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'Boca do Lixo' retrata o submundo na São Paulo dos anos 1950

Daniel de Oliveira se transfigura para viver bandido real em filme que está na 34ª Mostra

Marcio Claesen, Estadão.com.br

29 de outubro de 2010 | 19h21

Transformar uma cidade que não cuida de seu patrimônio arquitetônico em um filme de época. Eis uma missão tão difícil quanto converter um livro de narrativa fragmentada em um longa-metragem com começo, meio e fim. Esses foram apenas dois dos desafios encontrados pelo diretor Flavio Frederico ao realizar Boca do Lixo, seu segundo filme de ficção, na cidade de São Paulo.

 

O fator financeiro foi o maior entrave da produção que, entre outras limitações, teve cortadas várias externas e sequências de ação. Fizeram falta? Sim. No longa - que se perdoe o lugar-comum -, o bairro paulistano dos Campos Elíseos é personagem tão importante quanto o elenco. O vai-e-vem dos clientes nos prostíbulos que ocuparam os casarões-símbolo da aristrocracia cafeeira tiveram na história mais espaço que os confrontos entre traficantes, determinantes para a trama.  

 

O longa conta a história de Hiroito (Daniel de Oliveira), bandido que ajudou a profissionalizar o crime na capital ao montar um esquema de dristribuição de drogas que provocou uma guerra de facções no centro da cidade. Além de pertencer a uma família de classe média do Bom Retiro - reduto de imigrantes judeus e também gregos como Hiroito - pouco ficamos sabendo da formação do rapaz. Quano o pai, com quem tinha relação conturbada, morre, ele se entrega sem reservas ao crime. Não espere, entretanto, um asséptico rapaz bem de vida descobrindo o submundo como em Meu Nome Não É Johnny. Hiroito não posa de mau, ele é mau.

 

Na livre adaptação por Frederico e Mariana Pamplona da autobiografia de Hiroito, não há tempo para momentos reflexivos. A sequência de fatos não revela a psicologia do protagonista, o que dificulta a identificação com ele. E não há outro com quem possamos nos identificar. As mulheres que cruzam seu caminho são meros acessórios no filme. Uma pena, pois sobra talento para Hermila Guedes e Leandra Leal, mas falta personagem. Isso é antes mais uma escolha do que um defeito do longa, que centra o foco no marginal em mais uma boa construção de Daniel de Oliveira no cinema. Daniel, aliás, não foi a primeira opção para interpretar o protagonista, como o próprio diretor revelou em entrevista ao Estadão.com (veja a íntegra aqui). Frederico o considerava bonito demais para o papel. Após uma transformação que dispensou efeitos especiais, surge um rosto mais próximo ao do verdadeiro Hiroito, quase irreconhecível em alguns momentos.

 

Ao roteiro irregular agrega-se o excelente figurino que compõe com a boa pesquisa musical o clima de uma São Paulo nos 1950 e 1960 que via a ingenuidade dar lugar à malícia e à corrupção. Esta última simbolizada pelo delegado que parece ter sido talhado para Paulo César Pereio deleitar-se com o sarcasmo mau-caráter de um personagem que se vende ao bandido que paga mais. Histórias de criminosos no cinema são muitas e até na filmografia brasileira não faltam bons exemplos. Se não há como ignorar seus defeitos, Boca do Lixo tenta montar de forma bem intencionada um retrato de parte da transformação definitiva da 'província de Piratininga' na grande metrópole atual.

 

Serviço:

Boca do Lixo na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Dia 30/10 às 14h30 na Cinemateca - Sala BNDES (Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Mariana, tel. 3512-6111 r. 215); dia 31/10 às 20h30 no Marabá Multiplex 2 (Avenida Ipiranga, 757, República, tel. 5053-6881). Ingr.: R$ 18.

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