Brando colecionou polêmicas dentro e fora das telas

Com seu magnetismo visceral e um estilo moderno de interpretar, o ator e diretor Marlon Brando impôs um padrão de comportamento que influenciou uma geração de atores. Também fora da tela, o ator teve uma série de atitudes polêmicas, indiferente dos riscos que isso poderia causar à sua carreira.Foi assim, por exemplo, em 1972, quando sua interpretação como Vito Corleone, o patriarca de um clã mafioso em O Poderoso Chefão, rendeu-lhe uma indicação ao Oscar. Brando já ganhara uma estatueta, em 1954, por Sindicato de Ladrões, e sua vitória era dada como certa. Genioso, compusera um tipo especial para o personagem, utilizando enchimento de algodão entre as bochechas para, além de ressaltá-las, modificar a pronúncia de sua voz.Como era esperado, Brando foi aclamado vencedor na noite da entrega, mas o ator não estava lá para receber o prêmio. Em seu lugar, subiu ao palco uma índia dizendo-se sua representante, que fez um discurso contra a maneira como o cinema americano retratava os índios. Suspeitou-se depois que era uma desconhecida atriz, chamada Sacheen Littlefeather - era o auge de mais uma investida de Brando em polêmicas campanhas políticas.As discussões sempre o atraíram, fazendo o possível para realizar seus planos. Antes de encenar Vito Corleone, por exemplo, Marlon Brando auto-convidou-se para trabalhar com o diretor Gillo Pontecorvo ao afirmar que só filmaria na Europa se você sob sua direção. O ator maravilhara-se com as questões sociais e políticas tratadas por Pontecorvo em A Batalha de Argel.Foi o suficiente para o cineasta convidá-lo para Queimada!, rodado em 1970. Brando deixou de filmar com Elia Kazan para participar do que se transformou em um clássico do cinema político, no momento em que o mundo sofria profundas turbulências - guerra fria no auge, Estados Unidos atolados no Vietnã, rebeldia generalizada no meio universitário, ainda como ressaca do maio de 68 francês, tudo isso tornava vital o tipo de discussão sobre o colonialismo inglês na América Latina trazido pelo filme.O roteiro não estava pronto, mas Pontecorvo não precisou mais do que meia hora para garantir a participação do astro. Brando, aliás, entregou-se de corpo e alma ao filme, não se importando em até dividir a cena com um ator amador, Evaristo Márquez, um não profissional que o diretor encontrou no próprio local da filmagem (Cartagena, na Colômbia). Pontecorvo lembra que Brando foi generoso com Márquez, chegando a pedir que fosse enquadrado de costas para a câmera, o que lhe permitisse fazer as expressões que o outro deveria reproduzir, olhando para o aparelho.Como era de se esperar, Queimada! causou polêmica praticamente em todo o mundo - no Brasil, foi proibido pela censura, só sendo liberado anos depois, em 1980. A mesma censura que, em 1973, vetou a exibição de outro filme de Brando, O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, considerado pornográfico - a liberação só veio em 1979.Pode-se resumir a trama em poucas palavras: americano que vive em Paris (Brando) tenta se recuperar do choque causado pelo suicídio da mulher ligando-se sexualmente a garota parisiense (Maria Schneider) que conhece em apartamento vazio. A violência do filme não está nas imagens, mas nos diálogos, em que um homem de meia-idade, atribulado por dúvidas éticas, morais e religiosas, tenta arrasar todos os valores atribuídos à "civilização". Trata-se da tragédia da vida, as dificuldades de uma existência fragmentada.A sociedade da época, porém, preferia se escandalizar com as cenas de sexo, especialmente a que se tornou mais famosa e polêmica: o uso de manteiga no auxílio do ato sexual. Com o filme considerado pornográfico, Brando, ao lado de Bertolucci, Schneider e o produtor Alberto Grimaldi, teve de enfrentar o Tribunal de Justiça de Bolonha, na Itália, que queria queimar todas as cópias do filme e condená-los por ofensa moral. A pendenga teve um ponto final com uma absolvição coletiva.A partir da década de 70, Brando decidiu reduzir suas participações no cinema, aceitando apenas aquelas que lhe rendessem um cachê milionário. Conseguiu faturar até com os fracassos, cristalizando a crença de ser um ator invariavelmente superior aos seus papéis. Em 1976, começou a filmar Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, recebendo fabulosos US$ 2,5 milhões. Sua primeira aparição logo se tornou clássica: ele surge deitado numa cama na penumbra, depois se senta, seu rosto misterioso quase que totalmente na escuridão, de quando em quando iluminado por um facho de luz.Na verdade, o ator engordara acima do esperado, deixando Coppola e a equipe técnica com um grande problema a resolver, corrigindo trabalhos de câmera e luz. Mas sua figura rotunda e misteriosa domina o filme.Até o fim da vida, Brando não admitia fugir de seu padrão. Em A Cartada Final, seu último filme, brigou com o diretor Frank Oz e se recusava a gravar qualquer cena se o cineasta estivesse presente. O ator Robert De Niro teve de dirigir uma delas, com instruções dadas a ele por um assistente do diretor, que via tudo por um monitor em outra sala.

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