Brasileiro com experiência internacional filma no Rio de Janeiro

Formado em cinema pela New York University e com quatro curtas em seu currículo, dois na Big Apple e dois em Los Angeles, o diretor Gustavo Lipsztein concretiza, aos 28 anos, o sonho de dirigir o primeiro longa. Chama-se Death in the Water e está sendo rodado em Angra dos Reis, no litoral do Rio. O filme vai dar o que falar. Nele, Lolita encontra o garoto de E.T em alto-mar. "Lolita" é Dominic Swain, que interpretou a adaptação que Adrian Lyne fez do romance famoso de Vladimir Nabokov. O garoto de ET, que cresceu e virou um homem, sem perder o sorriso de menino, é Henry Thomas. São dois dos atores internacionais que a produtora Elisa Tolomelli trouxe ao Brasil para estrelar o filme que o diretor de fotografia Marcelo Durst, de Estorvo, define como um thriller na linha de Faca na Água, primeiro longa da carreira de Roman Polanski.Não é fácil chegar ao set de filmagem de Death in the Water. Primeiro é preciso ir a Angra dos Reis, onde está a equipe da produção (na Pousada Leopoldinense). Depois, é preciso pegar uma lancha e viajar durante meia hora por um mar que começa calmo e se torna progressivamente revolto. É um dos desafios de filmar no mar - e em Angra dos Reis. As condições climáticas são sempre uma incógnita. O tempo muda a toda hora. Na sexta-feira, dia 1.º, o plano de filmagem previa a cena do helicóptero. Os protagonistas da história estão no barco e um helicóptero chega para verificar se está tudo em ordem. Pelas indicações do roteiro, escrito pelo diretor, o céu tem de estar encoberto, mas há sol e há céu azul (até demais), neste dia.Havia. Em menos tempo do que uma pessoa leva para racionalizar o que está ocorrendo, o céu fica encoberto, o mar fica revolto, surgem um vento e uma neblina que tornam a cena perigosa. Às 15h, o helicóptero finalmente chega ao set, mas descreve um círculo sobre a balsa que abriga a equipe técnica e os equipamentos de filmagem, passa sobre a lancha na qual estão os atores (e que é o cenário quase único da ação) para desaparecer em seguida. Esse helicóptero encerra seu turno às 3 da tarde e agora será preciso esperar que outro helicóptero venha substituí-lo. O diretor não fica parado. Aproveita para fazer planos de cobertura - detalhes que ficaram faltando e serão necessários na hora da edição.Desenho de produção - Lipsztein conversa com a reportagem durante um intervalo da rodagem. Diz que a produtora Elisa Tolomelli supera os seus sonhos mais dourados do que deveria ser a produtora ideal. "Ela consegue milagres dentro do orçamento que dispomos", diz. Elisa informa que não é milagre, mas conseqüência do que ela chama de "desenho de produção", uma coisa que não é muito freqüente no cinema brasileiro. Antes de começar a rodar, durante a pré-produção, ela se reuniu com cada integrante da equipe técnica para discutir as necessidades específicas de cada cena. Com base nessas informações, estabeleceu o orçamento - que não pode estourar. Quando há um estourinho aqui, ela negocia para apagar o incêndio em outra cena, cortando o orçamento. Uma coisa compensa a outra e ela consegue se manter dentro do US$ 1,8 milhão da produção (quase R$ 3,5 milhões, o que não chega a ser exageradamente caro no inflacionado cinema brasileiro atual, considerando-se que filmar na água é complicado e três dos quatros atores principais são estrangeiros). A propósito disso, a pergunta é inevitável para Gustavo Lipsztein. Com seu título em inglês e atores americanos (que não falam português em cena) o filme mesmo assim é brasileiro? Ele não tem dúvida que sim. "O roteiro e a direção são meus e eu sou brasileiro, a equipe toda é brasileira, a começar pelo Marcelo (Durst), que faz a fotografia; o filme é brasileiro, sim". Dos quatro curtas que fez, ele destaca Colonel´s Last Flight, pelo tema político - passa-se numa ditadura latino-americana. O longa era um sonho de muitos anos. Angra dos Reis é a praia de Lipsztein. Seu pai tem uma casa ali. É onde ele fica. Todo dia uma lancha o apanha no trapiche da casa para levá-lo ao set. Sempre foi atraído pelo cenário de Angra dos Reis. É um paraíso, mas ele não se deixa seduzir pela aparência. Descobre a serpente no paraíso - a morte. Death in the Water significa "morte na água". É a história de três americanos que passam férias em Angra dos Reis. Viajam de lancha - Glória, Danny e Jeff. Glória é Dominic Swain, Jeff é Henry Thomas e Danny é Scott Bairstow, conhecido do público de TV (apareceu na série Party of Five). Com eles está Carlos, interpretado pelo brasileiro (nascido na Argentina e radicado em Los Angeles) Sebastian DeVicenti. Na história, o quarteto sai numa viagem de lancha. A título de brincadeira - uma brincadeira de mau gosto, claro - o trio de americanos lança Carlos ao mar. Quando voltam para buscá-lo, o rapaz desapareceu. Instala-se a confusão, o mal-estar a bordo. O grupo se desintegra.Morte na água. Todo mundo morre no final, alguém da equipe comete a indiscrição e diz. Todo mundo? Gustavo Lipsztein faz suspense - "É preciso ver o filme para conferir." Garante que há uma surpresa. Deve haver. Ele define Death in the Water como um thriller psicológico. Aceita o parentesco com A Faca na Água, de Polanski, mas sabe que o personagem que desaparece e a questão central do filme que gira em torno dele é uma coisa de Michelangelo Antonioni - A Aventura, começo da trilogia que prosseguiu com A Noite e O Eclipse. No clássico de Antonioni, o desaparecimento da personagem de Lea Massari deixa Monica Vitti e Gabrielle Ferzetti desorientados.René Clément - Eles a procuram, tentam rastrear sua trilha e, no processo, permitem ao grande Antonioni fazer aquele cinema da solidão e da incomunicabilidade que o alçou à condição de gênio. Lipsztein adora Antonioni. E Polanski, mas talvez ajude a entender a tal surpresa uma informação adicional que ele dá. Lipsztein gosta muito de O Sol por Testemunha, o policial do francês René Clement com Alain Delon no papel de Tom Ripley, o escroque criado pela escritora Patricia Highsmith. E Sol por Testemunha tinha aquele desfecho que todo mundo sabe - sobre um cadáver desaparecido que reaparece da forma mais inesperada possível. É bobagem ficar especulando, o filme só estréia em 2001. O diretor garante surpresas na sua história da serpente no paraíso e isso é o que importa. Ele explica a decupagem do filme. A decupagem é a operação que consiste em estabelecer os planos que vão integrar cada cena descrita no roteiro. No caso de Death in the Water, até por tratar-se de uma filmagem no mar, num ambiente ao mesmo tempo amplo e exíguo - há a imensidão do mar em torno, mas o espaço da lancha é limitado -, ele não pode fazer muitos malabarismos de câmera. Termina filmando em planos-seqüências.Não poupa elogios a Marcelo Durst. Na fase de preparar a produção, Elisa Tolomelli apresentou Lipsztein a diversos diretores de fotografia. Ela acha imprescindível que exista sintonia na equipe, mas principalmente entre o diretor e o fotógrafo. Lipsztein conversou com vários. Durst foi o preferido aquele com quem mais se identificou. O genial fotógrafo de Estorvo, de Ruy Guerra, está fazendo outro trabalho primoroso.Para não manter a equipe parada, naquela sexta-feira, Lipsztein filma os tais planos de cobertura. Aproveita enquanto há sol e o céu está azul. É uma das características do tratamento dramático e visual que ele dá ao seu roteiro. A história começa com sol a pino, quando é tudo festa entre os quatro parceiros de viagem. Depois, à medida que surgem as tensões o tempo vai ficando nublado e fica totalmente encoberto na fase final, quando os três sobreviventes estão à beira de um ataque de nervos.Essa utilização do décor pode não ser 100% original, mas é, com certeza, competente, e favorece a intensificação dramática do relato. É uma idéia que está no roteiro, mas como o roteirista também é o diretor, pode-se dizer que, na verdade, é uma idéia de mise-en-scene.

Agencia Estado,

11 de setembro de 2000 | 20h39

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