Miguel Vassy
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‘Breve Miragem de Sol’, que estreia no streaming, traz a face do País desigual

Filme de Eryk Rocha tem Fabrício Boliveira como Paulo, o motorista que vara a noite do Rio na direção de seu táxi

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 21h54


Não foi nada premeditado, até porque Eryk Rocha não podia prever que seu longa Breve Miragem de Sol - Burning Night, em inglês -, iria estrear no streaming, em pleno isolamento social da pandemia. É um belo trabalho. Tem feito carreira em festivais do Brasil e no exterior. No Festival do Rio, no fim do ano passado, venceu três prêmios: melhor fotografia, melhor montagem e melhor ator.

Fabrício Boliveira é quem faz Paulo, o motorista que vara a noite do Rio na direção de seu táxi. Paulo separou-se recentemente e precisa de dinheiro para pagar a pensão do filho. Envolve-se com Karine (Barbara Colen), de presença tão fulgurante em Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. “Embora Bacurau tenha estreado antes, há um ano, Bárbara fez Breve Miragem antes”, explica o diretor. Seu filme acaba de estrear no GloboPlay. Bárbara faz uma enfermeira. “Tudo isso foi muito pensado. Mas agora ganhou outra dimensão. O Paulo está taxista e, por intermédio dele, o filme aborda a precarização do trabalho no Brasil, que, antes da pandemia, já era recordista de desigualdade e desemprego e agora tudo piorou. O mundo todo está sendo uberizado. E temos a Bárbara, nesse momento em que médicos e enfermeiros estão na linha de frente do combate à crise sanitária.”

Eryk não poupa elogios a seu elenco, e a seu excepcional ator. “O Fabrício fez toda uma preparação, indo ao encontro de taxistas para se documentar sobre a atividade deles. Ia nesses locais em que eles se reúnem à noite. Integrou grupos de WhatsApp, porque eles ficam trocando informações durante a noite toda, até por segurança.”

Essa troca contribuiu para o que Eryk chama de “camada dramatúrgica” de seu filme. “Eles (os taxistas) foram nossos consultores.” Fala numa câmera-corpo. “Paulo é um voyeur e o filme incorpora sua visão de dentro do carro. Seus olhos são a alma de Breve Miragem.” 

 


Existem filmes famosos com taxistas - Taxi Driver, de Martin Scorsese, Táxi de Jafar Panahi, que coloca o Irã inteiro dentro daquele carro. Eryk reviu principalmente o longa de Panahi, durante a preparação, mas sabe que seu caminho foi outro. 

“Encarei o Paulo como um narrador de nosso tempo, no sentido do Walter Benjamin. Refere-se à obra O Narrador, as considerações do ensaísta e filósofo sobre a obra de Nikolai Leskov. “O Fabrício improvisou muito na fase de preparação, quando estava buscando o personagem. A câmera estava ali, grudada nele, porque também era preciso achar a melhor maneira de filmar dentro do carro. Filmar a cidade. Esse material ficou tão rico que parte dele entrou no corte final.” 

Para o diretor, Paulo não é um herói, mas um sobrevivente. Dá cara a um país em crise, sem perspectivas claras. Representa uma inércia e a mulher, Karina, entra justamente para provocar Paulo e forçá-lo a encarar suas contradições e partir para a ação. E aí temos a possibilidade dessas breves miragens de sol.”

Em Transeunte, há dez anos, Eryk mostrou seu personagem, o aposentado Expedito (Fernando Bezerra), em contraponto a uma cidade em transformação. O Rio, naquele momento, construía-se para sediar eventos importantes, incluindo os Jogos Olímpicos. 



No novo longa, ele mostra um outro momento, de desmonte da cidade. “Fizemos uma pesquisa detalhada sobre a geografia da cidade, o Miguel (Vassy, fotógrafo), a Júlia (Ariani, corroteirista) e eu. Esse cara é um estrangeiro em seu território, e por isso o filme foge ao Rio ensolarado dos cartões-postais e busca uma representação mais precária, escura e até uma da cidade. É o Rio da periferia, essa cidade subterrânea da zona norte, onde a guerra coexiste com o afeto.”

Em Transeunte e Breve Miragem, Eryk filma corpos em movimento. Chega a definir o novo filme como o embate de um homem contra esse país - o labirinto que é o Brasil. A montagem (de Renato Valone) e a fotografia (de Miguel Sassy), ambos premiados com o Redentor, no Festival do Rio, buscam colocar o espectador dentro do carro “e ser o Paulo, vivenciando o turbilhão de experiências desse homem”. 

Miguel Sassy é uruguaio. “É o meu irmão. Nós nos conhecemos em Cuba, na escola de cinema, e ele tem sido o meu fotógrafo. É mais do que uma parceria profissional. A gente tem uma identificação muito grande. A luz da noite, a do amanhecer, é um poeta da luz.” E Fabrício - nos últimos anos, tem se mostrado a extensão de seu talento em filmes como Faroeste Caboclo, de René Sampaio, Tungstênio, de Heitor Dhalia, e Simonal, de Leonardo Domingues. 

Ao repórter, Fabrício Boliveira definiu Breve Miragem como “um retrato do Brasil”. Contou ainda que, na direção do táxi, e por ser negro, foi abordado de forma rude na noite. Seu comprometimento foi total. O filme só ganha com isso.

 

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