"Bicho" volta sete vezes premiado

Foi uma vitória e tanto: Bicho deSete Cabeças recebeu sete dos 12 prêmios a que concorria, nagrande festa que a Academia Brasileira de Cinema fez na semanapassada, no Teatro Municipal, do Rio. Houve um coro dedescontentes, que apostavam no triunfo de Lavoura Arcaica,que Luiz Fernando Carvalho adaptou do livro de Raduan Nassar.Lavoura recebeu dois prêmios importantes: o de melhor atriz,para Juliana Carneiro da Cunha, e melhor fotografia, para WalterCarvalho. O roteirista do Bicho, Luiz Bolognesi, não hesitaem definir o filme de Carvalho como grande, uma obra-prima.Está contente com a vitória e acha que ela foi valorizada aindamais por um concorrente de tão alto nível. É possívelcompreender o descontentamento dos que esperavam a consagraçãofinal de Lavoura, mas Bicho também tem defensores quenão o consideram menos do que raçudo. Somados aos votantes darecém-criada academia, produziram esse belo triunfo. Bicho de Sete Cabeças, com os sete Grandes PrêmiosBR no currículo - o Oscar do cinema brasileiro -, volta nesta sexta-feira ao cartaz no Cine-Arte Lilian Lemmertz. O filme de LaísBodanzky, nunca será demais lembrar, venceu os festivais deBrasília, no fim de 2000, e o do Recife, no ano passado. Seusdetratores consideram um defeito o que é a qualidade do filme deLaís: é adolescente, dizem. Pode ser que seja, pelo entusiasmo,pela bravura com que põe na tela a odisséia pessoal vivida porAustregésilo Carrano e por ele narrada no livro autobiográficoque inspirou a diretora e seu marido-roteirista Laís descobriu O Canto dos Malditos quandointegrava um grupo de estudos para discutir diferentes aspectosda cidadania e da vida social. Imediatamente, percebeu opotencial do livro. Enfrentou todo tipo de oposição paratransformá-lo em filme. Nenhuma empresa queria associar seu nomeao Bicho, que trata de drogas e loucura. Pronto, o filme,que tanta gente considera anacrônico - uma história dos anos1970 - virou bandeira para os que lutam por um tratamento maishumano para os portadores de doenças mentais. Marido e mulher ganharam dois dos sete prêmios doBicho, sendo os outros: melhor filme, ator (Rodrigo Santoro) ator coadjuvante (Othon Bastos), montagem (Jacopo Quadri eLetizia Caudullo) e trilha sonora (André Abujamra). Você pode,mais uma vez, conferir a justiça dessas premiações. Bichocritica o sistema manicomial brasileiro por meio da história dojovem internado pelo pai por causa de um problema de drogas. Osinimigos do filme dizem que ele é datado, que isso não ocorremais. Ao fazê-lo, deixam de viajar nas imagens poderosas doBicho, que pode ser aproximado de outros filmes nacionaisrecentes (e não menos importantes). Como o próprio LavouraArcaica e também Abril Despedaçado, de Walter Salles, eAs Três Marias, de Aluizio Abranches, Bicho recorre arelações familiares autoritárias, entre pais e filhos, ou entremães e filhas, para colocar na tela a cara do Brasil atual.

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