas, sem que se tenha a menor ideia de como foram parar ali. Os crimes são investigados por uma dupla para lá de estranha - o capitão Van der Weyden e seu auxiliar, o tenente Carpentier. 

Dumont, autor de sólidos dramas como A Humanidade, Fora de Satã e Camille Claudel 1915, encontra a graça nos pequenos detalhes cotidianos, quando não na esquisitice dos personagens. Quinquin é um garoto com defeito facial que usa aparelho para surdez. Ladino e malicioso, exerce liderança sobre o grupo. A dupla de policiais não obedece aos padrões, digamos, oficiais do filme policial. Van der Weyden é cheio de tiques nervosos e também não é fácil entender como funciona a cabeça de Carpentier, cujo maior sonho é equilibrar o carro da polícia sobre duas rodas. A família de Quinquin não parece lá muito certinha, a começar pelo menino, mas também pelo pai taciturno, Lebleu, e o tio, meio louco para dizer o mínimo. 

Na trajetória da investigação, o que se esboça é menos uma trama criminal que um retrato satírico da província francesa, com seus preconceitos (contra árabes e negros) e rivalidade com os ingleses, seus vizinhos do outro lado da Mancha. A intenção crítica é evidente, mas Dumont disseca esses costumes arcaizantes pelo caminho do riso, ao menos preferencialmente. Isso porque em pelo menos em uma ocasião, a morte de um adolescente, o drama entra em cena. 

Não é pelo fato de O Pequeno Quinquin ser uma comédia, e produzida originalmente para a TV, que Dumont renunciaria aos seus usos estéticos. Quem conhece o diretor percebe alguns dos seus traços de linguagem neste filme que só aparentemente é despretensioso. Usa a tela inteira, porque precisa dos grandes espaços para criar o clima de desamparo habitual. Tal como seu colega norte-americano David Lynch, busca a estranheza nos menores detalhes. E sempre se mostra aberto a uma epifania que pode surgir de uma hora para outra. 

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