Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Betty Faria ganha mostra no CCBB em homenagem aos seus 80 anos

Ciclo Betty Faria - 80 anos começa nesta quarta (22) e vai até 11 de outubro, com exibição de 15 longas da atriz, além de debates sobre o cinema nacional

Luiz Carlos Merten, Especial pa

22 de setembro de 2021 | 14h45

Elisabeth Maria Silva de Faria talvez seja desconhecida - quem é ? -, mas com o nome artístico de Betty Faria é uma das mais queridas e apreciadas atrizes do audiovisual no País. Na TV e no cinema, criou personagens de mulheres fortes, sensuais. E até quando mudou o registro para fazer uma doméstica no desglamourizado Romance da Empregada, Betty foi maravilhosa. Não por acaso, foi o papel que lhe valeu mais prêmios e elogios. Foram três troféus internacionais – em Havana, Sorrento e o do Festival de Cinema Íbero-americano -, mais o Prêmio Air France, no Brasil. 

Filha de militar, Betty sempre foi rebelde. Chama-se assim o volume a ela dedicado na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial - Rebelde por Natureza. Nascida no Rio, em 8 de maio de 1941, a rebelde ganha agora a homenagem do CCBB-SP, que começa nesta quarta, 22, o ciclo Betty Faria – 80 Anos. Com curadoria de Leandro Pardi, ex-coordenador da Cinemateca Brasileira, o evento apresenta uma seleção de 15 títulos, incluindo obras icônicas, não só de Betty como do cinema brasileiro, e também raridades. A maior delas talvez seja Os Monstros de Babaloo (1971), do dublê de cineasta e artista plástico Elyseu Visconti, que morreu em 2014. Para muitos espectadores jovens, esse filme poderá ser uma descoberta. 

O ciclo anuncia dois debates – um sobre protagonismo feminino no cinema brasileiro, no dia 7 de outubro, e outro no dia 9, com a própria Betty Faria avaliando seus filmes em conversa com o curador. O ciclo prossegue até 11 de outubro. Vale lembrar como a autora - Tânia Carvalho – define a biografada no livro da Aplauso. Betty tinha 64 anos na época. A atriz que sempre foi símbolo de mulher bonita, gostosa, faceira, interessante, de nariz arrebitado, corpo com tudo em cima, continua igual à jovem que sempre foi, diz Tânia. Só que com mais rugas e sabedoria. Criada no catolicismo, foi umbandista e se encontrou no budismo da corrente de Sutra de Lótus, que lhe deu a paz interior. 

Pensou em Betty, que imagens vêm à mente? Betty foi uma gloriosa Tieta na TV. No cinema, a Leniza Mayer de A Estrela Sobe, que Bruno Barreto adaptou do livro de Marques Rebelo, a Salomé de Bye-Bye Brasil, de Cacá Diegues, e a Fausta de Romance da Empregada, de Bruno Barreto, fizeram história. Dois filmes ficarão disponíveis no streaming durante toda a duração do evento no CCBB – Marlene de Souza, que ela fez na Itália com Maria de Medeiros, e Perfume de Gardênia, de Guilherme de Almeida Prado.

 

Betty estudou balé clássico e moderno e iniciou-se como dançarina no corpo de baile de programas de TV. Foi vedete nos shows de Carlos Machado e aos 20 anos, em 1961, tornou-se a Garota Kibon no programa Grande Gincana Kibon, da extinta TV Rio. 

Tieta e outros papéis icônicos da carreira

Estreou como atriz numa novela de Janete Clair, Acorrentados, na TV Rio, em 1969, dirigida por Daniel Filho. No mesmo ano, participou de outras duas novelas de Janete na Globo – Rosa Rebelde e Véu de Noiva -, também dirigida por Daniel. Véu de Noiva é considerada a primeira novela moderna. Betty empatava a ligação do casal principal, formado por Cláudio Marzo e Regina Duarte.

Casou-se com Marzo e viveu com ele entre 1967 e 69. Depois ligou-se a Daniel Filho, entre 1973 e 77. Teve filhos com os dois. 

Na Globo participou de muitas novelas de sucesso – Cavalo de Aço, O Espigão, Água Viva, Partido Alto, etc. Foi a viúva Porcina da versão censurada de Roque Santeiro. Foi um estouro em 1989 como Tieta, fazendo a protagonista da novela que Aguinaldo Silva adaptou do romance de Jorge Amado.

No cinema, o primeiro papel foi O Beijo, em 1964. Dez anos mais tarde foi a Leniza Mayer de A Estrela Sobe, repetindo o papel numa participação especial em Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1976, também de Bruno Barreto, e adaptado de Jorge Amado. Leniza, a cantora do rádio, Salomé, a estrela que divide com o Lorde Cigano de José Wilker a atração da Caravana Rólidei, que viaja pelo Norte do Brasil para que Cacá Diegues dê adeus a um Brasil que se despede para saudar o outro, que surge. Em Bye-Bye Brasil, com a trilha de Chico Buarque, Cacá criou imagens emblemáticas.

O povo na praça da cidadezinha, magnetizado por aquele rádio com imagem, a TV. A neve que, por um toque de mágica, cai no sertão. E ainda tem o sanfoneiro, Ciço, o jovem Fábio Júnior. É um dos mais belos filmes do cinema brasileiro. Fausta, em Romance da Empregada, vive uma existência miserável, abusada pelo marido – Daniel Filho. Com esse idoso, Brandão Filho, ela redescobre a autoestima e a possibilidade de um recomeço. Conseguirá? Betty tem sido guerreira em defesa da classe artística e do povo brasileiro contra todas as ameaças à democracia. Tantos grandes filmes e papéis. Tantas novelas. Nós, seu público, só temos a agradecer. 

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