Bressane e Reichenbach dividem platéia em Brasília

A mesma platéia que, no Festival de Brasília, consagrou Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach, dividiu-se na recepção a Filme de Amor, de Júlio Bressane: parte aplaudiu com insistência; outra parte vaiou, com igual entusiasmo. Bressane não é fácil mesmo. Ele sabe disso. Tanto assim que, como de hábito, pediu tolerância ao público, clemência para com um filme que sai dos padrões habituais. Bressane sabe que é preciso paciência para atravessar o deserto e, finalmente, encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris. Esse exercício é largamente recompensado, mas o público atual, habituado ao ritmo do videoclipe e viciado no cinema narrativo, não costuma ter a paciência entre as virtudes. Não é que não haja narratividade em Filme de Amor. É que ela se dá depois, a posteriori, quando tudo se fecha. Didaticamente, poderíamos dizer que, na tela, vêem-se duas mulheres e um homem humildes empenharem-se numa espécie busca intelectual e pela liberação dos sentidos durante um fim de semana num sobrado do centro do Rio. Quando esse sentido se fecha no fim do percurso, acontece como uma iluminação: o desfecho tem o valor de epifania, quase de revelação religiosa. Bressane diz que pede tolerância não pelo material erótico presente: "Isso é bobagem", diz. "Mais importante é a tolerância com um ritmo ao qual as pessoas não estão mais habituadas." O cineasta se dá conta de que as pessoas vivem hoje num ritmo que as esmaga, e, no entanto, por paradoxo, não se revoltam contra esse ritmo - revoltam-se contra aquilo que se opõe a ele. Por isso, Filme de Amor deve ser visto não como uma trip pessoal do cineasta, como, às vezes, se sugere. Seria, antes, uma proposta de liberação. "É preciso tempo para que você possa perceber as coisas, sem pressa, livre do afogadilho", diz o diretor. De resto, deve-se registrar que esse cinema poético e filosófico traz algumas das mais belas imagens da produção brasileira recente. Infelizmente, na época do cinema-porrada e do cinema-pipoca, há cada vez menos público para esse tipo de proposta - mesmo em festivais de ponta. Já Garotas do ABC dispõe de mais pontos de contato com o espectador. Mas não há nada nele que pareça a uma fórmula para agradar a quem quer que seja. O filme fala de uma garota operária, Aurélia (Michele Valle), que moureja numa tecelagem de máquinas antediluvianas, e namora um neofascista, Fábio (Fernando Pavão), porque ele é um "homem forte", e "toda mulher precisa de um homem forte", como ela diz para as colegas de trabalho. Forte, como seu ídolo Arnold Schwarzenegger, atual governador da Califórnia. Essa atração pelo fascismo é um dos aspectos interessantes num filme cheio deles. Há o grupo das operárias e há o dos jovens de direita, comandados por Salesiano (Selton Melo). A intersecção entre eles é o namoro da moça negra, Aurélia, com o rapaz branco, Fábio. Se é difícil pôr em marcha toda essa parafernália de elementos (e mais as citações-homenagens que vão de Fritz Lang a Glauber Rocha), quando o filme pega no breu, mostra que veio para ficar. Essa demora para engrenar faz parte de seu estilo, confessa Carlão. Mas o filme é tão bonito, sua honestidade é tão grande, e tão profundo o sentido de alegria que há nele, que conquistou o coração da platéia.

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