'Blindness', de Meirelles, não é fácil, mas intrigante e bem feito

Filme, baseado na obra de Saramago, recebe resposta fria na 1.ª exibição para jornalistas em Cannes

Luiz Carlos Merten, enviado especial a Cannes,

08 de maio de 2014 | 16h44

No cartaz do 61º Festival de Cannes, que homenageia David Lynch, uma tarja cobre os olhos de uma mulher loira, de lábios e unhas pintados de vermelho, a cor da paixão. Ela não pode ou não quer ver? É uma imagem que remete a desejos interditos - perversos - como nos filmes do homenageado? Mais ou menos como perguntar quem, ou o que, nasceu primeiro - a galinha ou o ovo -, seria perguntar quem, ou o que, foi escolhido primeiro - o cartaz ou o filme de Fernando Meirelles para abrir o maior evento de cinema do mundo? Blindness, que no Brasil vai se chamar Ensaio Sobre a Cegueira, é bom, sobretudo muito bem-feito, vamos logo responder à pergunta que você deve estar-se fazendo, mas não é um filme fácil. O próprio livro de José Saramago que lhe deu origem é uma obra muito complexa - o escritor cria uma metáfora, mas sob essa aparência o filme tem uma base brutalmente realista, e deve ter sido este o fator decisivo para que o autor de Cidade de Deus fosse chamado pelo produtor canadense para dirigir a adaptação. Veja também:Veja galeria de fotos do dia-a-dia do Festival Acompanhe a cobertura no blog do Merten   Fernando Meirelles abre Festival de Cannes em grande estilo Um filme sobre a cegueira abrindo um festival cujo cartaz é esta mulher de olhos censurados (vendados?) parece até obviedade. Na coletiva, Meirelles lembrou que há dez anos tentou comprar os direitos, mas Saramago lhe disse não, porque o cinema é contrário ao espírito do livro. O cinema mata a imaginação - o cinema mostra, e a cegueira branca, metafórica, que atinge seus personagens (e a humanidade em geral), está na contramão desta tendência realista-naturalista. Foi o produtor canadense Niv Fichman quem convenceu o escritor, premiado com o Nobel, a vender os direitos. O resto é história. O filme voltou às mãos de Meirelles e ele assumiu a co-produção internacional. Juliane Moore disse na coletiva que via em Blindness o futuro do cinema no mundo globalizado. Em toda a equipe, existem somente três norte-americanos - os atores Mark Ruffalo e Danny Glover, e ela. Todos os demais, o que inclui elenco e técnicos, são uma fusão de pessoal do Brasil, do México, do Japão e do Canadá, todos atuando como uma família. O resultado é intrigante, mas Blindness não é mesmo de fácil adesão. Algumas pessoas, no fim da sessão, achavam que o filme banaliza a complexidade do romance. Ou então é a velha diferença entre cinema e literatura. Um filme como Blindness dificilmente pode aspirar à unanimidade. Fernando Meirelles voa no sábado para Lisboa, especialmente para mostrar o filme para o autor do livro. Como reagirá Saramago? Como reagiu a platéia de Cannes? Com profundo respeito, senão entusiasmo, pela carpintaria que Meirelles, mais uma vez, revela. A história não é muito diferente da de outros filmes fantásticos. Um vírus, ou sabe-se lá o que, infecta algumas pessoas, que vão perdendo a visão. Só que, em vez de ingressar num mundo de sombras, elas ingressam num mundo de excesso de luz - a tal cegueira branca. São confinadas e aí o filme chega ao ponto. Quando a ordem estabelecida entra em colapso, a barbárie se estabelece. Apenas uma mulher, a personagem de Julianne Moore, consegue enxergar. A metáfora de Saramago, expressa na primeira frase que o espectador ouve, refere-se justamente a essa tragédia do mundo moderno. As pessoas vêem sem ver. Um dos efeitos secundários desta cegueira branca é a sensação de invisibilidade. Danny Glover fez o discurso mais político da coletiva - ele diz que no mundo atual, as pessoas perderam a capacidade de ver o sofrimento do outro. Para Meirelles, seu filme é sobre a barbárie. Para o roteirista Don McKellar, é sobre a luta das pessoas para não perder a dignidade. Existem elementos de O Senhor das Moscas, de William Golding; de O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel; de Os Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón (que integra o júri presidido por Sean Penn) A autoridade, o confinamento, o apocalipse now. Pode-se até ver no filme uma estilização cênica à Lars Von Trier. Blindness seria Blackville, Dogville sem Lars. Blindness impressiona e, em alguns momentos, quando a música impulsiona a comunhão do grupo, também emociona, mas eles são raros. Existem inverossimilhanças, mas elas podem ser creditadas ao não querer ver dos personagens (e das autoridades que hostilizam os cegos brancos). Como disse a atriz Jeanne Balibar, na coletiva do júri, certos filmes, mais do que outros, exigem uma segunda visão para que se possa emitir um juízo definitivo. Talvez seja o caso de Blindness, que desperta uma admiração fria. O excepcional tratamento fotográfico de César Charlone, o som e as interpretações, de qualquer maneira, saltam a uma primeira visão. Cannes não serviu nenhum refresco em sua abertura. Ponto para o festival, e para Meirelles.  Burrice e mal Na seqüência da coletiva de Blindness, houve a do júri. O presidente Sean Penn foi cobrado se está apoiando Barack Obama e disse que, embora não tenha dado seu apoio formal ao candidato, acredita que Obama esteja inaugurando uma nova era. Obama vem de encontro ao que os EUA querem "depois do horror da era George W. Bush" - que Sean Penn comparou à "burrice, à insensibilidade e ao mal" - e, neste sentido, Sean acredita que seja a eleição mais importante das últimas décadas, a mais importante de que já participou, como eleitor.

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