Brasileiro quer documentar Kieslowski

Leandro Vilar tinha 16 anos quandoviu, na TV, Não Amarás. O primeiro Kieslowski a gente nãoesquece. "Fiquei passado", ele diz. Era artista plástico,morava em Londrina e foi cooptado por uma amiga para ver outrosfilmes de Krzysztof Kieslowski que passavam no cinema: A DuplaVida de Véronique e A Liberdade É Azul. "Fiquei maispassado ainda." Ficar passado representa admiração,encantamento, perplexidade. Vilar ficou tão fascinado pelodiretor polonês que transformou o cinema no projeto de sua vida.Atualmente com 24 anos, ele está no set do novo filme que HectorBabenco roda desde a semana passada. É produtor de arte emCarandiru. Simultaneamente, capta recursos para um projetopessoal, envolvendo o autor da admirável trilogia das cores.Chama-se Krzysztof Kieslowski: O Cineasta Que não FalavaPolonês. Por meio desse documentário, Vilar pretendereconstruir a trajetória (e a imagem) do diretor. "Ele diziaque fazia filmes para se comunicar, queria apanhar as pessoaspelos sentimentos." Apanhou o garoto brasileiro, que mergulhano projeto cheio de idéias e expectativa. Vilar não está sozinhonessa aventura. Ganhou uma cúmplice, a produtora Maria WilmaRispoll Marigo. Conheceram-se no set de Boleiros, de Ugo Giorgetti.Maria Wilma inscreveu o projeto do documentário na Lei Rouanet eeste mês já poderá captar também por meio da Lei Mendonça.Encontra muita gente interessada. Outros fazem ressalvas: achamque é um projeto muito sofisticado. Claro que é, mas Kieslowskié autor cultuado também no Brasil. Seus filmes nunca foramTitanics nas bilheterias, mas são obras de prestígio inabalável.É esse público que Vilar e Maria Wilma querem atingir e, sepossível, tocar. Vilar fez os primeiros Kieslowskis em 1994. Em 1998,comprou o livro "Kieslowski on Kieslowski", de Danusia Stok. Éum conjunto de diálogos e entrevistas com o diretor, discutindovida e obra (e a forma como se interligam). Dois anos depois,Vilar foi morar em Londres por um período, curto mas suficientepara que ele encontrasse Danusia e seu marido, o fotógrafoWitold Stok. Danusia era amiga de Kieslowski. Traduziu seustextos e entrevistas para o inglês. Generosa - e tocada peloempenho de Vilar - concordou em dar-lhe uma entrevista, que foigravada em mini DV. Danusia fala sobre o Kieslowski que teve o privilégio deconhecer: o diretor, o amigo, o homem político, o chefe defamília. Vilar gravou meia hora de entrevista com ela. Gravoumais uma hora com o marido de Danusia. E, de volta ao País, tevea chance de se encontrar com Jerzy Stuhr, quando o ator ediretor polonês dos filmes de Kieslowski veio a São Paulo paraparticipar da Mostra Internacional de Cinema. Aí foram duashoras de entrevista. Vilar já tem três horas e meia gravadas dematerial, portanto. Pelos termos do projeto - orçado em R$ 333.613 -, ele ainda pretende ir à Polônia para entrevistar aviúva e a filha do diretor, Marysa e Martha. E sonha alto:entrevistas com Juliette Binoche e Irene Jacob, a quem o grandediretor ofereceu papéis que fazem a diferença na carreira dequalquer atriz. Não pense que é só um sonho de guri. Vilar já tem apoiodo Consulado Geral da Polônia, que promete facilitar, de todasas maneiras, as ligações que Maria Wilma e ele, necessariamente,terão de ter no país europeu. E o projeto é tão sério (e bemembasado) que interessou ao produtor e distribuidor MarinKarmitz, da MK2. Karmitz, só para lembrar, produziu a trilogiadas cores, formada por A Liberdade É Azul, A Igualdade ÉBranca e A Fraternidade É Vermelha. Radiografia - É evidente a sinceridade de Vilar quandoele diz que seu maior desejo era ter conhecido Kieslowski. Naimpossibilidade de fazê-lo, já que o diretor morreu em 1996, aos55 anos, ele tenta reconstruir a figura em toda a suacomplexidade. Quer saber tudo sobre Kieslowski: como era em casae no set. Sabe que ele brigou com a atriz Grazyna Szapolowska, domaravilhoso Não Amarás, um dos mais belos filmes já feitos.Por quê? De que maneira isso pode lançar alguma luz sobre oartista enquanto homem? Por enquanto, Vilar só tem indagações.Espera dar respostas no documentário de 80 minutos, captado emdigital e que vai misturar técnicas (foto, fotomontagem). O diretor pode ser jovem, mas tem uma ambição legítima.Quer radiografar o homem que, no cinema, criou fama como oartista que radiografava a alma. Maria Wilma anuncia o telefonepara quem quiser participar: (11) 3167-3012. Seu e-mail émwmarigo@hotmail.com.

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