REUTERS/ Yara Nardi
REUTERS/ Yara Nardi

Brad Pitt vive astronauta no novo 'Ad Astra' e acredita que atuar é um jogo para os mais jovens

Protagonista do novo filme de James Gray, ator diz que tem se interessado por outras atividades e tem dúvidas sobre o futuro dos filmes

Kyle Buchanan, The New York Times

11 de setembro de 2019 | 08h15

LOS ANGELES — Brad Pitt já interpretou bom número de personagens estóicos, incluindo dois apenas neste ano: Cliff Booth, o dublê que acompanhamos no sucesso Era Uma Vez em Hollywood, e Roy McBride, um astronauta designado para postos remotos e solitários da galáxia no futuro lançamento Ad Astra – Rumo às estrelas, que tem data de estreia prevista para 26 de setembro. Mesmo depois de comprovar a capacidade de interpretar personagens mais loquazes, como em Os 12 Macacos e Snatch – Porcos e Diamantes, Pitt parece mais fascinante quando tem algo guardado.

Temos a impressão de assistir a um homem que não diz mais que o necessário. “Cresci em meio a uma mentalidade de autonomia e força, sem nunca poder demonstrar fraqueza”, disse Pitt. Foi criado no Missouri, o mais velho de três irmãos, filhos do dono de uma empresa de frete rodoviário.

Agora, aos 55 anos, ele chegou a um ponto em que enxerga o pai em cada interpretação sua. “É como se eu o imitasse”, disse Pitt. “Ele cresceu na pobreza extrema, uma vida muito dura, e sempre foi determinado a me dar circunstâncias melhores do que as que ele tinha vivido — e conseguiu. Mas era do tipo estoico.”

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Esse traço foi melhor aproveitado por Pitt nas telas, e o ator tem pensado muito a respeito da pessoa que se tornou. “Sou grato à ênfase na independência e na humildade, mas acredito que fez falta um componente de autoavaliação", disse ele. “É quase uma negação de uma outra parte de nós que é fraca e tem dúvidas, embora este seja um sentimento humano experimentado por todos. Acredito que é impossível conhecermos a nós mesmos sem identificar e aceitar este lado.”

Pitt e o roteirista e diretor de Ad Astra, James Gray, são amigos há mais de duas décadas, desde o momento em que o ator viu o trabalho de estreia do diretor, uma história policial de baixo orçamento chamada Little Odessa (1995). Na época, Pitt disse ter sentido que Gray seria capaz de tirar dele algo novo. “Ele tinha um toque dos anos 70, como os filmes à base dos quais fui criado", disse Pitt. “Havia algo de bruto, uma violência. E me pareceu alguém com foco em histórias masculinas.”

Os dois estavam determinados a trabalhar juntos, mas os primeiros projetos não decolaram. Em 2010, Pitt desistiu de participar do épico de Gray, The Lost City of Z. Anos depois, Gray procurou Pitt com a ideia de Ad Astra, esperando que o ator recusasse o projeto. “Do ponto de vista profissional, minha única crítica a Brad diz respeito ao fato de ele não ser o astro de mais filmes. Me parece que ele comanda a ação na tela com uma habilidade observada em poucos, e eu adoraria ter mais oportunidades de ver isso", disse Gray.

Se Pitt parece mais reservado e meditativo em pessoa do que o esperado, o mesmo se pode dizer de Ad Astra. É claro que há notáveis sequências de ação enquanto o personagem de Pitt vasculha a galáxia em busca do pai, um astronauta perdido (Tommy Lee Jones). Mas Ad Astra se mostra mais preocupado com a vida interior do protagonista do que com a magnífica paisagem de estrelas do lado de fora da nave, com longos trechos mostrando apenas Pitt, cuja narração em off pondera as questões profundas da vida.

“Fazemos perguntas do tipo, ‘qual é o sentido de tudo?’ e ‘por que estamos aqui?’ É um pouco como um campo minado, pois são muitas as armadilhas", disse Pitt. Mas a solidão do personagem o atraiu: “Queríamos investigar a incapacidade de se conectar aos outros, e os mecanismos de autoproteção que construímos e nos impedem de falar das coisas abertamente".

Essa abertura é algo que cada vez mais ocupa os pensamentos de Pitt. Trata-se de uma qualidade que os homens adquirem com dificuldade, e ninguém o criticaria se ele preferisse manter isoladas algumas partes de si. “Mas entendo que, para o meu estilo de atuação, o melhor é chegar a um lugar de verdade absoluta", disse Pitt. “Para que o público leia algo real na minha interpretação, preciso vivenciar algo real para mim.”

No início de 2017, quando Pitt se comprometeu a estrelar Ad Astra, o ator ainda sentia os ecos da separação de Angelina Jolie, com quem teve seis filhos. “Certamente, ele usou os impulsos que a vida lhe dava", disse Gray. “Não me envolvi pessoalmente com esse lado da questão — não é da minha conta e não é meu trabalho — mas ele investigou a essência do personagem por meio de si.”

Será que Ad Astra foi uma forma de trabalhar a solidão? “O fato é que todos carregamos dores, pesares e perdas", disse Pitt. “Passamos a maior parte do tempo ocultando isso, mas está ali, em nós. Então, começamos a abrir essas caixas.”

Compromisso com o AA

Foi dito que a gota d’água no relacionamento de 11 anos entre Pitt e Angelina teria ocorrido em setembro de 2016, quando eles brigaram por causa do consumo de álcool dele. Agora, Pitt tem um compromisso com a sobriedade. “Levei as coisas até o limite e, depois disso, tive que cancelar meu direto à bebida", disse ele. Pitt passou um ano e meio nos alcoólatras anônimos.

Seu grupo de recuperação era composto exclusivamente por homens, e Pitt ficou comovido com a vulnerabilidade deles. “Eram homens reunidos e sentados, falando com uma abertura e uma sinceridade que eu nunca tinha visto", disse Pitt. “Era um lugar seguro onde havia pouco julgamento e, portanto, pouco julgamento de nós mesmos.”

Ninguém do grupo compartilhou as histórias de Pitt com os tabloides. Os homens confiavam uns nos outros e, nessa confiança, ele descobriu uma catarse. “Na verdade, foi libertador poder expor meu lado mais feio”, revelou.

De acordo com Gray, o ego de Pitt tem pouco a ver com a escolha dos papéis. “Ele sempre pede menos exposição e menos falas”, disse Gray. “Não acho que Brad goste de ser o centro das atenções, é preciso empurrá-lo nessa direção.” Nas palavras de Pitt, os papéis de coadjuvante dão certo alívio: ele ocupa o centro da atenção mundial desde o seu primeiro papel de sucesso em Thelma & Louise (1991), sem precisar disso constantemente no seu trabalho. 

“Nos anos 90, toda a atenção recebida me desequilibrou. Eu me sentia pouco à vontade diante das expectativas e críticas. Me tornei uma espécie de ermitão e recorri à maconha para esquecer tudo.” Tudo que ele fazia era atentamente analisado: sucessos, fracassos, penteado, corpo e, principalmente, os relacionamentos amorosos. Pitt disse que sua vida não era “o sonho que parecia ser”. 

Chegou ao ponto em que ele não conseguia mais discernir entre os próprios desejos e aqueles sugeridos pelos demais. No fim, ele aprendeu a deixar de lado as expectativas dos outros. “Esses pensamentos dúbios, o ruído mental, o rato no crânio, é como uma comédia”, contou Pitt. “É ridículo vivermos assim. Passei tempo demais lutando contra esses pensamentos.” Recentemente, Pitt descreveu a atuação como “jogo para os mais jovens”, e afirmou que, entre os 50 e os 60 anos, se vê cada vez mais atraído por outras atividades, como a produção. 

Ainda assim, ele não se mostra muito entusiasmado com o futuro do entretenimento nas telonas na era da transmissão via streaming. “Tenho curiosidade de ver se os filmes vão durar”, avalia. Mas o ator sabe que não será o astro de um número tão grande de títulos. “Para mim, serão cada vez menos filmes, simplesmente porque agora há outras coisas que quero fazer”, concluiu Pitt, cujos interesses incluem escultura e paisagismo. “Quando temos a sensação de finalmente envolver algo com os braços, é hora de procurar outra coisa para envolver no abraço.”

 

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