BR-3 é um díptico de Evaldo Mocarzel que discute o Rio Tietê

São dois filmes sobre o mesmo tema: um é sobre a peça 'BR-3' e outro, um documentário sobre ela

Luiz Carlos Merten e Mariangela Alves de Lima, de O Estado de S. Paulo,

11 de dezembro de 2009 | 04h00

Cena da filmagem da peça e documentário de BR-3. Foto: Edouard Fraipont/Divulgação

 

SÃO PAULO - Durante dois meses e meio, um barco singrou o poluído Rio Tietê em São Paulo, em 2006, propondo ao público uma experiência teatral única. A peça BR3, de Bernardo Carvalho, montada por Antônio Araújo, marcou época por sua radical proposta cênica.

 

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videoTrecho de BR-3 - A Peça

videoTrecho de BR-3 - O Documentário

 

A crítica Mariangela Alves de Lima lembra que o espetáculo foi construído sobre a ideia da instabilidade de todas as coisas: "da sociedade, dos credos, dos grandes projetos de nacionalidade." Por isso mesmo, era uma exigência de ordem estética a errância das personagens e dos lugares ficcionais. "As cenas flutuam em um barco ou estão dispostas ao longo das margens do rio."

 

Cineasta premiado, Evaldo Mocarzel viu na montagem a possibilidade de discutir questões não apenas estéticas, mas relativas ao próprio planejamento urbano. E fez um díptico que estreia hoje, BR3, a peça filmada e um documentário. A enchente de segunda, diz Luiz Carlos Merten, torna o debate mais urgente e põe na tela o Tietê sem cheiro.

 

Confira a visão do crítico de cinema

É mera coincidência – ou golpe de sorte de Evaldo Mocarzel? Seu díptico sobre BR3 – a filmagem da peça e o documentário, que, na verdade, é mais um making of – estreia hoje, apenas alguns dias depois que o transbordamento do Rio Tietê instalou o pandemônio na cidade. Desde 1995, R$ 3 bilhões já foram aplicados na bacia do rio, com o resultado que o paulistano sentiu na pele. O caso não é isolado do assalto na Praça Roosevelt que levou o dramaturgo Mário Bortolotto a ser baleado.

 

A arte discute políticas públicas, a falta de planejamento, a marginalização social. O rio, como cloaca, vira metáfora dos detritos que a cidade rejeita, incluindo-se entre eles as pessoas. O making of foi feito com certa preguiça, sem a elaboração formal que os críticos e o júri do recente Festival de Brasília identificaram no novo documentário de Mocarzel, Quebradeiras. O diretor faz perguntas, o diretor, o dramaturgo, atores e integrantes das equipes técnica e artística respondem, incluem-se algumas cenas da montagem, mas o espectador que não viu BR3 não chega a ter uma ideia do espetáculo. Para isso, é preciso ver o outro filme, com a peça na íntegra, filtrada pelo olhar do diretor. Beth Néspoli, repórter de teatro do Caderno 2, conta que Mocarzel lhe deu agora uma das mais belas cenas da montagem – que ela havia perdido, in loco: a transformação da sombra de Jonas numa cruz, com tudo o que significa.

 

O espetáculo é forte, mas só a ideia do deslocamento através do rio, naqueles três estágios, pode ser considerada original. Cinematograficamente, o rio, como metáfora, já havia sido mapeado por Ozualdo Candeias em 1967 e A Margem é melhor, um clássico perene do cinema brasileiro. A honestidade de Mocarzel é indiscutível, mas qualquer cena da última segunda tem mais impacto.

 

Confira a visão da crítica de teatro

Não importa a dimensão do local onde o espetáculo teatral ocorre, será sempre singular a percepção porque cada indivíduo capta e grava a cena emoldurando-a a partir de sua localização, ouvindo melhor isto do que aquilo, e filtrando as sensações através da trama única da subjetividade. Só nos sonhos dos artistas há recepção perfeita e o espectador ideal é uma utopia, porque em grande parte o encanto do teatro emana dessa apreensão arriscada e imperfeita. Distraídos, não ouvimos uma palavra, absortos em uma frase, mal notamos os gestos ou o rosto de um outro ator em cena, de modo que o trabalho da memória para restaurar significados opera sobre o tempo passado e em uma situação espacial diferente.

 

Pois BR-3 é um espetáculo construído sobre a ideia da instabilidade de todas as coisas: da sociedade, dos credos, dos grandes projetos da nacionalidade e é, portanto, uma exigência de ordem estética a errância das suas personagens e dos lugares ficcionais. Por isso, as cenas flutuam em um barco ou estão dispostas ao longo das margens. Também o público navega, persegue episódios, move-se ao longo de rodovias emulando a travessia continental dos brasileiros pobres. O documentário de Evaldo Mocarzel partilha a linguagem da criação mesclando aos depoimentos sobre o projeto artístico do grupo as pesquisas de campo em três regiões do País, a memória do processo de criação e o registro de cenas do espetáculo. Uma vez que o teatro não pode ser capturado na sua integridade (o olho da câmara é tão singular quando o do espectador), o documentário persegue significados com a mesma inquietação do público. Nesta nova meditação do Tietê diz uma das atrizes: "A primeira coisa que tive de fazer foi descobrir que isto era um rio."

 

BR - 3 (Documentário) e BR - 3 - A Peça (80 min. e 126 min.) - Livre. Cine Bombril 2 - 18 h (Doc.) e 19h30 (Peça)

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