Bertrand Tavernier revisita a França ocupada

Bertrand Tavernier está tãoentusiasmado com seu filme mais recente que fez o que não deixade ser uma inovação. Quem ligar atualmente para o escritório dodiretor, em Paris, vai ouvir uma gravação na secretáriaeletrônica, uma canção meio marcial, bonita e movimentada. Logoentra a voz do cineasta informando que a música pertence à épocaretratada em seu novo filme. E ele anuncia: com esse filme, estávoltando à França da ocupação e da resistência. Tavernier pedepassagem para Laissez Passer, que está em fase definalização. Havia na França, nos anos 40, uma empresa produtoraalemã chamada La Continental. Colocava dinheiro no cinemafrancês. Produziu o célebre Le Corbeau, de Henri-GeorgesClouzot. A Continental não era uma firma nazista, mas naquelesanos de chumbo aceitar dinheiro alemão para fazer filmescolocava problemas de foro íntimo e ordem moral, se o sujeitonão fosse um colaboracionista. Tavernier conta a história dedois homens: um assistente de direção que se emprega naContinental justamente para camuflar sua atividade clandestinana resistência e um roteirista que resiste aos apelos da empresaalemã, por razões de consciência. "Não é uma ficção", avisa Tavernier. Ou, melhor, é,mas ele dá tratamento ficcional a histórias e personagens davida. O roteirista é Jean Aurenche e, se você conhece Tavernier,sabe quem é. Aurenche, que formava dupla com Pierre Bost, ligouseu nome ao clássico Adúltera (Le Diable au Corps), deClaude Autant-Lara, e, depois, a todo aquele cinema francês dequalidade contra o qual se insurgiram os jovens turcos danouvelle vague. Tavernier, que antes de ser diretor era crítico,e dos bons, tirou Aurenche do gueto, confiando-lhe, entre outros o roteiro de A Lei de Quem Tem o Poder, de 1981. Enquantopreparavam o roteiro, Aurenche contava-lhe histórias. Muitashistórias sobre a Continental. Tavernier há quase 20 anos sonhacom a realização desse filme. Conseguiu fazê-lo com atores queadmira: Marie Gillain, sua estrela em A Isca; JacquesGamblin e Denis Polidars, que faz o papel de Aurenche. Laissez Passer, deixem passar. "Laissez passer aminha história sobre uma França no limite do compromisso e daresistência", ele pede. O assistente de direção, calcado emfiguras reais, vive esse conflito: quer virar diretor, mas atéque ponto é válido aceitar dinheiro do inimigo para realizar umsonho? Tavernier ama esse tipo de conflito. "É o meu temapreferido: gosto de contar histórias de gente que desafia asconvenções e os códigos de sua época." Cita o Dexter Gordon dePor Volta da Meia-Noite, o filme que nasceu da sua paixãopelo jazz, e o professor-guerrilheiro de Quando tudo Começa."O pintor de Um Sonho de Domingo certamente não é umrevolucionário, mas sua filha, a personagem interpretada porSabine Azema, é uma mulher à frente do seu tempo e é ela queresume o sentido daquele filme", explica. Truffaut - O tema da França sob a ocupação, ocolaboracionismo e a resistência no meio artístico evocamFrançois Truffaut e seu O Último Metrô. Tavernier estáfazendo o seu Metrô? Ele diz que não. "É uma época muito rica;permite os mais diferentes enfoques." Conta a sua versão decertos fatos. Acha que outros poderiam colher farto materialpara inspiração, escavando na memória do mesmo período. Mas oassunto é Truffaut, que chegou quase à calúnia e à difamaçãopessoal nos seus ataques a Autant-Lara, que respingavam emAurenche e Bost. O repórter não se furta a manifestar seu desconfortodiante de Truffaut: as recentes reprises de seus filmes têmmostrado que obras consideradas geniais são, na verdade,bastante decepcionantes. Em que sentido, Tavernier quer saber?Truffaut é mais acadêmico que clássico, observa o repórter, emuitos de seus filmes exprimem o ponto de vista de umpequeno-burguês, não de um revolucionário, como pretendiam osturcos da nouvelle vague, achando que iam mudar o cinema (e omundo). Tavernier concorda. "A importância de François tem sidosuperdimensionada, mas ele, de qualquer maneira, tem filmesnotáveis." Cita, o que não deixa de ser surpreendente, um dosfilmes mais discutidos de Truffaut: Atirem no Pianista.Segundo Tavernier, é o que melhor resiste. Já que Tavernier é um cinéfilo, o assunto continua a sero cinema, de maneira geral. Tavernier não vai reatualizar seulivro clássico (com Pierre Corsodon) 30 Anos de CinemaAmericano, que já foi atualizado para 50 Anos de CinemaAmericano? Ele conta que recebeu insistentes convites, quaseintimações, da editora para publicar a nova versão. Diz que nãotem tempo, seria uma pesquisa muito extensa, que não pode fazeragora. Mas anuncia a boa nova: um amigo americano, de Nova York,está disposto a fazer a atualização da obra que é uma referênciaobrigatória para jornalistas e pesquisadores. 50 Anoscorrige muitas opiniões emitadas por Tavernier e Corsodon em30 Anos. Natural, pois ele diz que o bom crítico tem deerrar em pelo menos 50% de suas opiniões. "Se acerta 50% já émuito bom na função", comenta. Projeto - Cita os casos de Truffaut, cuja revisãoconsidera necessária, e de Michael Powell, cuja revisão já foifeita e revelou um artista muito maior do que os críticospensavam, nos anos 40 e 50. Cita Alberto Cavalcanti, o maisinternacional dos diretores brasileiros. Por causa de Cavalcanti a conversa cai no Institut Lumière, de Lyon, ao qual Tavernierestá ligado. O instituto edita uma coleção de livros sobrecinema, sob o título geral de Actes du Sud. Há tempos Tavernieranunciou a edição de um livro sobre Cavalcanti. "Vai sair até ofim do ano", ele diz. E explica que o atraso deveu-se a muitosfatores. "Pedimos a Nelson que escrevesse um texto; achávamosmuito importante ter a sua opinião sobre Cavalcantiregistrada." Nelson é Nelson Pereira dos Santos, um dos grandesnomes da história do cinema brasileiro. Tavernier fala de Nelsoncom respeito e amizade, mas lhe aplica um puxão de orelha: "Elese comprometeu conosco, esgotou-se o prazo, esperamos tantoquanto possível e nada do seu texto." Como ele próprio é crítico, e grande crítico, o repórterpergunta a Tavernier se é capaz de avaliar sua obra. "É muitodifícil", ele diz. Não possui distanciamento para falar demuitos filmes aos quais permanece ligado. Existe uma preferênciatemática, por um tipo de personagem, que ele já manifestou. Masos filmes são estilisticamente diferentes entre eles. Se há um elemento que caracteriza o cinema de Tavernieré a diversidade dos gêneros abordados. Há desde o impressionismode Um Sonho de Domingo até o engajamento social, em filmesque abordam os grandes temas contemporâneos da França: a moradia a medicina, as horas de trabalho, a marginalização da juventude o ensino. Ele cita outra característica: a busca do movimento.Seus filmes são movimentados, não no sentido hollywoodiano daação, mas porque ele acha que é preciso uma dinâmica paramostrar personagens transformadores da arte e da ordem social,como os dele. Estilo - Tavernier não se arrisca a não possuir umestilo, ajustando-se a temas tão diversos? Ele diz que ama adiversidade e cita mais uma vez Michael Powell, um de seusídolos. Cita Akira Kurosawa. "Akira sempre foi muito criticadopor saltar de uma adaptação de ´Gorki´ (´Ralé´) para umaabordagem do neo-realismo (Viver); de um filme de samurais paraoutro de temática contemporânea; e terminou a vida dele fazendoShakespeare." Se tivesse ficado fiel a um estilo, Tavernieracha que ele teria empobrecido seu cinema. "Mudava para serfiel a si mesmo, para enriquecer-se", observa. Hoje, pode-secolocar a obra kurosawiana em perspectiva e ver que artistanotável ele foi, um dos maiores do cinema. E como há uma unidadenessa obra tão diversificada. Não é que ele queira se comparar a Kurosawa ou a Powell.Mas Tavernier aprendeu a lição dada pelo grande cinemaamericano. Pois há um grande cinema americano e os seus livrosretraçam sua história. Simultaneamente, horroriza-se com ocontrole que Hollywood exerce hoje sobre os mercados de todo omundo. Fica verdadeiramente espantado de saber que filmes comoPearl Harbor ou Planeta dos Macacos (a nova versão)ocupam um quarto de todas as salas do Brasil (cada um). Acha queé impossível. Cita o caso da França, que resiste a Hollywood eeste ano chegou ao recorde da ocupação de 60% do própriomercado. "Isso representa divisas, empregos e a afirmação dacultura e da soberania nacionais", diz. Critica um dos dogmas da globalização, que é a crença nomercado, como fator regularizador das diferenças. "O governoprecisa intervir; o que eu defendo não é o protecionismo, mas oestabelecimento de normas que ajudem a regularizar o mercado."Acaba de voltar da Coréia. Lá, o governo colocou barreiras àlivre circulação do produto estrangeiro, leia-se americano. Os filmes passaram a ter uma taxação mais elevada. Oresultado foi imediato: "O cinema coreano está se desenvolvendo artística e comercialmente." Hoje em dia, não há festivalinternacional sem filme da Coréia. Os filmes batem recordes nopaís, geram empregos, divisas. "Se o governo deixasse tudo parao mercado, estaria fazendo o jogo dos grandes capitaisinternacionais; a globalização é o formato que arranjaram paracontinuar mandando no mundo."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.