'Bonequinha de Luxo' volta aos cinemas em versão restaurada

Oportunidade para ver o filme na tela do cinema é rara

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2014 | 11h52

É uma imagem emblemática do cinema. Nova York, amanhecer. O carrão para na 5.ª Avenida, Audrey Hepburn desce vestida de gala e toma seu café da manhã namorando os diamantes na vitrine da Tiffany’s. Cento e tantos minutos depois, no desfecho de Bonequinha de Luxo, Audrey/Holly Golightly, despida de suas sofisticação, toda molhada sob a chuva, corre chamando pelo gato que nem nome tem: "Cat! Cat!".

Bonequinha de Luxo/Breakfast at Tiffany’s está de volta em versão restaurada e exibição digital, em alguns horários da rede Cinemark (nos dias 5, 6 e 9 de julho). Há toda uma geração de jovens que só conhece o clássico de Blake Edwards da televisão e do DVD. Trata-se de uma oportunidade rara. Em 1960/61, Edwards ainda não iniciara a série da Pantera Cor de Rosa nem criara, para Peter Sellers, o Inspetor Clouseau, muito menos o convidado bem trapalhão. Ex-roteirista – de Richard Quine, principalmente –, era um diretor talentoso. Anáguas a Bordo, entre outros filmes, já mostrara quanto era bom.

E aí veio Bonequinha de Luxo, adaptado da história de Truman Capote. De cara ambos brigaram – Capote queria que Holly fosse interpretada por Marilyn Monroe, então no auge. Com Marilyn, Holly teria irrompido na tela como uma boneca de carne, voluptuosa e sensual. Edwards a via de outra forma – mais classuda, sofisticada, que sexy. O escritor esnobou a filmagem e tratou friamente Audrey Hepburn nas vezes em que ela tentou se aproximar dele. Edwards estava certo, claro. O filme poderia ter sido feito com Marilyn, mas o foco teria sido outro. Edwards sabia exatamente o que queria fazer.

Ao longo dos anos 1950, houve uma guerra de produtores e diretores contra o código de censura de Hollywood. Eles queriam mais liberdade para dar tratamento adulto aos temas do sexo e da violência. Edwards queria fazer Bonequinha ‘dentro’ do código. Holly, interiorana que veio causar em Nova York, é prostituta, mas o filme nunca assume isso. Ela tem um affair complicado com um aspirante a escritor, George Peppard, que, por acaso, também é gigolô de Patricia Neal, mas o filme não dá muita atenção ao dinheiro que ela deixa na cabeceira, cada vez que o visita (usa?).

Isso poderia ter datado Bonequinha de Luxo, mas terminou fazendo o charme particular do filme. Holly é excêntrica, num prédio habitado por gente esquisita. Há um segredo sobre sua origem, que, eventualmente, é exposto. A ênfase está na alta comédia – e no romance. Quando caem as máscaras e tudo parece perdido, é como se a chuva purificasse tudo de novo. Encontrar o gato passa a ser o símbolo do recomeço. Audrey Hepburn já era um ícone de beleza e elegância, dos filmes de Billy Wilder e Stanley Donen. Ganhara o Oscar por A Princesa e o Plebeu, de William Wyler. Foi indicada de novo para o prêmio, mas perdeu. Bonequinha ganhou as estatuetas de score (Henry Mancini) e canção (Moon River, de Mancini e Johnny Mercer).

Audrey canta o ‘rio da lua’ com um fiozinho de voz, mas bem afinada. A música virou emblemática daquela época e, anos mais tarde, Tom Cruise correu na chuva ao som de Moon River para se despedir da garota amada, antes de partir para o horror da Guerra do Vietnã, da qual voltaria tetraplégico em Nascido em 4 de Julho, de Oliver Stone. A magia estende-se ao restante do elenco. Buddy Ebsen, Martin Balsam, José Luis de Villalonga – como um ricaço brasileiro de pomposo nome José da Silva Pereira – e Mickey Rooney, como o oriental Mr. Yunioshi. É um dos mais encantadores filmes já feitos. Mas é o anti-Os Vizinhos. Nada de grosseria nem vulgaridade. Existe espaço para os dois, a questão é se o público, mais de 50 anos depois, vai querer penetrar no doce mistério da obra-prima (com Um Convidado Bem Trapalhão) de Blake Edwards.

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