"Brother" realiza paranóia americana

Maldito japa, maldito negro. Cada vez que a frase é dita, sempre em tom de desprezo, no novo filme de Takeshi Kitano, ela precede as explosões de violência de Brother. O título é o mais simples do mundo: Irmão. A distribuidora Paris achou que era pouco e acrescentou um subtítulo ridículo, além de quilomêtrico: A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles. Brother foi recebido a pedradas no Festival de Veneza do ano passado. Ah, os críticos... Veneza consagrou Kitano com o Leão de Ouro quando ele fez Hana-Bi - Fogos de Artifícios. Kitano foi comparado, equivocamente, a Quentin Tarantino. Após a queda de Tarantino, esperava-se (alguns esperavam, pelo menos) a de Kitano. Ela veio com Brother.Mas o filme que estréia nesta sexta-feira é bom! Desordenado, destrambelhado, imperfeito, mas bom. Talvez para gostar de Brother o espectador tenha de ter sido formado na escola do cinema de ação. Ter visto westerns, policiais, filmes de gângsteres, de samurais. Brother tem alguma coisa do mais belo e triste dos filmes de samurais - Rebelião, de Masaki Kobayashi. Kitano, ator, diretor e roteirista, é um autor. Diz que Brother não representa uma virada em sua carreira. A virada, se houve, veio com Hana-Bi, que foi o filme que o consagrou internacionalmente. Mas Hana-Bi não era um primeiro filme. Kitano havia feito outros, antes, que o espectador conhecia pouco ou não conhecia nada. Daí o estranhamento produzido por aquele filme, o seu impacto.Com Brother, Kitano realiza os piores medos que enfrentavam os heróis da era Reagan, os Rambos, os Chuck Norris. Há um filme deste último que se chama A Invasão dos EUA, há outro de John Milius chamado Amanhecer Sangrento, no qual a América (leia-se os EUA) é invadida por russos e cubanos. A paranóia sempre levou Hollywood a inventar invasores do território americano. Eram identificados como do "mal". Alienígenas, nazistas, comunistas, tudo a mesma coisa. Kitano agora reverte o quadro e faz o seu Pearl Harbor. Brother conta a história de um japonês maluco que invade os EUA para criar, a ferro e fogo, um império. A estratégia é semelhante ao ataque que motivou a entrada dos EUA na 2.ª Guerra. Um início fulminante, depois o reverso. Mas algo muda no processo. Há um patetismo na figura de Takeshi Kitano que o torna comovente. Talvez sejam as seqüelas do acidente de moto, que o deixou com um esgar na boca. Mas a verdade é que há nesse homem capaz de explosões imensas de violência uma qualidade que comove a alma, que desperta um sentimento de piedade ou tristeza. Está ligado à vulnerabilidade física que os tiques faciais, a maneira de andar despertam no espectador. Na primeira cena, à saída do aeroporto, ele olha para a câmera. O ângulo é enviesado, Kitano faz o enquadramento horizontal. É como se o personagem de Kitano chegasse para pôr ordem num mundo em desordem. Mais tarde, ele vai enviesar de novo a câmera e aí fica claro que a idéia é de novo desestabilizar o estabilizado, a América (do Norte).O Beat Takeshi, como é conhecido no Japão, desembarca nos EUA. Vem fugitivo, ao encontro do irmão, pequeno traficante em Los Angeles. Kitano, que se chama Aniki, assume o controle da situação, amplia o território da pequena gangue, logo está em guerra com a Máfia italiana. E dê-lhe sangue. No irmão, ele encontra respeito, mas não amor. O brother de verdade, irmão de armas, é o negro (Omar Epps), outro marginal que se une a Aniki na sua guerra declarada à América. É um filme masculino. As explosões de violência e ternura (que existem) estão ligadas aos personagens masculinos, mas há uma prostituta meio felliniana, uma Cabíria, à qual se liga Aniki.É um filme feito de perdas, de sacrifícios. Amigos sacrificam-se, matam-se. O outro é sempre o inimigo, exceto pela ponte que estabelece entre os personagens de Kitano e Epps e que vai além das fronteiras raciais. É fácil localizar e expor os defeitos de Brother. Ao contrário de Hana-Bi e Verão Feliz, que tinham pressupostos bem definidos (a mulher, a criança, a busca da mãe), Brother dá a impressão de que não sabe aonde ir. O filme vai, simplesmente. Uma viagem iniciática, catártica e violenta, impregnada da áspera, bárbara poesia.Brother - A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles - (Brother). Drama. Direção de Takeshi Kitano. Ing-Jap/2000. Duração: 108 minutos. 16 anos.

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