Bom humor e uma dose de amargura em Boleiros 2

O diretor Ugo Giorgetti acreditava que não mais voltaria ao universo da bola, depois de ter dirigido Boleiros - Era uma Vez o Futebol, em 1998. "Mas o esporte sofreu uma transformação violenta nesses quase dez anos que me convenci a retornar ao assunto", conta ele, que recuperou alguns personagens, criou outros e dirigiu Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos, que estréia hoje. O bom humor continua, mas agora com uma dose mais forte de amargura. Como no primeiro longa, Giorgetti não pretendeu contar uma história sobre futebol, mas a respeito das pessoas que vivem nesse universo. "Atualmente, os jogadores são mais espectadores do que nunca. Eles não controlam mais a própria vida, responsabilidade hoje assumida pelos empresários." Como colunista esportivo do jornal O Estado de S.Paulo, Giorgetti adota uma postura de torcedor - não se preocupa em buscar informações de bastidores, mas em absorvê-las e criticá-las como faz aquele fanático que enfrenta as arquibancadas dos estádios e assiste a todos os programas esportivos de tevê na noite de domingo. Foi nessa condição que decidiu retomar o tema. "Procurei entender o novo futebol, que sofreu uma mudança violenta na última década", explica. "Hoje, não temos mais grandes craques atuando em nossos campos. Em 1998, tínhamos ao menos o Rivaldo por aqui. Agora, estão todos na Europa." Foi por isso que Giorgetti não quis realizar uma mera continuação. Alguns personagens estão de volta, como o grupo de ex-jogadores que se reúne em uma ala reservada do bar para relembrar o passado - ali estão o ex-corintiano Naldinho (Flávio Migliaccio), o ex-são-paulino Otávio (Adriano Stuart) e até um ex-atleta de carne e osso, Sócrates, incomparável ídolo dos bons tempos da Democracia Corintiana. Eles continuam em uma ala superior do bar, como se vivessem no Olimpo, mas no térreo a situação é outra. Ameaçado de fechar, o bar passou por uma grande e modernizante reforma - destino contrário ao seu inspirador, o Bar do Elias, folclórico reduto de palmeirenses que fechou suas portas. O mecenas é Marquinhos, um jogador em ascensão, que descobriu a riqueza ao se transferir para a Europa. Como já disse o diretor, ele vive nas mãos de seu empresário, interpretado pelo cantor Paulo Miklos, que controla inteiramente sua agenda. "Como acontece hoje, esses craques são um pouco automatizados", comenta Giorgetti. "Por isso que decidi não fazer uma mera seqüência, em que os veteranos ficam apenas contando ?causos?." No bar, em meio às candidatas a ?atriz-e-modelo? que aguardam ansiosamente o craque, está o jornalista Zé Américo (Cássio Gabus Mendes), que estava no primeiro filme e hoje é o fiel representante da transição, vivendo entre os ex-jogadores que vivem do passado e os novos valores que vão se transformar em astros na Europa. Enquanto também aguarda por Marquinhos, ele escreve, em seu laptop, as histórias apresentadas em Boleiros 2. Por ali também passa o juiz corrupto (Otávio Augusto), agora transformado em um empresário de futebol de terceiro escalão. Ou seja, o sucesso convivendo com a mediocridade. O diretor planejava ter o meia Denílson no papel de Marquinhos - para Giorgetti, ele era perfeito, pois é uma figura polêmica, chegando a ser comparado por alguns a Garrincha. Mas o jogador não conseguiu se liberar para o período das filmagens. No final, a ausência favoreceu o filme pois reforçou a figura de jogador manipulado representada por Marquinhos. Depois de ter atraído cerca de 3 milhões de espectadores com Boleiros (entre público dos cinemas, exibição na TV, home vídeo, exibições especiais dentro e fora do País), o cineasta antecipa os comentários ácidos e reconhece que seu novo filme é pessimista e amargo. "De uma certa forma, reflete meu estado de espírito pois, como muitos brasileiros, também não estou feliz da vida." Para ele, o presente está bem refletido em Boleiros 2, sem máscaras. "As inovações que se criam para o futebol não passam de cosmética, uma vez que o marketing fora de campo é que vem dominando a atenção", comenta. Ugo Giorgetti sabe que não realizou um filme palatável, típica comédia americana. "Busquei falar do Brasil de hoje e, para isso, utilizei a ficção que, mais que o documentário, é o melhor caminho para mostrar uma opinião. É um risco, mas assumo." Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos (Br/2006, 86 min.). Comédia. Dir. Ugo Giorgetti. 12 anos. Em grande circuito.

Agencia Estado,

07 de abril de 2006 | 10h21

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