'Birdman', filme de Alejandro Iñárritu, abre o Festival de Veneza

Longa traz ator que foi super-herói lutando para recuperar a fama

Luiz Zanin Oricchio - ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2014 | 16h18

VENEZA - Começar bem é tudo. E a 71.ª edição do Festival de Veneza começou bem nesta quarta-feira com o primeiro concorrente, Birdman, produção norte-americana dirigida pelo mexicano Alejandro Iñárritu (o González agora ele só abrevia com G.). A história é a de um ator que já viveu um super-herói (O Homem Pássaro do título) e agora deseja mostrar a si e à família que também é capaz de interpretar uma peça autoral, escrita por ninguém menos que o cult Raymond Carver (o escritor de Short Cuts, que deu no grande filme de Robert Altman). Na verdade, trata-se de uma peça de teatro de Carver, De Que Coisa Falamos Quando Falamos de Amor.

Em entrevista no festival que vai até o dia 6 de setembro, Inárritu disse que só poderia fazer esse filme com alguém que de fato tivesse vivido um super-herói na tela, o que é o caso de Michael Keaton, o Batman. "Mas também era fundamental alguém que topasse sair da zona de conforto e transitar entre a comédia e o drama", como faz o personagem de Keaton, o ator Rigan Thomson. Ele é um tipo atormentado, que deseja a fama no palco após ter encarnado o super-herói. Ouve uma estranha voz profunda, que o critica e tenta comandar seus atos. Mantém alguns poderes, como o dom da levitação e a capacidade de mover objetos metálicos apenas com o poder da mente.

Dito assim, parece risível. E talvez até seja mesmo, porque o diretor calibra seu personagem entre o dramático e o cômico. Sobre esse ponto, de passagem, Inárritu disse que depois de ter feito muitos filmes com grande peso dramático, queria experimentar a leveza da comédia - desejo que estaria na origem deste projeto.

O fato é que, além de contar com bom elenco (além de Keaton, Edward Norton, Naomi Watts e Emma Thompson), Inárritu faz fé num dos traços característicos do seu cinema - a energia que impõe à narrativa, com cenas que vão de closes a planos sequências caprichados e intensos.

Nota-se que, ao trabalhar com atores famosos, Inárritu os tensiona de modo a assumirem riscos. "Fiquei impressionado ao ver o filme sobre Philippe Petit, o francês andou sobre um cabo de aço entre as Torres Gêmeas", diz Inárritu. Fez com que os seus atores e suas atrizes vissem o documentário de James Marsh, O Equilibrista, sobre a façanha de Petit.

Na verdade, ele toma a ousadia de Petit como metáfora para o desafio da arte. Por intermédio dessa história, mesclada de realismo com traços fantásticos, Inárritu toca em questões bastante interessantes: a procura alucinada pela fama que, depois de conquistada parece mais um peso que uma vitória, a competição desabrida no meio artístico, a arrogância da crítica, que se julga capaz de determinar o sucesso ou o fracasso com o mero exercício da opinião.

Coisas da natureza humana, enfim, e exacerbadas num meio e numa sociedade em que o sucesso é a medida de todas as coisas. O espírito latino de Inárritu, talvez ainda não dominado pela indústria, impõe uma visão crítica a essa ordem das coisas, num filme de alguns momentos brilhantes, outros divertidos, exemplo de que se pode fazer boas coisas mesmo no esquema dos grandes estúdios. Em geral, não se faz, mas é possível. E o filme, inclusive, fala dessa possibilidade e dos seus limites.

Messi. Pela seção paralela Giornate degli Autori, foi exibido o documentário Messi, do diretor espanhol Álex de la Iglesia. O filme busca reconstituir a trajetória do jogador do Barcelona com depoimentos de familiares e amigos de infância e também de jogadores e técnicos de futebol. Para quebrar a formalidade, as conversas acontecem num restaurante, onde as pessoas, em torno de uma mesa e saboreando bons vinhos, falam do boleiro.

Há também imagens da infância do menino de Rosário, que já fazia misérias com a bola aos 6 anos, incentivado pela avó. O problema do crescimento, causado por uma deficiência hormonal, é mostrado sem nenhum rodeio. Assim como a admiração de jogadores como o holandês Cruyff e o conterrâneo Diego Maradona. Menotti, ex-jogador e ex-técnico da Argentina, conversa com o atual treinador da seleção dos hermanos, Alejandro Sabella.

Vemos os gols, o incrível domínio de bola, as passadas curtas e rápidas que têm encantado os que gostam do futebol. Cruyff entende que Lionel Messi tira vantagem da pouca estatura, pois as passadas curtas, aliadas ao prodigioso domínio técnico, possibilitam que ele mantenha a bola próxima dos pés e mude de direção de maneira constante.

O Brasil entra no filme com dois personagens. Primeiro, Ronaldinho Gaúcho, ídolo do Barcelona na época em que Messi começava e que tratou o novato como a um filho, inclusive dentro de campo, dando-lhe passes açucarados para que Messi fizesse seus gols.

O outro surge quando Menotti diz que uma característica de Messi lhe parece a mais impressionante. "Ele para uma arrancada veloz em dois centímetros. E arranca de novo na mesma velocidade", espanta-se.

Alguém lhe pergunta se já havia visto coisa parecida. Menotti garante que sim: "Pelé fazia isso". E ajunta: "Mas vamos deixar Pelé de lado, porque não se pode falar dele quando o assunto é futebol. Pelé é um extraterrestre"

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