Bruce Willis e Denzel Washington aderem aos vilões

Com um sorriso de barracuda, Bruce Willis enfrentava Denzel Washington, o defensor dos direitos humanos, em Nova York Sitiada, um filme paranóico sobre árabes do Brooklyn que paralisavam Manhattan. Isso antes de Osama Bin Laden & cia. transformarem a ficção em realidade. Bruce era um general linha dura que só queria atacar e arrebentar; Denzel era um agente-chefe da força antiterror. Três anos depois, eles disputam o público americano com Bandoleiros (Bandits) e Training Day.No filme de 1998 eles estavam apenas repetindo seus estereótipos. Bruce Willis, o durão de poucas palavras e muita ação. Quase sempre quando se pensa nele é como o detetive John McClane, o duro de matar da série que já teve três filmes. O exército de um homem só, que briga, atira e sobrevive como ninguém.Já Denzel Washington não tem sido menos estereotipado. O mais popular ator negro do cinema é uma espécie de novo Sidney Poitier. Ou seja, tem de ser perfeito para o eventual racismo do público branco não ser despertado. Assim como Poitier era um super-homem em filmes como Adivinhe quem Vem para Jantar, Denzel colecionou uma série de papéis de homem sensível ou idealista, capaz de resolver no braço ou no tiro alguma questão que a persuasão pura e simples não solucionasse. Basta pensar no advogado Gray Grantham, de O Dossiê Pelicano, no comandante Jim Hunter, de Maré Vermelha, no policial John Hobbes, de Possuídos, ou no querubínico Dudley, de Um Anjo em Minha Vida.Policial corrupto - Houve exceções nas carreiras dos dois, claro. Bruce começou a aparecer para o público fazendo o seriado A Gata e o Rato, que pouco tinha a ver com, por exemplo, o Joe Hallenbeck, de O Último Boy-Scout. Denzel já foi o ativista Malcolm X, por exemplo.Nos filmes que estão em cartaz agora nos EUA e estréiam no Brasil até o fim do ano, eles mudam a imagem, sobretudo Denzel Washington. Em Training Day, ele vive um tira corrupto, um certo Alonzo Harris, detetive da área de narcóticos da polícia de Los Angeles. Alonzo está na guerra das ruas de L.A. há 13 anos e, para ele, não há grande diferença entre o que é legal ou não. Seguir as regras pode ser fatal nos combates urbanos e pode atrapalhar o trabalho policial, na opinião do tira. Quando ele tem de testar um policial novato, ingênuo e idealista - e branco - chamado Jake Hoyt (Ethan Hawke), que tem idéias absolutamente opostas às suas, percebe que tem de ceder um pouco no seu pragmatismo.Os produtores ficaram nervosos com a mudança de imagem de Denzel. É verdade que Tom Cruise, por exemplo, fez um vampiro sanguessuga em Entrevista com o Vampiro, além de ser aquele divertido guru sexual em Magnólia. Ou que Keanu Reeves foi um psicopata assassino em O Observador e um espancador de mulheres em O Dom da Premonição. Mas Training Day foi um sucesso na semana de estréia e bateu Bandoleiros na segunda semana. Parece que o público não ligou para o Denzel Washigton malvado e deu razão a ele, quando disse: "Sou um ator. Não fiz os papéis que escolhi por causa do que acho que as pessoas vão pensar deles". Mas agora Washington volta a ser do bem em John Q, em que ele é um pai que domina um hospital até seu filho receber um transplante de coração.Já Bandoleiros mostra Bruce Willis como um ex-presidiário que sai do xadrez junto com um amigo (Billy Bob Thornton) e resolve assaltar um banco, para levantar dinheiro - eles querem fazer um hotel no México. Quando uma mulher entra no meio da dupla, as coisas já não parecem tão fáceis. A crítica americana falou que era uma versão levemente modificada de Butch Cassidy e que o elenco é muito melhor que o resto do filme.Willis é Joe, um sujeito de lábia, suave e charmoso, que hipnotiza as mulheres. Um personagem raro na sua carreira. Nas entrevistas que deu para promoção de Bandoleiros, ele foi bem claro: acha que está muito velho (47 anos) para ficar fazendo filmes de ação. E, na verdade, seu último no gênero foi Nova York Sitiada, antes das suas aventuras com gente morta em O Sexto Sentido. Seu próximo filme é Hart´s War, como um coronel durão e de poucas palavras. Como se vê, um estereótipo é mesmo duro de matar.

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