Daniel Teixeira/ Estadão
O produtor Rodrigo Teixeira acredita que o longa será um dos finalistas Daniel Teixeira/ Estadão

Brasil começa a trilhar o caminho para o Oscar

Sem ajuda da Ancine e com apoio da Amazon, ‘A Vida Invisível’ inicia sua campanha

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 07h00

A batalha oficialmente começou na terça, 1.º, quando terminou o prazo para inscrição ao Oscar de melhor filme estrangeiro - agora denominado pela Academia como melhor longa-metragem internacional. Com isso, o representante brasileiro, A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, está oficialmente na luta - e com grande chance. Além da chancela recebida no Festival de Cannes, em maio, quando conquistou o segundo principal prêmio, Un Certain Regard, o longa produzido pela RT Features tem uma importante aliada na campanha americana: a Amazon, gigantesca plataforma de streaming.

“O primeiro passo foi antecipar de janeiro para dezembro a estreia do longa em dois grandes mercados americanos”, conta o produtor Rodrigo Teixeira, da RT, referindo-se a Nova York e Los Angeles. “Teremos ações nessas cidades, além de Londres e Paris, onde há também muitos votantes.”

Na verdade, a campanha é praticamente mundial, pois há eleitores em vários países, inclusive no Brasil. “Espero ter aqui ao menos um apoio da comunidade artística”, comenta Teixeira, que descobriu uma pedra no caminho tão logo A Vida Invisível foi o longa escolhido para representar o Brasil, em agosto: no dia seguinte ao do anúncio, recebeu um comunicado da Ancine informando que a agência não poderia contribuir para a campanha internacional, como era hábito. Com isso, ele deixou de contar com R$ 200 mil. “Na verdade, eu já não contava com esse aporte”, confessa Teixeira, que concentrou esforços no apoio acertado com a Amazon. “Os executivos da plataforma ficaram empolgados com a delicadeza do filme e decidiram organizar uma campanha parruda.”


Ainda que não fale em valores, Teixeira deixa escapar que as cifras investidas deverão se aproximar dos seis dígitos. O necessário para cumprir um organograma que inclui, além do lançamento do filme no final de dezembro em Los Angeles e Nova York, anúncios publicitários em mídia especializada (como a revista Variety), participação em festivais que, embora não tão conhecidos, foram o circuito especial para o Oscar e, principalmente, sessões especiais para os votantes da Academia.

“É nesse momento que o contato com o eleitor é direto, portanto, é organizada uma apresentação especial”, conta Teixeira, que vai decidir com a Amazon quem serão os apresentadores do filme nas sessões de Nova York e Los Angeles. “Penso em convidar James Gray (diretor de Ad Astra) e até Martin Scorsese, caso ele não esteja ocupado demais com seu novo trabalho, The Irishman.”


 

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‘A Vida Invisível’ se encaixa no cinema hoje, diz Karim

Diretor explica que o filme fala da condição da mulher e do patriarcado, 'que são coisas que estamos discutindo hoje'

Mariane Morisawa, Especial para 'O Estado'

04 de outubro de 2019 | 07h00

ZURIQUE - O 15.º Festival de Zurique, que acontece até domingo na cidade suíça, é uma das paradas do diretor Karim Aïnouz e seu A Vida Invisível na jornada por uma indicação ao Oscar de filme internacional - a última vez que um longa brasileiro concorreu à estatueta na categoria (até este ano chamada de Oscar de filme em língua estrangeira) foi 20 anos atrás, com Central do Brasil, coincidentemente também estrelado por Fernanda Montenegro. “Isso é muito emocionante”, disse o cineasta em entrevista ao Estado, em Zurique. “Por causa da Fernanda e porque sempre que eu penso com que filme da Retomada A Vida Invisível dialoga, e eu sempre acho que é o Central.” 

A campanha está só no começo, mas Aïnouz disse estar determinado a fazer tudo o que puder. “Acho que é um ano excepcional para o cinema brasileiro”, afirmou, referindo-se aos prêmios em Cannes para seu filme, na mostra Um Certo Olhar, e para Bacurau, na competição, em Veneza para Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara Paz, além de Pacificado, em San Sebastián. 

“No quesito visibilidade internacional, acho que é um ano único. E é um ano em que tudo está sendo colocado em xeque. Vou fazer de tudo para que a gente pelo menos esteja muito visível nesta campanha. Claro que vai ser ótimo para mim, para o filme, para os atores, mas acho que tem um trabalho de visibilidade do cinema brasileiro que é importante nesses meses que entram. Estou disposto a ter uma vida de aeromoço”, completou, aos risos. Ele vai ao Festival de Mill Valley, na Califórnia, e a Londres, emendando com o lançamento no Brasil, em 31 de outubro. Aos festivais que não puder comparecer, a ideia é sempre mandar representante. 

A Vida Invisível fala de duas irmãs no Rio dos anos 50, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), que são muito unidas apesar do temperamento diferente. Guida vai atrás de um amor, Eurídice casa. Mas, quando Guida volta, grávida, seus pais a expulsam, e as duas se separam. “É um filme de época, mas é atual”, disse o diretor. “Fala da condição da mulher e do patriarcado, que são coisas que estamos discutindo hoje”, afirma.

“Com este filme, quero fazer com que a pessoa saia da sala de cinema diferente do que ela entrou. Talvez fazê-la chorar, mas principalmente refletir por meio de uma emoção física.” 

Uma indicação ao Oscar é importante para qualquer longa, incluindo A Vida Invisível. Mas também é o resultado acumulado de uma carreira do filme, que passa pelos festivais mais importantes do mundo. Karim Aïnouz ainda não viu seus concorrentes, a não ser Dor e Glória, de Pedro Almodóvar. “Vou começar a fazer esse dever de casa. É tudo muito novo, nunca fiz isso na vida. O Oscar é algo tão industrial, a gente vai fazer algo um pouco na contracorrente. É uma coisa meio de eleição, você tem de angariar votos. E a coisa mais importante é dizer que o filme existe.”

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Filme de Almodóvar é um grande concorrente

Produtor Rodrigo Teixeira vê dois grandes rivais: o espanhol e o sul-coreano

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 07h00

A Amazon vai concentrar seus esforços na divulgação de duas produções para a disputa do Oscar de melhor filme internacional: o brasileiro A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, e Les Misérables, de Ladj Ly, representante da França. Dois longas muito distintos - enquanto o nacional é um tocante melodrama sobre questões de gênero, o francês foca utiliza os subúrbios parisienses para tratar dos problemas de imigração.

A julgar pelos elogios de alguns críticos americanos, o filme brasileiro reúne grande chance de chegar entre os cinco finalistas, que serão conhecidos no dia 13 de janeiro - a cerimônia do Oscar acontece em 9 de fevereiro. “Acredito que dois longas têm lugar certo nesta lista: Dor e Glória, do espanhol Pedro Almodóvar, e Parasita, de Joon-ho Bong, representante da Coreia do Sul”, observa Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora de A Vida Invisível. “As outras três vagas seriam disputadas pelo restante.” Ele ainda vê com boas chances o dinamarquês Rainha de Copas, de May El-Toukhy.

 

Mesmo assim, a disputa pelo Oscar de produção internacional é diferente das demais categorias, cujas premiações paralelas indicam os mais fortes candidatos - normalmente, os vencedores do Sindicato dos Atores, por exemplo, acabam faturando também a estatueta dourada. Neste ano, a mecânica de escolha mudou: antes, era divulgada uma pré-lista com nove finalistas, agora serão dez: sete serão escolhidos por um comitê internacional e os outros três serão votados por um comitê executivo. Os dez escolhidos serão avaliados novamente pelo comitê internacional, que vai definir os cinco finalistas. “E, nos últimos anos, a Academia rejuvenesceu, contando agora com menos membros conservadores.”

É esse aspecto que transforma as redes sociais em grande trunfo na divulgação do filme - para isso, a Amazon se prepara para disparar, por exemplo, uma série de newsletter sobre A Vida Invisível - não é segredo o interesse da plataforma em ganhar esse Oscar, uma vez que, no ano passado, o vencedor foi Roma, do mexicano Alfonso Cuarón, belíssima produção da Netflix.

“Os executivos da Amazon estão otimistas, muitos me confessaram terem amado o filme do Karim”, conta Teixeira, que percebe outro fator positivo, provocado pela forma com que o restante do planeta observa hoje o Brasil. “Nossa imagem agora é estranha, não é mais favorável como antes”, disse ele, que esteve no Festival de Zurique no fim de semana passado, quando teve a percepção. “Com isso, a arte desponta como resistência e os estrangeiros estão dispostos a premiar isso.”

Além da indicação para a estatueta de produção internacional, A Vida Invisível, que estreia dia 31 no Brasil e já foi vendido para 30 países, tem grande chance também na disputa da categoria fotografia, com a francesa Hélène Louvart. “Ela já recebeu prêmios específicos da sua área, o que a deixa com muitas chances”, explica Teixeira, cuja produtora terá chance de participar de outras categorias de peso com outras produções: Ad Astra e Wasp Network.

Já em cartaz no Brasil, Ad Astra é uma ficção científica intimista, dirigida por James Gray e é estrelada por Brad Pitt, também produtor. “Esse é o grande ano de Pitt, que está também fabuloso em Era uma Vez em... Hollywood, do Quentin Tarantino”, comenta o produtor, que vê a possibilidade de uma dupla indicação para ele, como ator e ator coadjuvante - além de uma indicação para Gray e até de melhor filme: com isso, em caso de vitória, Rodrigo Teixeira será o primeiro brasileiro a conquistar o prêmio máximo da Academia.

Wasp Network, de Olivier Assayas e inspirado em livro de Fernando Morais, pode ter chance nas categorias de atriz (Penélope Cruz) e Gael García Bernal (ator coadjuvante).

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