'Branca de Neve': edição comemorativa com animação em 2-D

Animação chega em disco duplo com extras como visita virtual ao 1.º estúdio da Disney, onde o filme foi feito

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

01 de outubro de 2009 | 05h00

Imagens de Marge Champion, que estão no desenho Branca de Neve e os Sete Anões. Foto: Divulgação

 

LOS ANGELES - Ela foi a primeira princesa da Disney, iniciando há 70 anos linhagem das princesas que chega agora, oito animações depois, a A Princesa e o Sapo. O novo desenho da Disney marca o retorno do estúdio do velho Walt à animação em 2-D, duas dimensões, restaurando um esplendor da tradição que teve seu primeiro apogeu justamente com Branca de Neve e os Sete Anões. Vencedor de um Oscar especial da Academia de Hollywood em 1939, Snow White virou o carro-chefe do estúdio de Walt Disney. Na época, ele já havia criado Mickey Mouse e Donald Duck, mas Branca de Neve foi o verdadeiro começo de tudo.

 

A primeira animação em longa-metragem e um conto de fadas, ainda por cima. O filme também foi o primeiro a ter uma campanha de marketing integrada, o que fez com que Branca de Neve, seu príncipe e os anões chegassem simultaneamente em múltiplos formatos, às lojas. Sete anos mais tarde, em 1946, Branca de Neve foi a primeira animação a ter relançamento nos cinemas e, desde então, isso ocorreu regularmente, não apenas com essa princesa, mas todos os desenhos longos do estúdio.

 

Branca de Neve foi para o vídeo, o DVD. A edição que sai agora é comemorativa. O disco duplo tem horas de extras, incluindo uma visita virtual ao Hyperion, o velho - primeiro - estúdio de Disney, no qual o filme foi feito, utilizando um dispositivo especialmente criado para isso, a câmera muiltiplano.

 

Você volta a ser criança ao transpor o portão do estúdio em Burbank, na Califórnia. Nada mais impressionante do que o primeiro prédio, à direita, o chamado Team Building, que abriga a administração e leva este nome justamente por celebrar o espírito de equipe. O prédio tem o formato de frontispício de templo grego. Seis anões sustentam, como colunas, o prédio e, acima de todos eles, está Dunga. Há algo de metafórico nessa construção, um reconhecimento de que o império Disney começa com Branca de Neve.

 

O tour pelo estúdio inclui uma visita à lendária câmera multiplanos. São várias camadas e, em cada uma delas, eram dispostos os diversos acetatos que, combinados, fariam a construção geral da cena, desde o fundo até o primeiro plano. Um técnico mostra como isso ocorria. O último acetato, o mais baixo, traz o desenho da floresta. Depois, sucessivamente, até o primeiro, aparecem os outros elementos que compõem a imagem. Das árvores sombrias até os pássaros, passando pela expressão de pavor da princesa ameaçada pelo caçador. 

 

No arquivo, o cataloguista mostra uma parafernália de produtos originais do fim dos anos 30. Embora tenha sido premiado em 1939, o desenho já estava pronto desde o ano anterior e consumira anos de dedicação da equipe. Sua estreia foi um grande acontecimento mundano em Hollywood. Marlene Dietrich fez uma entrada triunfal no cinema que faria a apresentação.

 

Um historiador do próprio estúdio esclarece que, naquela época, Disney não era sinônimo de diversão familiar. Isso veio somente mais tarde, nos anos 50, quando o estúdio diversificou sua linha de produção para incorporar a nova mídia, a TV. Disney, na época de Branca de Neve, era mais um visionário, um artista de vanguarda - e não por acaso os desenhos originais do filme foram parar no Museu de Arte Moderna de Nova York. Só para sua informação, Disney era tão vanguarda que o modernista Mário de Andrade, num raro pronunciamento sobre o cinema, declarou seu amor por Fantasia - e o filme foi contemporâneo, nas salas, de Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles que é considerado o bê-á-bá da linguagem.

 

A visita ao estúdio inclui um encontro com John Lasseter, e é significativo, além de irônico, que o homem responsável pela consolidação da animação computadorizada - e, agora, pelo 3-D -, chegando à frente do estúdio esteja promovendo uma marcha à ré. Veio de Lasseter a decisão de fazer de The Princess and the Frog uma animação tradicional, desenhada à mão e em duas dimensões. Para ele, Branca de Neve é "uma obra de arte e uma fonte de eterna inspiração". Mas por que voltar ao 2-D? "É o desejo secreto de todo animador. Desenhar à mão é difícil e todos sonhamos, no fundo, nos colocar à prova. E existe a questão da imagem - quem vê Branca de Neve percebe toda a beleza e complexidade da tessitura do desenho e da cor.

 

Em A Princesa e o Sapo, personagens como o Alligator  (o Crocodilo) não conseguiriam ser tão detalhados, se não fossem desenhados à mão." Mas o grande momento deste primeiro dia de visita ao estúdio foi o encontro com a própria "Branca de Neve". Em meados dos anos 30, Disney decidiu que precisava de uma garota para modelar sua princesa. A escolhida para emprestar sua graça a Branca de Neve foi uma jovem talentosa, Marge Champion. Nos anos e décadas seguintes, ela virou uma lenda do show biz norte-americano, cantando e dançando (em dupla com o marido, já falecido, Gower Champion). Quem apresenta Marge Champion é Andreas Deja, talvez o mais clássico dos animadores da Disney.

 

Nos anos 60, garoto, depois de ver Mogli, ele enviou uma carta ao estúdio, oferecendo seus trabalhos.  A resposta foi que praticasse, se dedicasse ao estudo e ao desenho, e tentasse de novo mais tarde. Foi o que Andreas Deja fez. Contratado da Disney, ele faz parte da glória do estúdio. E foi ele quem apresentou Marge Champion a um grupo de jornalistas europeus e latinos. O encontro ocorre no que restou do estúdio da Hyperion, um bangalô no meio de um jardim ao qual você chega depois de passar por outra unidade de animação - e, nesta, a fachada está ocupada por motivos de outra próxima atração da Disney, a Alice de Lewis Carroll e Tim Burton.

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