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'Bonequinha de Luxo' completa 50 anos

Clássico do cinema ganha caixa de DVD e livro sobre bastidores

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

30 Outubro 2011 | 07h00

Tinha tudo para dar errado: autor do livro que inspirou o filme Bonequinha de Luxo, o vaidoso Truman Capote queria Marilyn Monroe para o papel de Holly Golightly, a interiorana que cria uma persona para brilhar em Manhattan. Mais: insatisfeitos com uma das canções, os produtores pretendiam extirpá-la. Tratava-se de Moon River, de Henri Mancini e Johnny Mercer. "Felizmente, nada disso aconteceu, Audrey Hepburn ficou com o papel e a música tornou-se um clássico", comentou o jornalista Sam Wasson, autor de Quinta Avenida, 5 da Manhã, lançado recentemente pela editora Jorge Zahar.

Trata-se não apenas dos bastidores de um filme que se tornou um clássico, mas principalmente do relato de como uma obra contribuiu para transformar a moda, a liberdade feminina e a indústria cinematográfica. O livro chega no momento em que se comemoram 50 anos de Bonequinha de Luxo, fato também comemorado pela Paramount, que está lançando uma caixa de DVDs com discos repletos de extras (o making of é imperdível), fotos, livro e uma carta assinada pelo cineasta Blake Edwards.

Wasson conversou com o Estado por telefone e anunciou que já prepara outra biografia, dessa vez do diretor e coreógrafo Bob Fosse que, com Cabaret, Sweet Charity e All That Jazz, revigorou o cinema musical nos anos 1970. "Meu interesse sempre foi grande pelos pioneiros, daí gostar tanto de Bonequinha de Luxo."

De fato, a história da moça que chega em Nova York em busca de um homem que a sustentasse, enquanto vive sozinha e disponível para festas e sexo casual, escandalizou o público quando publicada em livro, por Capote, em 1961. "Aparentemente, era um livro inadaptável para o cinema, pois a história não tinha um fim conclusivo, a personagem principal era liberal demais e ainda amiga de um gay", conta Wasson. "E, para completar, Capote queria Marilyn Monroe para o papel principal."

Não era surpresa tal desejo. Segundo Wasson, até aquele momento, as mulheres no cinema eram divididas em duas categorias: boas e más, Doris Day e Marilyn. Se a primeira usava vestidos com cores claras e sempre era premiada por um final feliz, a outra... Bem, as más usavam batom vermelho, decote de parar o trânsito e conquistavam a redenção pela morte ou arrependimento. Assim, nada mais natural que uma das estrelas mais sexy do cinema assumisse o papel.

"Com a confirmação de Audrey Hepburn como Holly, Bonequinha de Luxo modificou essa dicotomia profundamente”, sustenta Wasson, lembrando que a vitória na escalação foi conquistada pela insistência do diretor Blake Edwards. “Foi um importante passo dado por Hollywood, pois uma mulher tão bela e respeitável como Audrey mostrava ser possível representar uma jovem que aprontava sem ser vista como uma menina má."

Claro que a evolução foi tortuosa, pois a atriz chegou a recusar o convite ao perceber (e se assustar com) os detalhes do papel. E a aceitação representou o início dessa consolidação de uma nova imagem feminina. "Não foi fácil para Audrey, especialmente porque ela acabara de ser mãe e também prezava a vida pessoal", conta o autor. "Holly era um papel que negava a imagem que o público tinha dela. Foi muito custoso para os produtores convencerem a Paramount e o marido de Audrey (o ator Mel Ferrer) de que era algo que ela podia fazer."

Outra ousadia estava no figurino. Uma das profissionais mais respeitadas nessa área no cinema, a mítica Edith Head foi obrigada a abrir mão de vestir a estrela do filme, responsabilidade assumida por Hubert de Givenchy. Certamente, até hoje as mulheres de todo o mundo agradecem ao estilista pois a imagem de Audrey, vestida com um "pretinho básico", transmitia uma sofisticação que parecia acessível às garotas que estavam na plateia do cinema, ao contrário dos figurinos da maioria das divas dos anos 1940 e 50.

De fato, na abertura do filme (cena gravada, aliás, na Quinta Avenida, às 5 horas da manhã, daí o título do livro), a atriz aparece diante da Tiffany’s, a famosa joalheria de Manhattan - e Audrey nunca esteve tão encantadora e luminosa. Com o cabelo puxado para trás, óculos escuros e portando uma piteira, ela incorporou uma imagem inesquecível que não esmaeceu com o tempo. Nem todos os muros, porém, foram derrubados. O homossexualismo do vizinho, por exemplo, foi ignorado e Holly não exibe uma vida sexual tão aberta na tela grande. Mas cenas como a de Audrey procurando seu gato pelas ruas de Nova York durante um temporal transformam Bonequinha de Luxo em um dos dramas mais românticos e deliciosos de Hollywood.

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