Tony Cenicola/The New York Times
Tony Cenicola/The New York Times

Biografia retrata Mike Nichols, de sua obsessão com perucas aos sets de filmagem

Diretor de 'Quem tem Medo de Virginia Woolf?' e 'A Primeira Noite de um Homem' foi um homem multifacetado

Dwight Garner, The New York Times

30 de janeiro de 2021 | 05h00

Quando o escritor e diretor Mike Nichols era jovem, ele teve uma reação alérgica à vacina contra a coqueluche. O resultado foi uma completa e duradoura falta de cabelo. Uma maneira de ler a nova biografia de Mark Harris, Mike Nichols: A Life, é como uma terna comédia sobre um homem e suas perucas.

Ele conseguiu seu primeiro conjunto (cabelo e sobrancelhas) antes de ir para a faculdade. Era terrível. Nichols frequentou a Universidade de Chicago, onde Susan Sontag também era estudante. Uma razão pela qual eles não namoraram, Harris escreve, é que “ela ficou horrorizada com sua peruca”.

Nichols se mudou para a cidade de Nova York, onde tentou ser comediante. Uma amiga disse que ele entrava no seu apartamento minúsculo e “o cheiro de acetona” – removedor de cola de peruca – “dava um soco na sua cara”.

Nichols encontrou a fama aos vinte e poucos anos. Suas apresentações de comédia improvisada com Elaine May, que ele conhecera em Chicago, eram inovadoras e irresistíveis. Eles levaram seu show para a Broadway em 1960, onde Nichols conheceu Richard Burton. E, por meio de Burton, ele viria a conhecer Elizabeth Taylor.

No set de Cleópatra, Taylor perguntou ao estilista de penteados da produção: “Você faz perucas personalizadas? Porque tenho um amigo que é comediante em Nova York, e ele usa uma das piores perucas que eu já vi”. Em pouco tempo, os topetes de Nichols eram incomparáveis.

“Levo três horas todas as manhãs para virar Mike Nichols”, ele disse ao ator George Segal. Ele encarava tudo com senso de humor. Costumava contar que, um dia, seu filho Max engatinhou até seu lado da cama e, vendo apenas a parte de trás de sua cabeça, gritou: “Cadê o rosto do papai?”.

Já falei muito sobre seu cabelo e a falta dele. Mas crescer careca foi, disse o irmão de Nichols, “o aspecto definidor de sua infância”.

Os dois primeiros filmes de Nichols foram Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e A Primeira Noite de um Homem - o primeiro furioso, ousado e adulto, o segundo definidor do espírito de um tempo. Ele dirigiu quatro sucessos consecutivos quase ao mesmo tempo. Aí vieram Oscars, prêmios Tony e uma avassaladora riqueza.

Ele compensou seus tempos de esquisitão com uma vingança. Colecionou cavalos árabes e obras de Picasso, fez amizade com Jacqueline Kennedy, Leonard Bernstein e Richard Avedon. Era um príncipe arrogante que se tornou mestre daquilo que Kenneth Clark gostava de chamar de swimgloat, um jeito de navegar pela alta sociedade como se estivesse numa barcaça feita de prata e seda.

Nichols nasceu Michael Igor Peschkowsky (ou Igor Michael, não está claro) em Berlim no ano de 1931. Seu pai era um médico judeu nascido na Rússia que mudou o sobrenome para Nichols depois que a família emigrou para os Estados Unidos no final dos anos 1930. A família tinha algum dinheiro, e entre os pacientes do pai de Nichols em Nova York se encontrava o pianista Vladimir Horowitz. Nichols frequentou boas escolas em Manhattan, como a Dalton.

Na Universidade de Chicago, ele se tornou um ávido leitor e cinéfilo. Sua perspicácia era intimidante; as pessoas tinham medo dele. A sagacidade de May era ainda mais devastadora. Eles eram feitos um para o outro. Nunca chegaram a ser um casal romântico, escreve Harris, embora no início talvez tenham dormido juntos uma ou duas vezes.

Harris é autor de dois livros anteriores, Pictures at a Revolution e Five Movies and the Birth of the New Hollywood e Five Came Back: A Story of Hollywood and the Second World War. Ele também é repórter de entretenimento de longa data com muito talento para a criação de cenas.

Ele está no seu melhor quando nos leva para dentro de uma produção em Mike Nichols: A Life. Seus capítulos sobre a realização de três filmes em particular - A Primeira Noite de um Homem, Silkwood - O Retrato de uma Coragem e Angels in America - são milagrosos: astutos, precisos, íntimos e engraçados. A sensação é que cada um poderia virar um livro.

Nichols era um diretor de atores. Era acolhedor, encantador, vasto em suas afinidades humanas. Tentava saber o que um ator precisava e o proporcionava. Fazia de tudo para conseguir o que queria. Mas também tinha um lado de aço.

Demitiu Gene Hackman logo na primeira semana de A Primeira Noite de um Homem. Hackman estava interpretando mister Robinson, mas não estava funcionando, em parte porque, aos 37 anos, ele parecia jovem demais para o papel.

Sacrificar alguém logo no começo pode ser um elemento motivador para o elenco restante, foi a lição que ele aprendeu. Depois demitiu Mandy Patinkin no início das filmagens de A Difícil Arte de Amar e trouxe Jack Nicholson para interpretar o marido infiel de Meryl Streep.

Nichols esteve à frente de muitos fracassos bem caros como The Day of the Dolphin, com George C. Scott; O Golpe do Baú, com Nicholson e Warren Beatty; e De que Planeta Você Veio?, com Garry Shandling. Ler os relatos de Harris sobre a produção desses filmes é como assistir a um cozinheiro jogando os restos no lixo.

Os fracassos de Nichols na Broadway contam com uma montagem de Esperando Godot com Steve Martin e Robin Williams. Suas falhas o abalaram. Ele lutou contra a depressão (uma de suas placas de carro dizia “anomia”) e teve impulsos suicidas depois de começar a tomar Halcion, um benzodiazepínico. Ele tinha, escreve Harris, “uma necessidade quase punitiva de provar que seus críticos estavam errados”.

Ele tinha um lado maníaco. Cheirou sua cota de cocaína e, por um tempo, nos anos 1980, usou crack. Dá para imaginá-lo chapado, correndo de um lado para o outro, do set de filmagem para a Broadway, como se estivesse atravessando uma sucessão de portas giratórias.

Harris detalha as muitas colaborações de seu biografado com Streep e Nora Ephron. Nichols se casou quatro vezes. Seu último casamento, com Diane Sawyer, foi o que durou.

Nichols era um homem difícil de se conhecer, e não tenho certeza se o entendemos muito melhor no final de Mike Nichols: A Life. Era um homem em movimento perpétuo, e Harris o persegue com paciência, clareza e cuidado. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

 

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