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'Body' e 'Para o Outro Lado' levantam interessantes questões políticas e existenciais

Longas que estreiam na Mostra foram premiados em Berlim e Cannes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2015 | 20h02

Em princípio, as similaridades entre Body, da polonesa Malgorzata Szumowska, e Para o Outro Lado, do japonês Kiyoshi Kurosawa, parecem simplesmente anedóticas. Talvez não sejam. Body concorreu e foi premiado em Berlim. Para o Outro Lado integrou a seleção da mostra Un Certain Regard e também foi premiado em Cannes. Em ambos os casos, o repórter encontrou-se com os diretores. Body/Corpo articula seu relato em torno de três personagens. Um trabalha numa morgue, sua filha anoréxica passa o filme vomitando o que come e há a terapeuta que acredita que pode se comunicar com os mortos, como forma de ajudar a garota a superar sua crise de ansiedade/identidade. Para o Outro Lado é sobre uma relação que desafia a própria morte.

Três anos após a morte do marido, ele volta, é acolhido pela mulher e partem numa viagem – de reaproximação ou de ruptura definitiva? Existem fantasmas em grandes clássicos do cinema japonês. Integram-se ao mundo dos vivos em Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi, ameaçam o equilíbrio dos vivos no terrorífico Kwaidan, as Quatro Faces do Medo, de Masaki Kobayashi. Kurosawa diz que seu filme não é sobre fantasmas, mas sobre relações. Ele se baseou num livro de sucesso no Japão (de Kazumi Yumoto) e, quando passou em Cannes, o filme, já lançado no país de origem, também fazia sucesso.

A grande diferença de ambos talvez esteja no tratamento. Kurosawa trata sua história com algum toque melodramático. Yumoto é um autor conhecido por seus livros para crianças e adolescentes. Journey To the Shore, título original, Jornada para o Outro Lado, fornece o que o diretor definiu como interpretação espiritual do ‘mitoru’, costume japonês pelo qual as famílias ficam comprometidas a acompanhar seus queridos terminais até o fim. Malgorzata prefere apostar no humor. Ela critica a burocracia, a falta de fé. Sendo a Polônia um país católico, até sob o comunismo, e tendo sido o falecido Papa João Paulo II a liderança que todo mundo reconhece, o filme dela talvez tenha a dimensão de um acerto de contas com o passado.

A configuração dos personagens, do relato, revela uma Polônia em crise, dividida entre tradição e modernidade. Pensando de forma mais abrangente, cabe indagar. A mãe morta, num filme, o marido, no outro. A mãe pode ser a pátria, a Igreja. O pai, a autoridade. “Vocês (críticos e jornalistas) procuram significados demais. O que me interessou foi a questão do fato. Os laços permanecem, após a morte?”, explicou, a título de interrogação, o cineasta japonês.

Pode-se lembrar que o tema da anorexia está presente em outro filme premiado da Mostra. O sueco Minha Irmã Magra, de Sanna Lenken, recebeu o Crystal Bear na Berlinale, como melhor filme da mostra Juventude. Todas essas garotas inseguras com suas imagens – e todas indo contra conceitos e formas estabelecidos pelas gerações anteriores. Pode-se preferir, talvez, o misterioso filme de Kurosawa, com sua ideias do casamento como um vínculo permanente. O diretor fez uma observação curiosa – no Japão, o público preferencial do filme era feminino e, dentro dele, um número considerável de viúvas, que encontravam, no post-mortem, uma forma de reconciliação com os maridos workaholics, que as negligenciavam.

 

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