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Brian De Palma, diretor de 'Scarface' e 'Os Intocáveis', completa 75 anos

Influenciado pelo mestre do suspense Hitchcock, também fez 'Vestida para Matar' e 'Carrie, a Estranha'; veja galeria e vídeos

O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2015 | 13h41

Carlos Reichenbach, que, além de grande cineasta, era cinéfilo apaixonado, tinha seus mandamentos em cinema. Amava, acima de todos (e todas as coisas), o italiano Valerio Zurlini, autor de filmes como Dois Destinos/Cronaca Familiare, Verão Violento e O Deserto dos Tártaros. Mas Carlão, como era chamado, também venerava dois autores profanos, e colocava no mesmo panteão Canibal Holocausto, de Ruggero Deodato, e o Scarface de Brian De Palma.

Brian Russell - pouca gente sabe que ele tem esse nome intermediário - De Palma! Ele recebeu nesta semana a homenagem do Festival de Veneza, que mostrou um documentário de Noel Baumbach e e Jake Paltreow, a ele dedicado. De Palma está completando 75 anos. Nasceu em Newark, New Jersey, em 11 de setembro de 1940.

A data é sinistra. Completam-se 42 anos do ataque ao Palácio de La Moneda que culminou com a morte do presidente Salvador Allende e a ascensão do famigerado general Augusto Pinochet no Chile, e 14 anos do ataque suicida às Torres Gêmeas, em Nova York.

O 11 de setembro virou data soturna e, embora tudo isso tenha ocorrido muito depois, não é de duvidar que eflúvios maléficos já rondassem os nativos da data. De Palma tornou-se famoso por seus filmes de assassinato e suspense.

Ele próprio tem seus mandamentos e, por muito tempo, se esmerou para ser o mais aplicado discípulo do mestre do suspense, Alfred Hitchcock, que fez todos aqueles grandes filmes que o cinéfilo sabe. Dentre eles, De Palma colocou no seu altar profano Psicose. Na obra cultuada de 1960, a fugitiva Marion Crane/Janet Leigh hospeda-se no motel de Norman Bates/Anthony Perkins. Reconsidera a bobagem que fez - fugir com dinheiro da firma - e resolve voltar, arcando com as consequências. Antes de dormir, toma um banho purificador, mas é atacada no chuveiro e morre brutalmente golpeada por facadas.

De Palma iniciou-se na direção com The Wedding Party, em 1964. Quatro anos mais tarde fez Greetings/Saudações, e aí passou a ser notado como cineasta promissor. Vieram depois Dionysus, Hi Mom, Get To Know Your Rabbit/O Homem de Duas Vidas. Foi, por sinal, De Palma quem apresentou Robert De Niro a Martin Scorsese, mas, por menos negligenciável que isso seja, trata-se apenas de um detalhe de sua biografia.

Em 1973, com Sisters/Irmãs Diabólicas, começa outra etapa de sua vida e carreira. Está bem, carreira evoca cocaína (e Scarface). Vamos dizer: trajetória. Sisters é sobre uma repórter que testemunha assassinato, mas, como não se encontra corpo nenhum, a polícia não acredita nela. A repórter investiga a suspeita por conta própria. Descobre que a doce Margot Kidder tinha uma irmã siamesa, que morreu durante a cirurgia feita para separar as duas. E agora Margot transforma a irmã que morreu no seu lado sombrio e sai matando.

O filme possui elementos de O Gabinete do Dr. Caligari (no médico louco que separa as irmãs), mas principalmente de Hitchcock. Psicose, claro, mas também Janela Indiscreta - o tema do voyeurismo é sempre presente na obra de De Palma. Irmãs é visualmente excitante e tem um suspense dos diabos, e o problema é justamente esse - o filme começa tão forte que De Palma até tenta, mas não consegue manter o clima até o fim.

Ele emendou, na sequência, O Fantasma do Paraíso, Trágica Obsessão e Carrie, a Estranha, a primeira versão com Sissy Spacek. Humilhada com sangue na cena do baile de formatura, Carrie usa seus poderes cinestésicos para se vingar.

Tem gente que se assusta só de lembrar da orgia de destruição que a garota ressentida provoca. De Palma fez dois filmes mais fracos - um deles, A Fúria, com Kirk Douglas, em 1978, e emendou três de suas obras-primas - Vestida para Matar, Um Tiro na Noite e Dublê de Corpo. O do meio talvez seja seu filme mais... Qual é o adjetivo? O policial mais clássico? o tema exigia - Blow-Out, título original, inspira-se no caso de Ted Kennedy, a morte da secretária no acidente de carro na ponte.

Em 1987, De Palma faz Os Intocáveis, assimilando, na cena da estação de trens, outra preferência de cinéfilo - a célebre sequência da escadaria de Odessa de O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein. Em 1995, inaugurou a série Missão Impossível e, na cena do laboratório, com Tom Cruise suspenso por fios no ambiente ascético, impossível mesmo é não evocar 2001, o clássico futurista de Stanley Kubrick.

A essa altura, em 1983, já fizera Scarface, com Al Pacino como gângster cubano que inunda Miami de coca. Não existe filme mais excessivo. Sua genialidade vem daí. Obcecado pela cena da ducha de Psicose, durante muito tempo podia-se pensar em De Palma como um tarado cujo prazer, nada secreto, era retalhar mulheres.

Em Irmãs Diabólicas, Vestida para Matar e Dublê de Corpo, elas são esfaqueadas, morrem com golpes de navalha e até perfuradas. Em Pecados de Guerra, sua revisão do Vietnã, De Palma mostra garota vietnamita estuprada por Sean Penn e outros soldados dos EUA, sob o olhar impotente de Michael J. Fox.

A mulher é a vítima preferencial no cinema de De Palma - surpreende que seja odiado, ou pelo menos posto em quarentena pelas feministas? É verdade que em boa parte de sua obra as mulheres não são flor que se cheire - A Dália Negra fornece um bom exemplo.

Pode-se argumentar que está havendo uma perda de vitalidade desde Missão: Marte, ficção científica, a bem da verdade, inqualificável. Alguns de seus filmes recentes nem chegaram ao Brasil - caso do último, Paixão. Mas Femme Fatale, que não é bom, tem tudo para ser o guilty pleasure, o prazer culpado do cinéfilo de carteirinha.

O filme começa com um roubo no banheiro do palais de Cannes. O fetichismo voyeurista do autor inclui uma mulher correndo pela rua com sapatos de saltos altos. A câmera segue rente aos seus pés. Não é só o visual que embriaga. É o som, também. Em muitos filmes, De Palma usou trilhas do compositor de Hitchcock, Bernard Herrmann. E Um Tiro na Noite constrói-se sobre uma pesquisa sonora do personagem de John Travolta. De Palma pode até nem ser mais tão grande, mas ainda faz de seu fetichismo o nosso, de espectadores.

 

  

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