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Bob Cuspe inspira filme de animação e vai a festival na França

Personagem criado por Angeli está em 'Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente', que participa do Festival de Annecy

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

25 de maio de 2021 | 20h00

Tradução mais perfeita (e debochada) da expressão “punk da periferia”, Bob Cuspe, um dos rebeldes sem causa, consequência, lenço ou documento dos quadrinhos de Angeli, vai ganhar mundo, competindo na seção Contrechamp de Annecy, o maior festival de cinema animado do mundo, sediado na França desde 1960 e que começa em 14 de junho. 

Um conflito entre o personagem e seu criador, que decide se livrar dele, é o mote de Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente, primeiro longa-metragem do animador paulista Cesar Cabral, feito em stop motion, técnica em que objetos são filmados quadro a quadro, dando-lhes movimento - como se viu em sucessos das telas como Shaun, o Carneiro: O Filme - A Fazenda Contra-Ataca, indicado ao último Oscar. Quem faz a voz do protagonista, traduzido lá fora como Bob Spit, é Milhem Cortaz. 

Aos 49 anos, o cineasta nascido em Santo André, mas criado na Zona Leste de São Paulo, esteve em Sundance, em 2011, com o premiadíssimo curta Tempestade e colecionou láurea (como o troféu Coral, do Festival de Havana, e dois Kikitos de Gramado) por Dossiê Rê Bordosa, também baseado no universo de Angeli. Annecy já rendeu vitórias para o Brasil no passado, para Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, em 2013; e para O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, em 2014. 

Este ano, em que o evento acontece presencialmente, mas também com exibições online, há um outro longa nacional na mesma mostra em que Bob Cuspe tenta sua sorte: o baiano Meu Tio José, de Ducca Rios.

“A animação brasileira cresceu muito nos últimos 15 anos. Temos estúdios de produção 2D, de séries, com cem pessoas animando por dois ou três anos”, alerta Cabral, que já trabalha no segundo longa, chamado Um Pinguim Tupiniquim, projeto infanto-juvenil baseado na literatura da escritora Índigo, misturando stop motion com live action. “É muito significativo ver produções rodando pelos canais, festivais e cinemas. Mas precisamos tomar cuidado, pois me preocupa muito o que vai ser daqui a quatro ou cinco anos. Não tem mais edital, não tem mais incentivo. E o audiovisual está vivendo isso como um todo.”

Genuína, a preocupação do diretor chega num momento em que o Anima Mundi, o festival mais importante das Américas para desenhos, computação gráfica, filmes de massinha e afins segue de portas fechadas, paralisado por falta de patrocínio. Mas a presença do país nas telas de Annecy dá um gás ao setor e catapulta a fauna de Angeli para o mundo. “Animação não tem take 2, temos que planejá-la muito bem para evitar ao máximo o desperdício”, explica Cabral, que cresceu lendo a obra do cartunista por trás de tipos como os Skrotinhos na HQ Chiclete com Banana, que circulou de 1985 a 1990, chegando a imprimir 110 mil exemplares. “Acho que o Bob Cuspe é o primeiro momento em que o Angeli começa a pôr um pouco da vida dele no próprio trabalho. Pelo menos, o primeiro com mais evidência.”

No longa que promete arrancar risadas de Annecy, Bob Cuspe vive num deserto digo de Mad Max na cabeça de Angeli, que resolve matá-lo. Ameaçado, o punk decide encarar seu “pai”. Além de Milhem Cortaz, o filme tem, em seu elenco de vozes, Paulo Miklos como os Irmãos Kowalski; Grace Gianoukas como Rê Bordosa, e André Abujamra como Rhalah Rikota. André também participa da trilha, ao ladro de Marcio Nigro. Embalam ainda a narrativa a canção Sonífera Ilha, Inocentes, Iggy Pop, Mercenárias e Patif Band.

“O primeiro trabalho que fiz com o Angeli foi Dossiê Rê Bordosa, que tem estrutura documental, investigando a morte da personagem mais famosa dele. Acho que, olhando hoje, o curta está muito estruturado nos anos 80, na revista Chiclete com Banana. Esse curta se desdobrou na série Angeli - The Killer, feita a convite do Canal Brasil, que está com todo esse universo da Chiclete, num formato de revista de variedades, com quadros e situações que misturam animação stop motion, animação 2D”, diz Cabral. “Numa conversa com o Angeli, ele propôs essa ideia do longa do Bob. Mas, para não fazer mais do mesmo, minha proposta inicial para a trama foi me aproximar do Angeli atual, tentando entender pra onde ele está caminhando e como ele se relaciona com o passado.”

Na confecção do projeto, Cabral fez uma série de entrevistas com o quadrinista, hoje com 64 anos. “Eu ia com uma equipe reduzida, de duas ou três pessoas, e, nas últimas conversas, acabei indo sozinho, levando um gravador pra mim e deixei outro com ele, para que fizesse uma espécie de diário, gravando as lembranças ou algo que ele achasse interessante. Com esse material, a gente começou a construir uma relação do passado dele com o que Angeli vive atualmente. Em sua estrutura, o filme possui dois universos. Um tem cara de documentário, que é a entrevista e a convivência com o Angeli. De certa maneira, essas entrevistas não dão muito certo, pois ele não está querendo falar muito desse passado. Ao mesmo tempo, tem uma história, que corre em paralelo, que é a saga do Bob Cuspe. Ele está encostado em um deserto pós-apocalíptico e o Angeli da parte documental começa a desenhar a morte dele, comido por mini Elton Johns mutantes. Não estamos usando o termo ‘Mini Elton John’ por uma questão de direitos autorais, mas simboliza o pop contra o punk”, explica Cabral. “Existe um embate do autor com a criação e a criação com o autor”.

Buscar mais realismo para a concepção plástica desse conflito entre imaginação e vida concreta foi uma das bússolas de Bob Cuspe - Nós Não Gostamos de Gente. “Esses personagens são muito mais realistas no filme do que foram no curta e na série que fiz sobre a obra do Angeli. A série tem aspecto muito mais de massinha. Nela, o látex na roupa tem muita cara de borracha. No longa, a gente trouxe uma modelagem mais próxima de um realismo, usando tecido e alguns elementos mais reais e físicos do nosso dia a dia. Considero que o filme não é uma adaptação direta das histórias do Angeli. Ela bebe no universo dele, mas considero-o uma história original, que lida com a questão do próprio autor com os personagens”, diz Cabral. “Bob Cuspe não é aquele punk dos anos 1980. Agora ele é um punk velho e comido pelo tempo, tentando sobreviver neste mundo”.

Em sua competição principal, Annecy vai apresentar o dinamarquês Fuga (Flee), de Jonas Poher Rasmussen, que abriu o festival É Tudo Verdade, em abril. Quem faz sua estreia em longas no evento francês é a checa Michaela Pavlátová, que arrebatou fãs no Brasil via Anima Mundi, com curtas como Reci, Reci, Reci e Tram. Ela vai mudar de formato com My Sunny Maad, uma história de amor em longa metragem entre uma jovem egressa da República Checa que cai de amores por um afegão cheio d questões existenciais com talebans. Vai ter ainda Lamya’s Poem, de Alex Kronemer, sobre a paixão de uma criança pela poesia. Do Japão, terra dos animês, a pedida de Annecy é Poupelle of Chimney Town, de Yuusuke Hirota. Da China, a boa é Jiang Ziya: The Legend of Deification, de Cheng Teng e Wei Li. Um dos filmes mais aguardados da maratona francesa foi feito na Alemanha, pelo germano-espanhol Santiago Lopez Jover: Snotty Boy, uma comédia sobre liberdade de expressão.

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