Boas surpresas na mostra paralela em Veneza

Nos filmes fora de competição, destaque-se a surpresa (negativa), de Brother, o primeiro trabalho de Takeshi Kitano nos Estados Unidos, e o bom thriller do argentino Marcelo Piñeyro, Plata Quemada, baseado num livro de Ricardo Piglia, já traduzido no Brasil com o título de Dinheiro Queimado. O próprio Kitano faz o papel de um gângster da yakuza, a máfia japonesa, que vai acertar suas contas em Los Angeles. Muita violência e concessões politicamente corretas, já que o "brother" do título é negro. Faltam a este filme os contrapontos que faziam a graça e interesse dos anteriores. O bandido vivido por Kitano não tem nenhuma espessura dramática que o faça diferentes dessas figuras de papel dos filmes de ação. Enfim, Brother é um passo, ou vários, atrás, numa carreira tida por brilhante. Em Dinheiro Queimado, Marcelo Piñeyro narra a história real de um roubo acontecido em 1965 em Buenos Aires. Numa ação em que dois policiais são mortos, uma quadrilha rouba vários milhões de pesos. É obrigada a refugiar-se no Uruguai, mas a trama toda é desvendada, pois a polícia está especialmente motivada pela morte dos colegas. Alguns ladrões são presos e três deles ficam acuados num apartamento em Montevidéu. Decidem não se entregar e, no auge de uma orgia de violência, queimam o dinheiro roubado e o atiram pela janela. Um ato trágico, sem volta, que impressionou Piglia e o motivou a escrever o livro. Piñeyro filma com a intensidade que a história merece. Em especial, o relacionamento tenso entre dois dos assaltantes, os homossexuais conhecidos como "os gêmeos", interpretados por Leonardo Sbraglia e Eduardo Noriega. O melhor do filme é a tensão acumulada quando o bando se sente progressivamente pressionado durante a perseguição policial. Há momentos em que Piñeyro dialoga com a grande tradição norte-americana do filme noir. Outras, em que homenageia a violência de Samuel Peckinpah, com a fuzilaria desenfreada do final. No miolo do filme, a sua parte mais séria, a relação complexa entre Sbraglia e Noriega, intensa, atormentada e terminal. "Quis fazer esse filme para mostrar a dignidade do amor homossexual", disse o diretor em entrevista. Documentário - Fora do circuito de premiação, aliás fora de qualquer circuito, mas emocionante e necessária é a série Via dei Due Macelli - Sinistra senza Unità, documentário de Daniele Segre sobre o fechamento do jornal L´Unità, órgão do antigo Partido Comunista Italiano. Num exercício de cinema urgente, Segre há poucos meses ficou sabendo que o jornal, um emblema das esquerdas européias, estava atravessando sérias dificuldades. Procurou o diretor Giuseppe Caldarola, e o comitê de redação do jornal, pediu permissão para filmar. Obtida a autorização, convocou seu câmera Franco Robust e instalou-se na redação, situada na Via Due Macelli, em Roma. Entrevistou a equipe, falou com antigos colaboradores, visitou lugares onde o jornal fez história. O resultado, apresentado em dez capítulos de uma hora de duração, é, na verdade, uma lição sobre a história italiana neste século, vista a partir da ascensão e declínio de um grande jornal de partido. O l´Unità foi fundado por Antonio Gramsci e circulou pela primeira vez em 1943, ainda no quadro da luta contra o fascismo. Tornou-se um órgão do PCI, com grande circulação e influência. No dia 1º de maio costumava ter tiragem de 1 milhão de exemplares. Entrou em declínio com o fim da utopia socialista. O Partido Comunista Italiano, inclusive, mudou de nome para PDS (Partido Democrático da Esquerda - "sinistra", em italiano). Atualmente, o jornal está em processo de liquidação e não circula mais. Seu diretor, Caldarola, continua negociando meios para salvá-lo. Segundo Segre, sua série não é apenas sobre o fim de um jornal de tradição, mas um comentário sobre a própria esquerda, que deve refletir agora sobre a sua identidade política.

Agencia Estado,

08 de setembro de 2000 | 17h56

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