"Brava Gente Brasileira" mostra vitória dos índios guaicuru em 1778

Graças a indicação de um amigo, no final dos anos 80, Lúcia Murat descobriu uma história verídica que aconteceu no Forte Coimbra, no Pantanal do atual Mato Grosso do Sul, no final do século 18. O amigo em questão apresentou um relato militar que descrevia um acontecimento pouco comum ocorrido em 1778 entre os índios guaicuru e os colonizadores que ocupavam o forte. De uma forma engenhosa, os índigenas derrubaram a falsa imagem de que eram submissos aos desbravadores que avançavam sobre suas terras. A história marcou profudamente a diretora. Em 1997, um produtor perguntou se ela tinha algum projeto novo. Foi o estopim para que o relato do Forte Coimbra voltasse à sua cabeça. Lúcia Murat decidiu transformar em filme o feito dos índios guaicuru. O resultado está em Brava Gente Brasileira, que chega agora aos cinemas do País. Mas o enredo do filme não se concentra apenas no ocorrido em 1778 no Forte Coimbra. A diretora, que também escreveu o roteiro e produziu o longa, encontrou muito mais para contar quando se embrenhou no Pantanal, à procura dos índios kadiwéu, descendentes da tribo guaicuru. O contato com os índigenas contribuiu para que a história do filme crescesse. Apesar de trazer personagens ficcionais, o filme mostra uma realidade muito próxima da época e dos acontecimentos em questão. O roteiro é todo fundamentado em pesquisas históricas. "Quis mostrar dois mundos que se cruzam mas não se tocam" conta a diretora. A visão do choque entre a cultura dos brancos e a dos índios é representada pelo personagem Diogo (Diogo Infante), um portugês que é enviado ao Mato Grosso do Sul para realizar um amplo trabalho de mapeamento da região. Seu envolvimento com uma índia guaicuru chamada Anote (Luciana Rigueira) denuncia a dificuldade de uma real integração. "Diogo tem uma visão idealizada dos índios, ele acredita na possiblidade de integração", completa Lúcia Murat. Como não poderia faltar, há também soldados cruéis e mercenários que exploram os índios. Pedro (Floriano Peixoto) é o personagem que melhor representa a intolerância do colonizador. O acontecimento de 1778, que tanto chamou a atenção da diretora, acontece no final, marcando o clímax da história. Os índios conseguem vencer os brancos usando uma estratégia parecida com o episódio do Cavalo de Tróia. Leonardo Villar, Buza Ferraz e Sérgio Mamberti também fazem parte do elenco. As filmagens duraram sete semanas e muitas cenas aconteceram no próprio Forte de Coimbra. Além disso, uma cidade cenográfica foi construída em Bonito. No total, o filme consumiu R$ 1,4 milhões. Cerca de 40 kadiwéu participaram da produção fazendo parte da figuração. Durante um mês, a preparação foi feita pelo ator Murilo Grossi. Atualmente, restam apenas cerca de mil kadiwéu que vivem em uma reserva localizada entre as cidades de Bodoquena e Bonito, no Mato Grosso do Sul. As magníficas pinturas no corpo dos índios que aparecem no filme, hoje já não são mais usadas pelos kadiwéu. Eles só se pintam em ocasiões especiais, como em festas. Luciana Rigueira é a única atriz que interpreta uma índia. A diretora confessa que chegou a pensar em escalar uma índia de verdade para fazer Anote, mas acabou desistindo da idéia. "A personagem passava por situações difíceis, como uma cena de estupro. Seria complicado para alguém sem experiência fazer." O papel acabou rendendo o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília para Luciana Rigueira. Nas cenas em que os índios aparecem conversando entre eles não há tradução. O espectador não consegue entender o que é dito, apenas o que a situação insinua. O recurso foi uma opção da diretora para reforçar a idéia de "estranheza" que a cultura índigena ainda provoca nos brancos. "Mas é importante frisar que a falta de legendas não atrapalha a compreensão da história", completa. Depois de um amplo trabalho de pesquisa, uma das grandes descobertas de Lúcia Murat foi o garoto Adeilson Silva, de 11 anos, filho de uma índia kadiwéu com um branco. O menino sabe falar perfeitamente o português e o kadiwéu. Encantada, a diretora logo pensou que seria muito interessante se pudesse contar com o garoto no filme. Mas ainda não havia um papel para ele na história. Após realizar alguns testes e conversar com a equipe, o carisma de Adeilson acabou fazendo com que Lúcia Murat alterasse o roteiro e eliminasse um personagem que seria feito por uma mulher, para colocar o de Adeilson, que interpreta um menino branco que vive com os guaicurus após ser raptado. Além do prêmio de melhor atriz, Brava Gente Brasileira também recebeu o prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Brasília. Em setembro do ano passado, o filme participou do Festival Internacional de Toronto, no Canadá, onde foi elogiado pela crítica. Além disso, em 1998, o roteiro foi selecionado para o Laboratório Sundance Institute. Lúcia Murat, que já dirigiu Doces Poderes (1997) e Que Bom Te Ver Viva (1989), já tem um novo projeto, Quase Dois Irmãos, um filme sobre a classe média. Mas ainda não há previsão de lançamento. "O roteiro ainda está na primeira versão", diz.

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