Divulgação
Divulgação

'Botão de Pérola', de Patrício Guzmán, junta genocídio indígena aos crimes da ditadura

Longa traça metáfora política chilena

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2016 | 16h00

Quem conhece Nostalgia da Luz sabe da precisão com que o cineasta chileno Patricio Guzmán consegue unir o cósmico ao poético, o lírico ao trágico, na mesma linha fina. Assim é também O Botão de Pérola.

Se em Nostalgia da Luz Guzmán principia por falar do Cosmo para descer à terra rude da ditadura Pinochet, em Botão de Pérola, ele começa a refletir sobre a água para chegar ao massacre dos povos indígenas da Patagônia, e também a outros massacres e assassinatos, perpetrados em nome da História.

Quando se diz “refletir” entenda-se que ele o faz tanto por palavras quanto por imagens e sons. A narrativa, em off, é do próprio Guzmán, com sua voz pausada, serena e incisiva. Mas as imagens dizem tudo, e muito mais. Passeiam pelas águas chilenas, seus rios e lagos, seus arquipélagos. País líquido por definição, longo, comprido, um fiapo de terra espremido entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, o Chile “tem o mar como maior fronteira”, diz o narrador. Um entrevistado fala que, de certa forma, a civilização branca chilena construiu o país virado contra o mar, concentrando-se na terra exígua e esquecendo-se dos 4.200 quilômetros de costa.

Outra era a relação com a água dos povos da Patagônia. Eles a viviam de maneira orgânica. Moviam-se pelo mar, viviam à sua margem, dele tiravam seu alimento. Respeitavam o mar e o temiam. E também o amavam. Estima-se que chegaram ali há 10 mil anos. No século 19, havia 8 mil deles. Restam hoje 20, que se lembram dos costumes e da língua, o kawéskár. Guzmán os entrevista. Pergunta como se diz tal e tal coisa em kawéskár. Barco, mar, peixe, etc. Como se diz Deus? “Não temos uma palavra para isso”, responde a indígena. E polícia? “Também não.”

Guzmán evoca um indígena que entrou para a História com o apelido de Jemmy Button. No século 19, ele foi levado para a Inglaterra em troca de um botão de pérola (o título original é Botón de Nácar). O barco que o levou, o Beagle, estava em sua primeira viagem e depois seria celebrizado por transportar um jovem naturalista chamado Charles Darwin em sua viagem de exploração de espécimes animais. Button, cujo nome era Orundelico, foi levado pelo capitão do Beagle, Robert FitzRoy, que fora à América do Sul em 1830 para traçar o mapa da Patagônia. Na Europa, o indígena foi apresentado como curiosidade, aprendeu o inglês, vestiram-no à maneira ocidental e, por fim, o devolveram à terra de origem. Não se readaptou. Não era inglês. Não era mais indígena. Não era Jemmy Button nem era Orundelico. Não era ninguém.

A partir dos mapas traçados pela expedição do Beagle, as terras da Patagônia começaram a ser colonizadas e seus ocupantes, a gente do mar, passaram a ser caçados como animais selvagens. Foram dizimados.

Alguns sobreviventes foram internados na Ilha de Dawson, maneira de mantê-los isolados. Uns 150 anos depois, a mesma ilha foi usada para internar prisioneiros da ditadura chilena. Indígenas dizimados, adversários políticos liquidados. Torturados, assassinados, corpos jogados ao mar, para que não deixassem vestígio. Um estudioso da ditadura Pinochet calcula que 1.200 a 1.400 corpos tiveram esse destino.

Guzmán faz encenar esse procedimento com a ajuda de manequins. Os adversários do regime eram mortos. Depois, seus corpos eram involucrados com cuidado, em sacos plásticos. Com arame forte atava-se ao pacote um trilho de trem pesando cerca de 30 quilos. Tudo para que os despojos não dessem à tona. O mar esconderia o crime.

Com a redemocratização, mergulhadores desceram em busca dos restos. Num dos trilhos recuperados com os corpos, havia um botão de pérola incrustado, junto com cracas e mariscos. Era o resto de uma camisa, que um dia vestira um opositor do regime, um “desaparecido” da ditadura.

O botão é objeto simbólico. Pagamento ao indígena levado à Europa e descaracterizado; resto e evidência de um assassinato político. O mar, fonte de vida e a maior fronteira do território chileno, oculta as mortes da ditadura. As ligações são mais que simbólicas, no entanto. Em seu breve governo, Salvador Allende tentou reparar o genocídio dos indígenas e começou a devolver as terras aos sobreviventes. O processo foi interrompido de maneira brutal pelo golpe de 1973 e pela ditadura de Augusto Pinochet.

O Chile, a terra da água, do mar imenso, das cordilheiras. Do Deserto de Atacama que, com seus telescópios, dialoga com o Cosmo, pois tem o céu mais puro do mundo. Esse Chile também é a terra trágica do genocídio indígena e de uma ditadura sanguinária, que até hoje deixa marcas em sua sociedade. Guzmán, autor também de um dos mais impressionantes documentários políticos, Batalha do Chile, em três filmes, junta tudo numa única e poderosa metáfora. Tudo está em contato com tudo, mas o deslumbramento com a natureza, a piedade com os vencidos, sem a dimensão política, não passa de alienação bem-intencionada.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.