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‘Boa Sorte’ traz história barra pesada e sensível

Estreia de Carolina Jabor na ficção, filme exibido em Paulínia é uma história de amor entre seres especiais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 02h00

PAULÍNIA - Em Boa Sorte, filme de estreia na ficção de Carolina Jabor, Deborah Secco é Judite, portadora de HIV, autodestrutiva, que se apaixona pelo adolescente João (João Pedro Zappa) na clínica onde ambos estão internados. A história inspira-se no conto Frontal com Fanta, de Jorge Furtado.

Boa Sorte é correto, bem dirigido, bem interpretado. Deborah, presente no 6.º Festival de em Paulínia, faz questão de dizer que a personagem mudou sua carreira e, talvez, sua vida. “Esta que vocês veem na tela é a atriz que eu quero ser daqui para a frente”, disse. Ok. Vemos Deborah num papel mais pedregoso que o das novelas da Globo. Verdade que ela já havia ousado fazer Bruna Surfistinha na tela grande. Mesmo assim, de fato Judite é um passo adiante em sua trajetória. Ela se expõe, aparece despida em algumas cenas, faz cenas de sexo (de bom gosto) com o jovem João e emagrece 11 quilos para representar uma doente terminal. 

Em suas sequências iniciais, o filme tenta mimetizar alguma coisa que já se conhece lá de longe – o ambiente de clínicas psiquiátricas pintado em O Estranho no Ninho (1975), de Milos Forman. O charme dos desajustados, o poder médico, enfermeiros cruéis e aproveitadores – tudo isso está lá, em doses mitigadas, em Boa Sorte. Mas, no fundo, é mesmo, como define sua atriz, uma história de amor entre dois seres em condições muito especiais. Ela, sabendo que tem pouco tempo; ele, sem rumo na vida e com experiência zero no campo amoroso. Dá química. Mas como romance entre seres tortos, o filme parece muito certinho. Perde fôlego com isso. A ambientação é boa. Foi filmado na Beneficência Portuguesa, no Rio, e tem fotografia assinada pela uruguaia Barbara Alvarez. Daí o tom à la Lucrecia Martel de algumas passagens.

Outro ponto alto é a presença de Fernanda Montenegro, como avó da personagem Judite. São poucas cenas com a atriz, mas todas marcantes. Fernanda faz uma avó modernete, com muita responsabilidade pela situação da neta, mas sem nenhuma intenção de deixar a culpa invadir sua vida. É responsável por toques de humor que aliviam a barra pesada predominante na história. 

Castanha, de Davi Pretto, joga em outra chave. Eis aqui outro filme de difícil qualificação, a exemplo de outro concorrente, Aprendi a Jogar com Você, de Murilo Salles. João Carlos Castanha é um ator gaúcho de 52 anos, que vive com a mãe e trabalha à noite como transformista nas boates gays de Porto Alegre. Aos seus problemas, já bastante grandes, soma-se um sobrinho viciado em crack, que atormenta a família com pequenos furtos e ameaças. Castanha precisa dar um jeito no rapaz, para livrar sua velha mãe do assédio do neto. Cria-se então uma narrativa. Com princípio, meio e (quase) fim, e um certo suspense nas bordas. 

Uma história que surfa entre os gêneros. Ou assim parece. Ficção ou documentário? Onde está a verdade? Se é que ainda podemos usar palavra tão pomposa. Não parece ser uma preocupação dominante para o diretor gaúcho. “Para mim, é apenas um filme, não importa se de ficção ou documental. Me interessa ver quanto o personagem está atuando na vida, como nós todos atuamos. Essa área cinza, esse caminho que vai se fazendo”, diz. 

O fato é que Castanha existe. É interpretado por ele próprio. Assim como existe uma senhora chamada Celina Castanho, sua mãe, também intérprete de si. Os bares gays nos quais se exibe Castanho fazem parte da realidade. E todo o resto? Quem é aquele personagem ensanguentado da cabeça aos pés que aparece nos primeiros planos do longa? O que são os sonhos e/ou delírios de Castanha, transcritos na tela? Onde estamos, afinal? 

E reside aí, talvez, a graça maior do filme: ele nos tira o chão a todo instante, nos repropõe uma interpretação diversa da realidade. Em nome do quê? Precisamente, em busca do que seria a “verdade” do personagem, captável não na descrição exata de sua vida (como se isso fosse possível), mas na reinvenção dessa vida em termos ficcionais. Naquilo que se recria quando tentamos dar sentido a uma vida que, no mais das vezes, vai se fazendo por obra do acaso. A ficção (ou pelo menos um tipo dela) é muito linear. Queremos que as mínimas coisas façam sentido. A vida real é muito mais lacunar, acidental, cheia de acontecimentos que não casam entre si. Queremos que seja lógica, racional, previsível, e ela flerta com o absurdo, com o nonsense, e segue aos trambolhões. Um documentário como Castanha se propõe uma aproximação a esse real caótico, para dele tirar sua verdade possível. 

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