'Blind' faz relato de um existir diferenciado

Narrado em primeira pessoa, o filme é como se fosse o diário da tentativa de recuperação e reconstrução do universo dos sentidos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 Março 2015 | 03h00

Blind, de Eskil Vogt, é um filme sensorial, que procura dar conta de uma experiência muito dura. Uma mulher, Ingrid (Ellen Dorrit Petersen), está perdendo rapidamente a visão, em processo irreversível causado por uma doença degenerativa. Encerra-se em casa, tentando se adaptar à sua nova realidade de vida. O marido a apoia em tudo, mas a solidariedade não basta num caso como este.

O interessante é que Vogt procura, na própria textura visual do filme, dar ideia desse processo de perda sensorial por que passa Ingrid. Perda tanto visual quanto de memória. Por exemplo, ela tenta se lembrar de coisas e seres que viu com nitidez no passado, de modo a estocar imagens na memória, da mesma forma que alguém estoca alimentos prevendo um tempo de escassez. No futuro, quando ela não enxergar mais nada, será essa a reserva mental de imagens à qual terá de recorrer. Para se situar no mundo e também em relação a si mesma.

Narrado em primeira pessoa, o filme é como se fosse o diário dessa tentativa de recuperação e reconstrução, mas não apenas daquela parte da vida que compõe o universo dos sentidos. Em seu processo de construção mental, Ingrid mistura aquilo que chamamos de real aos fatos da fantasia e da imaginação.

De modo que não se tem aqui propriamente uma “história”, no sentido mais convencional do termo. É como o relato de um existir num estado diferente, e como uma pessoa se vira para se adaptar à sua nova condição. Mas também não se trata de um documentário sobre a deficiência visual. Pelo contrário. É filme de invenção, de um momento de vida que implica certa busca por parte da protagonista. Mais não se pode dizer, sem recair nesse pecado contemporâneo chamado spoiler. Mas se pode adiantar que diz respeito a algo relacionado à vida afetiva de Ingrid e que ela terá de se esforçar para reencontrar. 

Construído dessa forma um tanto abstrata, Blind é um interessante ensaio visual sobre justamente a perda do sentido da visão e tudo o que isso implica para a personagem. Nem tudo é perfeito na obra, e nem ao menos bem sucedido. Por exemplo, o filme às vezes exagera no uso de recursos como superposição de imagens e inscrições sobre a tela, tornando-se um tanto poluído...visualmente, o que parece sutil contradição de termos para um filme que explora os limites da visão.

Nem por isso deixa de ser tocante em certos momentos e instigante em outros. Seria interessante notar que, com a estreia do norueguês Blind e do sueco Força Maior, temos ao mesmo tempo duas produções escandinavas no circuito comercial, o que vem a ser uma raridade nos dias que correm.

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