Björk brilha em trilha sonora redentora

Em Dançando no Escuro, a redenção está na música. E a simultaneidade dela com as imagens rendem momentos de extrema ternura e força. A começar pelos primeiros segundos de filme em que uma peça orquestral suntuosa é executada próximo à tela escura. Não há o certificado do Dogma 95 - Lars von Trier o subverte em vários fotogramas -, mas, no entanto, é um início emblemático. Uma síntese do que está por vir.O caráter redentor fica ainda mais claro (sem nenhum trocadilho) em Cvalda, música que traz o dueto das belas: Catherine Deneuve e a autora da trilha sonora, Björk. "Ouça a música barulhenta das máquinas e transcenda", é o que auto-conselha a personagem Selma na canção, enquanto conclama os outros operários para uma coreografia dentro da aborrecida usina têxtil na qual trabalham. Outro grande momento - senão o mais emocionante de todos - é aquele que se passa à beira da linha férrea. A intensidade de I´ve Seen It All cresce na medida em que Selma e seu pretendente ensaiam uma aproximação impossível. Ele pergunta se ela realmente não enxerga e ela responde a frase título. É uma cena de encher os olhos com a profusão de tomadas e a sutileza dos acordes, isso com direito a coro de operários barítonos e voz original de Thom Yorke, guitarrista e vocalista do Radiohead.A discrição impede revelar a razão, mas a interação entre Selma, seu filho Gene e os proprietários do trailer que os abriga, na sombria Scatterheart é digna de nó na garganta. Ainda na discrição (não se vai revelar o final nem oferecer subsídios para tanto), a marcha 107 Steps segue no mesmo estilo cortante.Vale lembrar que as incursões musicais de Dançando no Escuro são resultado da fuga de Selma. Devota da positividade coreografada característica dos musicais hollywoodianos, ela tenta escapar das garras de seu mundo redutor. "Não é tão ruim quanto parece", diz ela sobre a cegueira iminente.Discussões relacionadas ao distanciamento dos itens dogmáticos e melodramas à parte - Dançando no Escuro os têm, é verdade -, o trabalho autoral de Björk é arrebatador. A parceria que a cantora islandesa estabelece com Lars von Trier e o arranjador Vincent Mendoza é responsável por ritmos apropriadíssimos às imagens. Um espetáculo para deficientes visuais (em todos os níveis) apaixonados por música.

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