Bruno Barreto filma "O Casamento de Romeu e Julieta"

Diante de um monitor, o diretor Bruno Barreto chama a dramaturga Jandira Martini para conferir uma cena. "Ficou boa?" Em parceria com Marcos Caruso, ela assina o roteiro de O Casamento de Romeu e Julieta, 16.º filme do diretor de Dona Flor e Seus Dois Maridos. A cena que ambos vêem no monitor é justamente a do casamento entre Romeu (Marco Ricca) e Julieta (Luana Piovani), na qual o ator José Vasconcelos faz o papel de padre.Refletores, câmeras, rebatedores, monitores e muita gente ocupa o altar da igreja lotada. Vitrais, pinturas por todo o teto, anjos esculpidos no altar principal compõem a cena na Basílica Nossa Senhora do Carmo, situada no bairro Bela Vista, em São Paulo. "A gente não deve se enganar com esta parafernália", diz o cineasta. "Na hora ´h´, para a cena sair boa, o que importa mesmo é o olho do ator." Por apostar na atração incomparável que um bom contador de histórias exerce sobre os outros seres humanos, ele decidiu convidar Jandira e Caruso para assinar o roteiro. "Cinema é dramaturgia. É contar uma boa história a partir da interação dos personagens", define. Por isso, para ele, a colaboração de um dramaturgo será mais interessante do que a de um escritor. "Se você tem na mão um bom roteiro e acerta na escolha do elenco, se for um acerto daqueles, na lata, já tem 70% do filme", argumenta. Ele já havia escrito um roteiro antes de convidar a dupla de autores teatrais. Chegou até eles graças às indicações do novelista Silvio de Abreu e do cineasta Hector Babenco, aos quais ele mostrou o seu roteiro. "Era fraco do ponto de vista dos personagens. Não servia ao filme que eu queria fazer." E que filme era esse? "Um filme mais trágico. Queria que o humor brotasse das situações e não da piada. Para fazer o filme que eu queria, precisava de gente que trouxesse verdade para a cena." Neste caso, nada melhor do que o teatro, onde a escassez de recursos é compensada pela verdade dos atores. Seu primeiro roteiro, inspirado no livro Palmeiras, um Caso de Amor, de Mario Prata, já tinha a estrutura básica do filme, a história de corintiano roxo que se apaixona por uma palmeirense. Parceiros em peças como Porca Miséria e Sua Excelência, o Candidato, a dupla parece ter entendido o desejo do diretor. "O Casamento de Romeu e Julieta não é uma comédia dessas de riso aberto", avisa Jandira, enquanto descansa sentada num dos bancos do pátio lateral da igreja. "Eu diria que é uma tragicomédia", diz.Não é difícil perceber de onde vem a graça do filme. Impossível deixar de sorrir numa conversa com Marco Ricca, intérprete de Romeu, em que ele conta seu embate com o personagem. Romeu sofre por ter de fingir que é palmeirense. Imagine ir até um estádio e sentar-se na arquibancada do time rival? Pois Ricca sofre duplamente, na pele do personagem e na própria, afinal, ele é palmeirense roxo. "Tem uma cena em que ele, o Romeu, não agüenta mais, bate no peito e diz: eu sou corintiano! Foi difícil dizer isso", fala Ricca meio rindo, meio sério. Mais que colaborar no roteiro, Jandira está acompanhando toda a filmagem. "Ela é o meu superego", diz Barreto. "Seu olhar é importante, porque estou trabalhando no fio da navalha. Se escorregar para um lado, caio no melodrama. Para o outro, na chanchada. E quero o tom da tragédia, porque o torcedor é trágico. As pessoas ficam transtornadas. Futebol é fundamentalismo."

Agencia Estado,

18 de fevereiro de 2004 | 11h51

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