Bressane traduz Nietzsche na tela

Em Dias de Nietzsche em Turim,Julio Bressane reconstitui a temporada italiana do filósofoalemão, que morou na cidade de Turim de abril de 1888 a janeirode 1889. O filme baseia-se numa extensa pesquisa feita pelaroteirista Rosa Dias (mulher de Bressane), e o filósofo é,brasileiramente, interpretado pelo ator Fernando Eiras, em seusegundo trabalho com o diretor (o primeiro foi em OMandarim). Nietzsche viveu na Itália um dos seus períodos maisfelizes. Chegou a Turim, depois de passar por Gênova,hospedou-se num pequeno hotel e passava seus dias passeando,lendo, meditando e escrevendo. Mas foi lá, também, que sentiu osprimeiros sintomas da loucura, em que mergulhou definitivamenteaté a morte. Era um observador agudo e tirava, dos pequenos fatoscotidianos que vivia, material para reflexão filosófica. Comoreconstituir na tela uma aventura muito mais intelectual do quematerial? No fundo, é impossível, sabe Bressane. Há outroproblema, porém, e este é a passagem de um código a outro, a talleitura transemiótica. A prosa filosófica de Nietzsche, naencruzilhada entre o conceito, a literatura e a poesia, évirtualmente intransponível para outro meio, cinema no caso, eBressane sabe que ensaiou traduzir o intraduzível. Desse trabalho no fio da navalha, consciente de que oideal proposto é impossível logo de saída, vem o encanto dessefilme sensível. Bressane conhece a extensão do desafio, sabe queusar Nietzsche como signo significa a um tempo aproximá-lo edistanciá-lo do receptor. O filósofo se desvela na leitura, masquem leu Nietzsche sabe quanto de opacidade seu texto contém,como se estivesse se defendendo de uma leitura demasiado simples linear, de mão única. Como propõe o perspectivismo, expressa-se melhor poraforismos, por fragmentos, e nunca chega a constituir um sistemacoerente. Sua força vem de um fluir constante e deve ser lidocomo poesia. Ou ouvido como música, se quiserem. Mas é sempreuma dança na corda bamba estendida em cima do abismo - e esta éuma metáfora do próprio Nietzsche em Assim Falou Zaratustra.Mas se tudo isso dificulta a aproximação cinematográfica, aomesmo tempo fascina um artista como Bressane. O cineasta tem também sua teoria particular sobre aloucura de Nietzsche. Bressane chega à conclusão de queNietzsche era um mestre da língua, mas, em determinado momento,ele deseja ir além. Além da linguagem, rumo à coisa em si, o queconfigura um tipo muito particular de loucura. Numa leituralacaniana, Nietzsche teria imergido no Real (assim mesmo, commaiúscula), no horror da coisa, não mais mediada pelas palavras,que delimitam a realidade pensável, mas também podem enganar. Ou seja, Dias de Nietzsche em Turim fala de umagrande aventura intelectual. Uma aventura tão radical quetermina na morte, na loucura, no descentramento radical de si.Nietzsche é o filósofo do relativismo, e essa certeza entreparênteses, multifacetada, é buscada de várias maneiras, entreas quais o uso de seis texturas diferentes de película. Enfim, ofilme é um trabalho que tem o encanto de uma dessas missõesdifíceis - belas exatamente pela sua contingência inequívoca deimpossibilidade. Mas como não se emocionar com as imagens reaisde Nietzsche, retratado provavelmente pouco antes de morrer, em1900? Fernando Eiras faz um filósofo convincente, com seusbigodes expressionistas. O fato de ser um brasileiro não importa pois Bressane trabalha com conceitos e não com a mímese.Importava retratar a condição paradoxal que deve ter sido a deNietzsche, o homem civilizado, burguês mesmo, um legítimorepresentante da belle époque, convivendo com o subversivo nato,com o filósofo que se propunha a pensar na base da martelada -com agudo senso de destruição dos engodos e dos valores falsos. Esse Nietzsche que toma um sorvete no café italiano comtoda a elegância de um cavalheiro alemão, é um terrorista. Essesenhor meio excêntrico é a mesma pessoa que se propõe arelativizar todo o elenco de valores que sustenta a civilizaçãojudaico-cristã. Um dinamitador oculto em pele de cordeiro. Vale acrescentar que este é um dos filmes maisacessíveis de Julio Bressane, cineasta que não é conhecido porfacilitar a vida do espectador. Bressane é um artista de ruptura trabalhou sempre na vanguarda até chegar a uma linguagemprópria, a uma espécie de modernismo amadurecido, se o termocabe. Ninguém, no mundo, faz um cinema igual ao dele. É umaassinatura, goste-se dela ou não, e Bressane tem se empenhado emaprofundar essa marca original. Mergulha no mundo da altacultura, que por definição é universal, e a lê numa chavebrasileira. Foi assim com São Jerônimo e é assim com Nietzsche.Serviço - Dias de Nietzsche em Turim. Ficção. Direção deJulio Bressane. Br/2001. Duração: 85 minutos. 16 anos

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