'Blow-Up', ou 'Depois Daquele Beijo', obra-prima de Michelangelo Antonioni, ganha versão restaurada

'Blow-Up', ou 'Depois Daquele Beijo', obra-prima de Michelangelo Antonioni, ganha versão restaurada

Longa se tornou um farol do cinema ao retratar as mudanças que irradiavam da ‘Swinging London’ e fez história ao impor novo conceito para a autoria cinematográfica

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2016 | 06h00

David Hemmings, o rosto só olhos, o olhar opaco, o sorriso meio infantil, é Thomas, o protagonista de Blow-Up, longa de Michelangelo Antonioni que, no Brasil, foi lançado como Depois Daquele Beijo. Só a escolha do ator já tinha caráter de manifesto. De O Grito a O Deserto Vermelho, passando pela trilogia da solidão e da incomunicabilidade – A Aventura, A Noite e O Eclipse –, Antonioni ficou famoso por escolher atores belos e viris, mas dos quais ele se aplicava em tirar a vitalidade. Steve Cochran, Gabriele Ferzetti, Marcello Mastroianni, Alain Delon, Richard Harris. Em Blow-Up, o grande autor nem teve essa dificuldade. Hemmings já introduz uma frieza, quase uma desumanidade.

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Thomas é fotógrafo e vê o mundo por meio de sua câmera. Num certo sentido, é voyeur por excelência. Profissional da moda, faz um jogo de sedução com as modelos, mas elas também são andróginas, anoréxicas. É um mundo privado de carnalidade. Com a câmera, Thomas monta nas mulheres e cobra delas uma entrega que se assemelha ao orgasmo, mas é um coito, digamos, interrompido. Ele deixa a modelo no solo, exaurida. Zero prazer. Sai desse mundo de artifício para o mundo real. Fotografa sem-tetos num abrigo, ou segue um casal no parque. Tira fotos da dupla, no que parece um verdadeiro jogo amoroso. No estúdio, ao ampliar as fotos, Thomas descobre o que parece um atirador, não, o que é um atirador escondido entre as folhagens. Volta ao parque, e há um cadáver. Encontra a mulher, e é Vanessa Redgrave. Fazem outro jogo, mas, na sequência, as fotos somem, o cadáver também desaparece. Sem corpo, não há crime.

Há controvérsia, se são 50 anos ou 49. Blow-Up é uma produção anglo-italiana de 1966, mas só no ano seguinte o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Só para lembrar, o grande prêmio do júri foi para Estranho Acidente, de Joseph Losey, e a sueca Pia Degermark foi melhor atriz por Elvira Madigan, de Bo Widerberg. Todos esses filmes fazem hoje parte do imaginário de qualquer cinéfilo. As cenas do parque já foram exaustivamente analisadas, o enigma do tênis sem bola da cena final há todo esse tempo divide os críticos, mas muitos espectadores – os mais jovens, talvez – só agora vão ver o filme na tela grande do cinema. Já o viram em outras mídias, em outras telas – TV, homevideo. Ver ou rever Blow Up nessas circunstâncias faz toda diferença. É um dos filmes icônicos, emblemáticos, dos anos 1960.

Com ‘Blow-Up’, Antonioni fez história ao impor novo conceito para a autoria cinematográfica

Quem foi jovem nos anos 1940, ou 50, ou 70, 80, 90, com certeza identificará na época de sua juventude um período de mudanças viscerais. Mas foram os anos 1960 que fizeram história. A década que mudou tudo. Os Beatles, a pílula e a minissaia. Um terremoto abalou o mundo e o epicentro era Londres – a Swinging London. Michelangelo Antonioni levara ao limite, na Itália, a sua crítica do vazio existencial da burguesia. Solidão e incomunicabilidade. O Deserto Vermelho levou-o ao que parecia um impasse.

Para se reinventar, Antonioni caiu no mundo. Filmou em Londres (Blow-Up), revelou a ‘América’ em transe (Zabriskie Point) e decifrou o enigma por trás da Grande Muralha (China). Era um grande autor de filmes de arte. Com Blow Up – Depois Daquele Beijo, criou – ou foram as circunstâncias – uma nova modalidade – o filme de arte para as massas. Virou um êxito planetário sem abrir mão do rigor estético. Consolidou uma elite de autores. Já havia Jean-Luc Godard, na França, mas o chefe de fila da nouvelle vague fazia biscoitos finos para intelectuais. Antonioni, Federico Fellini e Ingmar Bergman atingiram outro patamar, e cada um, à sua maneira, foi metalinguístico.

Na cena com Vanessa Redgrave, o fotógrafo, Thomas, tira a camisa. Fica com o torso nu, ela também. Vanessa quase não tem seios. Ficam os dois muito parecidos. Masculino, feminino. Androginia. Só existe uma presença ‘carnal’ no filme, e é a personagem de Sarah Miles. Antonioni viu com desconfiança a revolução sexual da Swinging London. Um mundo gélido de sentimentos, sem afeto. Um mundo em que a realidade é substituída pela ilusão. Thomas vive nesse limiar. Quando descobre o crime, o comprometimento o sacode de seu torpor. Mas quando desaparece o corpo, vai-se também o crime. Um mundo de signos, a civilização da imagem, sem signo, cai no vazio. É como jogar tênis sem bola.

Tanto quanto Thomas, o mundo em que ele vive, a Londres dos anos 1960, é personagem de Blow-Up. Moda, rock, mudanças de comportamento, e o comportamento virou o novo nome da ética. Blow-Up é sobre o estado do mundo em 1966/67. Cinquenta anos depois, por maiores que tenham sido certas mudanças, as essência do filme permanece intacta. Antonioni baseou-se num conto do argentino Julio Cortázar (Las Babas del Diablo), mas seu farol foi o Alfred Hitchcock de Janela Indiscreta, no qual outro fotógrafo, James Stewart, usa seu instrumento de trabalho, a câmera, para bisbilhotar os vizinhos e também descobre um crime. São filmes sobre arte e cinema, a arte do cinema, e por isso serão eternos. Enquanto existirem filmes.

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