Brasil faz história na Mostra de Cinema

E a 29.ª Mostra BR de Cinema já entrou para a história. Primeiro, por criar um prêmio em dinheiro, atribuído pela Bombril, para a melhor ficção e o melhor documentário brasileiros, escolhidos pelo voto popular. E, segundo, porque dos 15 filmes selecionados pelo público para concorrer ao troféu Bandeira Paulista, que será entregue quinta-feira, sete (quase a metade) são brasileiros.São dois dos três documentários - A Mochila do Mascate, de Gabriela Greeb, sobre o cenógrafo e diretor Gianni Ratto, que nasceu na Itália e deu uma contribuição essencial ao teatro brasileiro; e Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim, que ouve estudantes entre 14 e 17 anos numa das cidades mais pobres do Brasil, em Pernambuco, e faz a ponte para ouvir o que dizem seus colegas de São Paulo e Rio. O resultado é muito mais rico do que você que ainda não viu o filme pode imaginar.Das 12 ficções selecionadas, cinco também são brasileiras - A Máquina, de João Falcão; Cafundó, de Paulo Betti e Clóvis Bueno; Cidade Baixa, de Sérgio Machado; Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; e Quarta B, de Marcelo Galvão. Oferecem um panorama bastante diversificado das tendências do atual cinema do País.Todo este sucesso do cinema brasileiro na Mostra de 2005 tem a ver com a própria riqueza e diversidade da produção atual. Nunca a representação nacional no evento criado por Leon Cakoff foi tão numerosa. Dos 350 títulos que compõem a programação, 42, ou 12%, são nacionais. O Brasil tem produção e diversidade, só precisa de visibilidade e espaço no próprio mercado para ter o público que merece e necessita, não ficando atrelado aos filmes-fenômenos como 2 Filhos de Francisco. O longa de Breno Silveira bateu nos 5 milhões de espectadores e já é o filme brasileiro mais visto desde a retomada, à frente de Carandiru, de Hector Babenco, e Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. O problema é que, tirando esses grandes filmes, a média da freqüência para o filme nacional ainda é baixa.JúriNo sábado, na tradicional feijoada no Terraço Itália, Cakoff e Renata Almeida não apresentaram só os finalistas. Apresentaram também o júri. Dois brasileiros, o diretor Fernando Meirelles e o jornalista Zuenir Ventura, mais a atriz argentina Antonella Costa; os diretores João Botelho, de Portugal, e Clemens Klopfenstein, da Alemanha; o diretor da Cinemateca de Estocolmo Jon Wengstron; a roteirista Marie-Josée Anselme, dos filmes de Amos Gitai; e o fotógrafo Christian Berger. Vão escolher, entre os mais votados pelo público, a melhor ficção e o melhor documentário realizados por diretores estreantes (até o segundo filme). Meirelles nunca participou de júris. Aceitou desta vez porque disse que deve sua formação de cinéfilo a Leon Cakoff, pelos filmes que ele vem exibindo na Mostra ao longo de quase 30 anos. Botelho também não acredita em julgar. Cinema é arte, não esporte. Espera votar no filme que mais o surpreenda. Ele queria ter uma câmera para filmar a vista que o Terraço Itália oferece. De fato, todo paulistano deveria ter direito de, pelo menos uma vez na vida, ver do alto essa São Paulo que se alastra por todos os lados. No caso da metrópole, diversidade quer dizer desigualdade. E isso se percebe só de olhar.

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