"Blade 2" enfoca vampiros em família

Na entrevista que deu no lançamentode A Espinha do Diabo, no ano passado, Guillermo Del Tororevelou seu entusiasmo pelo filme que acabara de fazer. Erajustamente Blade 2, que estréia nesta sexta-feira em cem salas de todoo País. A distribuidora PlayArte acredita no potencial do filme.É a seqüência de Blade, com o próprio Wesley Snipes no papeldo mutante, meio vampiro, meio homem, que se dedica a caçarvampiros. No seu novo filme, Del Toro transforma a estética dosangue de A Espinha do Diabo em efeitos especiais. O sangue,na maioria das vezes, vira purpurina que se desmancha no ar. DelToro talvez tenha inventado o trash chique. Mexicano, fã de Alfred Hitchcock, Del Toro virou umacelebridade há exatamente dez anos, quando as fitas piratas deCronos, seu filme de estréia, encantaram gente como QuentinTarantino e David Cronenberg. Cronos é um filme debaixíssimo orçamento, que mistura misticismo e vampiros.Cooptado pela Dimension, a divisão de terror da Miramax, DelToro fez, a seguir, o nojentíssimo Mutação, com gosmentasbaratas gigantes que semeavam pânico e destruição. Só paralembrar: há insetos em Cronos, também. E há mutações emtodos os filmes de Del Toro. Por mais distantes que pareçam A Espinha do Diabo eBlade 2, os dois filmes têm tudo a ver. Afinal, foram feitospelo mesmo diretor, que também possui veleidades de autor. EmA Espinha do Diabo, Del Toro filtra o caos do mundo emguerra pela perspectiva de crianças encerradas num orfanato.Essas crianças são na maioria órfãs ou foram abandonadas pelospais, que partiram para lutar na Guerra Civil espanhola. Oorfanato é o tipo do ambiente sórdido e doentio. É minado porrivalidades e obsessões, de ordem sexual ou não. A violência éonipresente e o drama do filme, se você viu, decorre de um crimeque não foi resolvido (e cuja vítima vai cobrar a solução). Umahistória de fantasmas, portanto. Você pode substituir os fantasmas pelos vampiros deBlade 2. Há outra guerra, entre os vampiros e os humanos.Existem rivalidades e traições, existem pulsões sexuais nãoconsumidas, como a que une o herói, Blade, à filha do chefe dosvampiros, interpretada por Leonor Varela. E existem os mutantes,a criação científica do que deveria ser o vampiro perfeito paraconsagrar a dominação da espécie. É aí que entram os conflitosfamiliares. O vampiro-mor está disposto a sacrificar suas criasem nome da preservação da espécie. Elas - a doce Nyssa e odestrutivo Nomak - se rebelam contra a autoridade desse pai, queprecisa ser destruído. Não é por acaso que Guillermo Del Toro gosta tanto deAlfred Hitchcock. Com as chaves da psicanálise, é fácil salvarqualquer filme do mestre do suspense. Hitchcock e Sigmund Freudnasceram um para o outro. Pode-se invocar a psicanálise pararessaltar a força de Blade 2 como tragédia familiar. Ninguémvai fazer isso, em sã consciência, porque seria desperdiçar boamunição com tanto fogo de artifício. Mas a possibilidade existe.Não se pode esquecer que, além da personalidade do próprio DelToro, Blade 2 é produto de outro criador importante. StanLee, o pai do Homem-Aranha é, aqui, produtor-executivo, comono filme de Sam Raimi em cartaz há algumas semanas. E osconsultores do filme são os quadrinhistas Timothy Bradstreet eMike Mignola (de Hellboy). Críticos: eles gostam de dizer que Stan Lee, à frente daMarvel Comics, revolucionou as histórias em quadrinhos com seusheróis problemáticos. Não apenas o Homem-Aranha. OSurfista Prateado também. Todos tendem a perambular como almaspenadas pela América em crise. É o subtema de Blade 2. Atépor ter aprendido cinema na escola, Del Toro pratica a arte dacitação e da referência. Ele adora não apenas o Nosferatu deWilhelm Friedrich Murnau, mas também o Drácula de BramStocker, revisto por Francis Ford Coppola. Adora mesmo as artesmarciais. Blade 2 carrega nas cenas de lutas, muito bemcoreografadas, por sinal. Vem disputar espectadores com OPacto dos Lobos, de Christopher Gans, outra aventurafantástica, só que mais épica, também em cartaz.Serviço- Blade 2 _ O Caçador de Vampiros (Blade 2). Ação. Dir.Guillermo del Toro. EUA/2002. Dur. 115 min. Com Wesley Snipes,Kris Kristofferson, Ron Pearl. 14 anos

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