Walt Disney
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Brad Pitt está disposto a rejeitar a masculinidade: 'Temos de redefinir isto'

Ator protagoniza filme de ficção científica 'Ad Astra', que estreia nesta quinta-feira, 26

Ann Hornaday, The Washington Post

25 de setembro de 2019 | 17h57

No início desta semana, o ator e diretor Brad Pitt visitou Washington para a estreia de Ad Astra, um filme de ficção científica em que ele interpreta um astronauta enviado para Netuno para resgatar seu pai que supostamente está morto. James Gray concebeu sua ideia em 2011, mas deixou-a na gaveta até Pitt concordar em produzi-la em 2016. O filme, ambos concordam, mudou profundamente nos anos seguintes e se tornou tanto uma meditação sobre a desilusão da meia idade como um olhar especulativo no futuro na era espacial.

“É um cavalo selvagem e ele escapa de você”, diz Gray, referindo-se não só a Ad Astra, mas sobre cada filme que dirigiu, incluindo A Cidade Perdida de Z. “É nosso trabalho torná-lo belo enquanto ele foge”.

Brad Pitt ri admirado com a frase, que surgiu com frequência durante uma conversa rápida que girou em torno da recente viagem publicitária de Pitt à Ásia até a situação do cinema moderno. Os dois são amigos desde meados da década de 1990 e seus encontros de lá para cá, sempre o deixavam mais relaxado. “Talvez pelo fato de James ser tão aberto e comunicativo quanto aos seus erros e embaraços, isto leva uma pessoa fechada como eu a ser também mais aberta”.

Gray e Pitt veem Ad Astra como uma maneira de examinar ideias retrógradas sobre masculinidade que vêm sendo questionadas. “Temos de redefinir isto”, diz Pitt, falando da imagem do herói cool, emocionalmente distante. Na verdade, quando o ator se descreve como uma pessoa fechada, ele pode estar falando sobre seu próprio personagem. O comandante Roy McBride é uma pessoa compulsivamente autocontrolada.

Há cenas ótimas de viagens no espaço no filme, como também manobras assombrosas, uma batalha com piratas na lua e um encontro terrível numa nave de pesquisa biomédica. Mas o efeito especial mais impressionante pode ser o próprio Brad Pitt que tem um desempenho cuidadosamente calibrado como um homem que passa por uma catarse que muda sua vida.

Vindo logo depois de um trabalho similarmente bem-sucedido no filme Quentin Tarantino, Era uma vez em Hollywood, a interpretação de Pitt como o comandante em Ad Astra é ainda mais imponente por ser tão contido e sutil. ("Por favor, não chamem este ano de retorno. Continuo agindo da mesma maneira como sempre agi”, Pitt insiste, dizendo que normalmente faz um filme por ano, com pausas ocasionais.

Ver McBride cultivar o isolamento e depois romper com ele, pode nos levar a comparações com a própria fama extrema de Pitt.

Embora o ator de 55 anos diga que não é uma pessoa fechada como seu personagem McBride (“Só não sou tão aberto como meu amigo Jimmy James Gray é”), ele reconhece que há paralelos na solidão irresistível da celebridade.

“Certamente quando comecei minha carreira eu me senti perdido, não compreendendo ser separado do rebanho”, diz ele, lembrando seu momento decisivo na carreira no filme Thelma & Louise, de 1991. “Sempre achei que foi um manual ou um tipo de preparação do que significava esse tipo de liberdade, ser anônimo na rua”.

Mas, Pitt insiste, Ad Astra “tem mais coisas a ver do que isto”. Relembrando as imagens de masculinidade da sua juventude no Missouri, ele diz: “é a imagem do estoico Homem Marlboro com a qual eu cresci, meu pai a cultivava, como um campeão. E acho que é exatamente isto que você identifica quando chega num certo momento na sua vida e pensa, ‘isso não funciona mais. Anseio por uma correlação maior e tenho de ver qual a minha parte nisto”.

Pitt e Gray concordam que, se tivessem realizado Ad Astra 20 ou 10 anos atrás, seria uma aventura espacial mais convencional sobre  um sujeito cool. Em vez disto é um filme que tem a ver muito mais com um homem na meia idade, repleto de dúvidas, dor e incerteza.

“Esta foi a grande parte das nossas conversas”, explica Brad. “Compreender nosso passado, o nosso e o deles, realmente nos aprofundamos nisto. O que  torna a jornada de Roy, eu acho – uma viagem aos pontos mais distantes do sistema solar para olhar para o seu passado, antes de avançar para um estado de mais liberdade”.

E numa época em que é complicado ser um sujeito branco privilegiado – especialmente em HollywoodAd Astra brinca com e alfineta algumas premissas.

“Você tem de ter o mito para destruí-lo”, diz Gray, acrescentando que foi crucial escolher uma pessoa com o simbolismo iconográfico de Pitt – o ídolo de cinema alto e loiro – para quebrar o mito. “Se tivéssemos produzido o filme com Wallace Shawn, que é um ator maravilhoso, não teríamos o Marlboro Man para destruir”. Gray chama esse arquétipo de “uma coisa muito bizarra, tóxica, perigosa, na verdade, há muito tempo. Acho que fez coisas terríveis para a história do mundo. Procuramos desfazer um pouco isto”.

Pitt não está só interessado em redefinir a imagem do macho, mas está investido também na redefinição do cinema americano. Ele fundou a companhia de produção Plan B e promoveu cineastas como Steve MCQueen (12 Anos de Escravidão), Barry Jenkins (Moonlight) e Ava DuVernay (Selma). No que muitos veem como uma tentativa de Pitt para usar seu privilégio de homem branco para o bem, ele insiste  que nada mais é do que apoiar a visão artística e a narrativa corajosa. Mas não há dúvida que um setor infestado por ideias incomodamente estreitas sobre o que os autores devem ser, ele e seus executivos se dispõem a mudar esse foco.

“É o nosso gosto. Nossa aflição, na verdade. Estamos mergulhados nos filmes dos anos 1970. E eles não eram em branco e preto. Eram estudos muito complexos e complicados e falhos. É isso que me atrai”.

Os protagonistas ambivalentes dos anos 1970 – nos filmes de Sidney Lumet, Alan Pakula e Martin Scorsese – claramente influenciam Roy McBride em Ad Astra, que parece um retrocesso a uma era mais antiga, mais lenta e mais elegante e uma ideia plantada de que os filmes ainda podem ser ambiciosos, não só tecnicamente, mas com nuanças contemplativas, moderadas, marcantes.

“Acho curioso que este filme seja chamado de cinema adulto”, diz Pitt, observando que muitos dos seus filmes favoritos, até hoje, são os que assistiu quando criança. Mas se pergunta se os jovens hoje conseguem tolerar, quanto mais apreciar, o tipo de experiência absorvente, em fogo lento, com que ele sonha, como ator e público. 

“As gerações mais jovens recebem a informação de modo diferente. É mais informação, mais rápida e repentina. E vejo uma falta de paciência. Pergunto o que será o futuro”. Pitt pergunta a Grey, “o que você pensa?”

“Tenho muito menos otimismo com relação à mídia em geral. É uma das mais extraordinárias histórias de sucesso na história de qualquer forma de arte. Agora o que me preocupa é que é quase como a ópera. Ou seja, tem seu momento mágico breve quando ocupa um lugar belo  na cultura”. Ele faz referência às multidões na rua para assistir ao funeral de Verdi e que nos anos 1920 Puccini morreu e a mídia “estava morta em cinco anos".

“A razão pela qual digo isto não é porque acho que o cinema vai morrer. Mas não podemos ser complacentes. Ouço pessoas afirmando o tempo todo que “arte não morre, os filmes sempre estarão por aqui’. Sim, mas você tem de lutar por isto. Lutar por sua relevância, lutar para que isso ocorra”.

Pitt ouviu atentamente. E afirmou “a luta não é para o cinema em grande escala. É a luta pelo seu projeto. E, já se levantando para sair, acrescentou: “E, a propósito”, ele diz com um sorriso irônico, “São lutas”./Tradução de Terezinha Martino.

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