Brasil corre por fora em Cannes

Palma de Ouro, não. O Brasil não tem chancede receber o prêmio maior do 55.º Festival de Cannes, que começaamanhã, pelo simples fato de que nenhum filme brasileiroparticipa da competição. Mas o País participa da seleção oficialcom Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que passa nopalais e pode ambicionar o prestigioso prêmio da crítica, etambém Madame Satã, de Karim Ainouz, que integra a mostra UnCertain Regard e, por tratar-se de filme de diretor estreante,concorre à Caméra d´Or. A participação do País em Cannes 2002não fica só nisso.Walter Salles integra o júri, presidido por David Lynch, que vaidar a Palma de Ouro no dia 26 e Waltinho também vai mostrar ocurta que co-realizou com Daniela Thomas. A Saga dosGuerreiros integra a programação da mostra paralela Quinzenados Realizadores. Surgiu de uma proposta que a Société Françaisedes Réalizateurs que fez a Waltinho e a diretores de diversospaíses. Encomendou-lhes pequenos filmes para discutir aglobalização. O diretor do admirável Abril Despedaçadorecorreu à dupla de emboladores Castanha e Cajuzinho e, por meiode um plano-seqüência, acrescido de algumas fotos fixas,valeu-se do improviso dos dois para sartirizar a luta do cinemabrasileiro contra a máquina de Hollywood. Outro curta brasileiroem Cannes será Um Sol Alaranjado, de Eduardo (Duda) Valente,que passa na mostra chamada de Cinéfondation. E a participaçãobrasileira não termina aí.Pela oitava vez, o Grupo Novo de Cinema e TV participa doMercado do Filme, com 19 títulos da produção recente que serãoexibidos em 30 sessões para compradores de todo o mundo. O grupotambém está investindo em publicidade, com capas ou contracapasde publicações importantes. Três telões da Croisette também vãoprojetar, a cada hora, um comercial de 30 segundos sobre ocinema brasileiro. E o crítico Amir Labaki, criador do FestivalInternacional de Documentários É Tudo Verdade, fechando aparticipação brasileira, está no júri da Fipresci, FédérationInternationale des Critiques Cinematografiques, que vai atribuiros prêmios aos filmes que participam da seleção oficial.Você pode achar que Karim Ainouz é mascarado. Afinal, ele dizque nunca quis concorrer à Palma de Ouro. Não vai concorrermesmo, mas só o fato de seu filme Madame Satã integrar aseleção oficial, na mostra Un Certain Regard, já é uma vitória.Como Ainouz é estreante, seu filme concorre à Câmera de Ouro,que dá prêmios em dinheiro e serviços. Foram oito longos anosaté ele chegar a esse momento, em plena Croisette. "Li abiografia do Madame Satã em 1994 e me convenci de que aquelaera a história que eu queria contar."Mito - Não é a história de Madame Satã, o mito. É a história deJoão Francisco dos Santos, antes de ele virar Madame Satã. Essepersonagem do submundo carioca adquiriu status de mito quandoconcedeu, com a de Leila Diniz, uma das entrevistas maisincríveis da história do Pasquim. Em plena negra noite daditadura, o jornal deu voz a um preto, gay e criminoso. O fatode ser homossexual nunca impediu Madame Satã de enfrentar nobraço e na faca seus desafetos. Foi o gay mais macho da históriado Brasil."É uma história de exercício de liberdade", define Ainouz. Dizque fez um filme político, mas faz questão de colocar essepolítico entre aspas. "Estou falando da liberdade das pessoaspara usarem seus corpos." O filme focaliza o homem, não o mito.Termina quando João Francisco vira Madame Satã.O diretor já estava na França, na semana passada. Acertadetalhes da distribuição internacional do filme, que foico-produzido por Canal Plus. Lázaro Ramos, que faz oprotagonista, estará na Croisette para a exibição no dia 20. Éuma história tão inacreditável, parece tanto que saiu da mentede um adepto do realismo fantástico, que Ainouz colocou, naabertura da versão francesa, uma cartela que contextualiza JoãoFrancisco e deixa claro que ele, realmente, existiu. Ele aindanão sabe se manterá a cartela no Brasil. "Aí, o meu problema éinverso: tenho de deixar claro para as pessoas que o que elasvão ver não é a história de Madame Satã, senão elas correm orisco de decepcionar-se."Walter Salles, que não poupa elogios a Cidade de Deus, deFernando Meirelles, que integra a programação do palais, mesmopassando fora de concurso, também não poupa elogios a MadameSatã. Diz que o filme é 100% brasileiro e visceral. Ainouzestá curioso para saber como será a reação da crítica brasileiraque vai ver o filme, pela primeira vez, em Cannes. Talvez estejaaté apreensivo, mas de uma coisa está certo: "O filme saiu comoeu queria; mudou muito desde o início; afinal, foram oitoanos."

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