Stephen Vaughan/Warner Bros. via The New York Times
Stephen Vaughan/Warner Bros. via The New York Times

'Blade Runner 2049': Denis Villeneuve conseguiu fazer uma boa continuação

Nova história se passa 30 anos depois do original de Ridley Scott, e tem no elenco Harrison Ford, Ryan Gosling e Jared Leto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2017 | 10h00

Na entrevista que deu ao Estado, por telefone – estava em Berlim justamente para promover a estreia de Blade Runner 2049 –, Denis Villeneuve repetiu o que já havia dito na Comic Con de San Diego. Gosta tanto do original de Ridley Scott, de 1982, que aceitou a direção só para se assegurar de que ninguém iria 'fuck-up'' (f...) com o material – como fez o próprio Scott com Alien Covenant? Villeneuve riu do outro lado da linha, mas não respondeu à provocação do repórter. “Você é que está dizendo.”

O novo Blade Runner 2049 – cuja ação se passa 30 anos depois do anterior – estreia na próxima quinta, 5. Nos EUA, será dia 6. Parabéns. A partir das 10 h desta sexta, as críticas estão liberadas. A pergunta que não quer calar – o filme é bom? Siiiimmmm. Villeneuve não errou a mão, manteve alguns segredos e ampliou outros. Havia, em Blade Runner, a dúvida. Deckard/Harrison Ford, o caçador de andróides, era, ele próprio, replicante? Havia o mistério daquele unicórnio de papel, lembram-se? Agora – K/Ryan Gosling, pelo contrário, é humano?

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Durante boa parte de Blade Runner, K procura a criança nascida da união de uma replicante com um humano. A pista é um brinquedo, um cavalo de madeira com uma data gravada. Como sempre na literatura futurista de Philip K. Dick, o tema da memória é essencial. Memórias são reais, ou implantadas? O filme começa com uma operação trivial. K procura, para aposentar, um replicante que se rebelou. Por meio dele, surge a pista da criança, que o replicante, antes de morrer, chama de "milagre".

Faz parte da lenda de Blade Runner, o original. O filme de US$ 28 milhões fracassou na bilheteria, mas de cara tornou-se objeto de um culto. O lançamento das versão do diretor, em 1992, contribuiu para o status. Se você é fã de carteirinha conhece as histórias. Harrison Ford detestava o conceito, antipatizava com Sean Young - e ela, de alguma forma, volta com seu caminhar robótico -, vivia às turras com Ridley Scott. A tudo Blade Runner resistiu. Seguindo agora a pista da criança mítica, K descobre coisas sobre si mesmo e chega ao envelhecido Deckard.

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São caçados pelo misterioso Wallace/Jared Leto e sua replicante assassina. O decadente mundo futuro continua impressionante, a nova trilha – coautoria de Hans Zimmer – mantém a majestade e melancolia do original. Criador e criatura. “O tema de Frankenstein”, como diz Villeneuve. Paráfrases bíblicas, menos enigmáticas que as de Darren Aronofsky em Mãe!, que já está erm cartaz. Rutger Hauer cravava o prego na própria mão e sacrificava-se em Blade Runner. Há um novo sacrifício em Blade Runner 2049. Não haveria esperança nesse mundo de sombras. A fala de Hiam Abbass restabelece o primado do humano. O mundo divide-se entre os que querem dominar, e libertar. O plano final recupera o desafecho de Blade Runner, sem o voo daquela pombra. Villeneuve conseguiu. Não "fucked-up" seu material.

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